Žižek: não existe um retorno à normalidade pós-coronavírus

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22 Mai 2020

“Não existe um ‘retorno à normalidade’. A nova ‘normalidade’ deverá ser construída sobre as ruínas das nossas velhas existências, ou nos encontraremos imersos em uma nova barbárie cujos sinais já podem ser claramente intuídos agora.” É o que escreve o filósofo esloveno Slavoj Žižek, “ateu cristão”, em um texto antecipado na Itália pelo L’Osservatore Romano, no qual ele se diz convencido de que o distanciamento social fortalecerá o vínculo com os outros: “Às vezes, uma suspensão da socialidade é o único acesso à alteridade”.

A reportagem é de Iacoppo Scaramuzzi, publicada por Vatican Insider, 20-05-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Estudioso do marxismo, do idealismo alemão e da psicanálise lacaniana, Žižek acaba de publicar o livro “Virus” (Ed. Ponte Alle Grazie), no qual, relata Lorenzo Fazzini no jornal vaticano, ele observa como o surgimento do coronavírus funcionou como um amplificador de alguns tendências positivas e outras negativas da nossa sociedade.

Do lado negativo, “a atual disseminação da epidemia do coronavírus levou a uma epidemia igualmente vasta de vírus ideológicos que estavam adormecidos na nossa sociedade: fake news, teorias da conspiração paranoicas, explosões de racismo”. Mas também, e acima de tudo, muita solidariedade.

Slavoj Žižek está convencido disso e usa um termo que lhe é muito caro – um novo “comunismo” – para identificar as possibilidades de bem que podem surgir a partir das consequências da pandemia: “Não estou me referindo a uma solidariedade idealizada entre as pessoas: pelo contrário, a crise atual demonstra claramente que a solidariedade e a cooperação globais são do interesse da sobrevivência de todos e de cada um de nós, pois são a única escolha racional e egoísta a se fazer”.

Mais especificamente, “uma suspensão da socialidade às vezes é o único acesso à alteridade, um modo para sentir próximas todas as pessoas isoladas sobre a Terra. Essa é a razão pela qual estou tentando ser o mais solidário possível na minha solidão. E essa é uma ideia profundamente cristã: quando me sinto sozinho, abandonado por Deus, naquele momento sou como Cristo na cruz, em plena solidariedade com ele”.

Da injunção de Jesus a Maria Madalena: “Não me toques!”, parte um raciocínio de Žižek sobre a pandemia e a solidariedade: “Hoje, porém, no meio da pandemia do coronavírus, todos somos bombardeados precisamente pelos pedidos para não tocar nos outros ou, melhor, para nos isolarmos para manter uma distância corporal adequada. O que significa essa injunção: ‘Não me toques’ em uma situação dessas? As mãos não podem alcançar a outra pessoa; é somente a partir de dentro que podemos nos aproximar do outro. E a janela desse ‘dentro’ são os nossos olhos. Nestes dias, quando encontramos alguém próximo a nós (mas também um estranho) e mantemos uma distância adequada, um olhar profundo nos olhos do outro pode revelar muito mais do que uma abordagem física íntima”, escreve o filósofo esloveno citando Hegel.

“O ser humano é essa noite, esse vazio nada, que contém todas as coisas na sua simplicidade, uma riqueza infinita de muitas representações, imagens das quais nenhuma lhe pertence e que não estão presentes. Uma pessoa capta uma visão dessa noite quando olha os seres humanos nos olhos.”

Žižek diz: “Nenhum coronavírus pode nos privar de tudo isso. Por esse motivo, temos a esperança de que o distanciamento corporal fortalecerá a intensidade do nosso vínculo com os outros. É justamente agora, no momento em que devo evitar muitos dos meus entes queridos, que experimento plenamente a sua presença e a sua importância para mim. Já posso ouvir nos meus ouvidos a risada do cínico neste momento: ‘Ok, talvez viveremos momentos de proximidade espiritual, mas como isso nos ajudará a enfrentar a catástrofe que estamos vivendo?’, ‘Vamos aprender alguma coisa com tudo isso?’”.

Para o filósofo, “a única coisa clara é o fato de que o vírus despedaçará as nossas existências desde os seus fundamentos, causando não apenas uma quantidade imensa de dor, mas também um caos econômico pior até do que a grande depressão. Não existe um ‘retorno à normalidade’. A nova ‘normalidade’ deverá ser construída sobre as ruínas das nossas velhas existências, ou nos encontraremos imersos em uma nova barbárie cujos sinais já podem ser claramente intuídos agora. Não basta enfrentar a epidemia como um acidente infeliz, enfrentar as suas várias consequências e retornar às formas tranquilas com que fazíamos as coisas antigamente, talvez com alguns ajustes no nosso setor de saúde. Devemos levantar a pergunta-chave: o que deu errado no nosso sistema a ponto de sermos pegos despreparados por uma catástrofe, embora os cientistas tenham nos avisado há anos da sua possibilidade?”.

No livro, relata Fazzini, não faltam referências a questões específicas de atualidade, abordadas com a costumeira eficácia linguística do filósofo esloveno. “Os parques de diversões estão se transformando em cidades fantasmas: perfeito, não consigo imaginar um lugar mais estúpido e mais chato do que a Disneylândia. A produção de carros está seriamente afetada: bem, isso nos forçará a pensar em alternativas à nossa obsessão por veículos individuais. A lista poderia continuar”, escreve Žižek.

Diante dos que ainda procuram um bode expiatório nos migrantes que tentam atracar na Europa, o filósofo observa: “É difícil entender o seu nível de desespero se um território posto em quarentena por uma epidemia ainda é um destino atraente para eles?”.

E, quanto aos idosos entregues à morte, “a única outra ocasião em tempos recentes em que uma abordagem semelhante foi adotada, para o meu conhecimento – escreve Žižek –, foi nos últimos anos do regime de Ceauşescu na Romênia, quando as pessoas idosas simplesmente não eram aceitas no hospital, seja qual fosse o seu status, porque eram consideradas de nenhuma serventia para a sociedade”.

 

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