Um projeto de vida. Artigo de Stefania Monti

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15 Mai 2020

Publicamos aqui o comentário da biblista e capuchinha clarissa italiana Stefania Monti, do Convento de Fiera di Primiero, sobre o Evangelho deste 6º Domingo de Páscoa, 17 de maio de 2020 (João 14,15-21).

O artigo foi publicado por Il Regno, 13-05-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Apenas duas vezes a palavra “órfão/s” aparece no Novo Testamento: em João 14,18 e Tiago 1,27. O texto de Tiago está na linha do Primeiro Testamento, onde viúvas e órfãos, junto com o estrangeiro residente (ger), são considerados categorias sociais frágeis a serem protegidas.

Defender os direitos da viúva e do órfão, em particular, que não são protegidos por um marido e por um pai, é um ensinamento fundamental da Torá e dos Profetas (cf. Ex 22,21-22; Dt 24,17.19-21; 26,12-13; Is 1,17; Jer 7,6; Sl 146,9, apenas para citar alguns exemplos).

O próprio Deus se apresenta como seu pai e juiz – em seu favor, evidentemente – no Salmo 68,6, porque vivem na precariedade, indefesos e sozinhos.

João 14,18 pressupõe essas conotações, mas acrescenta uma que aparece tanto na literatura rabínica quanto na grega: órfão é também um aluno desprovido do próprio mestre, assim como a criança desprovida de seus pais.

Além disso, os discípulos, por terem sido gerados por Deus, estão na condição de filhos ou, melhor, de “filhinhos” (teknia), em João 13,33 e, especialmente, nas cartas joaninas (sete ocorrências no total) e “criancinhas” (paidia) amadas.

Jesus, portanto, não quer deixar órfãos e indefesos os seus, ou sem guia. Ele já é um parakletos, pois promete outro (14,16), mas promete, acima de tudo, que ele virá.

Esses poucos versículos, de fato, são construídos sobre alguns verbos que se repetem dentro de uma inclusão, da qual o versículo 18 está no centro.

Na abertura e no fechamento da nossa perícope (nos vv. 15 e 21, respectivamente), com dois versículos construídos de forma quiástica e como uma hipótese, especifica-se o que é o amor: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos... Quem acolheu os meus mandamentos e os observa, esse me ama”.

A linguagem parece a tradicional da observância das miṣwot, que um judeu conhece muito bem: “guardar” implica uma vigilância e uma constante atenção, uma adesão vital e envolvente a todos os aspectos da existência, na gratidão e na bênção.

As duas afirmações, além disso, construídas como se disse, são fáceis de recordar e de memorizar. Mas, acima de tudo, e como bem sabemos, declaram que o amor não é um fato afetivo, mas sim um projeto de vida reconhecível.

Ele foi enunciado primeiro no singular (entolen kainen, Jo 13,34), e é reproposto aqui com o mesmo termo no plural, porque muitas e diversas serão as modalidades para viver o amor e certamente nem todas previsíveis.

Talvez por isso também houve anteriormente uma promessa de não deixar os apóstolos totalmente indefesos (cf. Jo 14,13-14), e era a promessa de não abandonar nenhum pedido feito no seu nome. Essa também é uma palavra antiga sobre a força do Nome (bәšem JHWJ, cf. Sl 118,10ss), que o evangelista reapresenta em chave cristológica.

Essa promessa já é tranquilizadora, mas será reforçada por aqui que se segue, isto é, pela vinda do outro Paráclito que deve guardá-los e pela vinda/retorno de Jesus.

Se se trata da parusia ou da ressurreição, o texto não esclarece: é provável que se trate de ambas as coisas. Em contraste com o “mundo” fingidamente ordenado (kosmos), está a promessa da vida (v. 19), aquela vida plena que já havia sido vista no versículo 6 desse mesmo capítulo, na afirmação identitária de Jesus: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”.

Afinal, o amor é ordenado à vida e se identifica com ela: a Primeira Carta de João esclarece isso, dizendo que quem não ama permanece na morte e na lógica do pecado (cf. 1Jo 3,14).

Aquele que é o caminho, a verdade e a vida também é aquele que ensina os seus seguidores a viverem o mandamento que ele lhes entregou na sua qualidade de mestre e paráclito. Por isso, 1João 5,12 pode concluir de maneira lapidária: “Quem tem o Filho, tem a vida; quem não tem o Filho, não tem a vida”.

Se é verdade que um discurso de despedida contém o que está no coração de quem o pronuncia, deixando-o como uma herança, temos aqui, em poucos capítulos – e o sabemos –, o concentrado do Evangelho. Cada evangelista apresenta o seu.

João, centrado como está no amor e na vida, pode se cruzar com a Primeira Carta, para além de qualquer problema cronológico-redacional ou acerca das heresias da época.

 

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