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Por: André | 24 Mai 2014

Jesus partiu para o seu Pai e, ao mesmo tempo, está presente no coração daquelas e daqueles que olham para ele ao longo dos dois milênios: vós me vereis vivo e vós também vivereis.

A reflexão é de Raymond Gravel, padre da Diocese de Joliette, Canadá, e publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel, comentando as leituras do 6º Domingo da Páscoa – Ciclo A do Ano Litúrgico (25 de maio de 2014). A tradução é de André Langer.

Referências bíblicas:
Primeira leitura: At 8,5-8.14-17
Segunda leitura: 1 Pd 3,15-18
Evangelho: Jo 14,15-21

Eis o texto.

O extrato do discurso de despedida de Jesus ressuscitado que encontramos em São João e que a liturgia nos oferece nesse domingo, foi composto à luz da Páscoa e tenta responder a uma questão que as primeiras comunidades se colocaram: como Jesus, que morreu e que dizemos que ressuscitou, pode estar presente e agindo hoje? Nós nos fazemos esta pergunta ainda hoje...

1. Uma fé esperança

No domingo passado, vimos que a fé não é uma doutrina que se impõe e à qual devemos aderir. A fé é um caminho que não está previamente traçado; é um percurso a ser feito e a inventar incessantemente. O importante não é saber para onde o caminho nos leva... Urgente é colocar-nos no caminho, porque é no caminho que podemos encontrar o Cristo que se dá a conhecer no caminho: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). Mas se o caminho não está previamente traçado, nós não temos nenhuma certeza de estar no caminho certo. É por isso que o evangelista João nos convidava à confiança, não tanto por causa das palavras de Jesus, mas por causa das obras realizadas por ele. Como Jesus partiu, cabe agora aos cristãos agir como ele e realizar as mesmas obras que ele e obras possivelmente ainda maiores (Jo 14,12). Porque eles devem ser a presença do Cristo ressuscitado no coração do mundo. Por outro lado, como a fé nunca é uma certeza, a primeira leitura de São Pedro, na segunda leitura de hoje, nos convida a dar as razões da nossa esperança (1 Pd 3,15), e isso com bons modos e respeito (1 Pd 3,16).

2. O Amor

A única condição que torna presente o Cristo ressuscitado na Igreja é o Amor: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos” (Jo 14,15). Por outro lado, em seu evangelho, São João nos diz: “Se vocês tiverem amor uns para com os outros, todos reconhecerão que vocês são meus discípulos” (Jo 13,15). Mas atenção! Não podemos amar a Deus sem amar os humanos que nos rodeiam: “Se alguém diz: ‘Eu amo a Deus’, e no entanto odeia o seu irmão, esse tal é mentiroso; pois quem não ama o seu irmão, a quem vê, não poderá amar a Deus, a quem não vê” (1 Jo 4,20). Mas o que é o Amor? Na primeira leitura aos Coríntios, São Paulo nos dá uma boa definição. Ele descreve o amor como um caminho superior a todos os outros (1 Cor 13). Segundo ele, o amor é paciente, prestativo, humilde, acolhida do outro, dom de si, perdão, justiça, confiança, esperança e que tudo suporta. O amor dá a vida! O que quer dizer que, como cristãos, não podemos economizá-lo; caso contrário, daremos um contratestemunho da verdade e não poderemos ser presença do Ressuscitado.

Mas, como o Cristo pode estar presente hoje, através dos cristãos que vivem o mandamento do Amor? A resposta é bem simples: por seu Espírito: “Eu rogarei ao Pai, e ele vos dará um outro Defensor, para que permaneça sempre convosco: o Espírito da Verdade” (Jo 14,16-17). O primeiro Defensor, o Cristo, nos reconciliou com Deus; o segundo Defensor, o Espírito Santo, nos encaminhará para toda a verdade (Jo 16,13). O que significa que a verdade não é dada antecipadamente; ela se apresenta ao mesmo tempo que os cristãos vão avançando na estrada da sua vida, no caminho da fé, que não é traçado antecipadamente.

3. A fidelidade no Amor

Após a morte de Jesus, os discípulos viveram a falta, a ausência daquele que eles amaram e seguiram. E é pouco a pouco que eles vão tomando consciência da presença do Ressuscitado, por meio deles, pela ação do Espírito. Em sua reflexão, os cristãos compreenderam que são parte integrante do mistério de Deus. O Jesus de São João diz: “Naquele dia sabereis que eu estou no meu Pai e vós em mim e eu em vós” (Jo 14,20). E a única maneira de os cristãos viverem esta nova realidade é pela fidelidade no Amor: “Quem acolheu os meus mandamentos e os observa, esse me ama. Ora, quem me ama, será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14,21).

A missão cristã consiste, portanto, em recriar no mundo esta relação de amor entre nós e com Deus. O Espírito de Cristo que mora em nós torna-nos capazes de tal proeza. Na primeira leitura de hoje, o autor, São Lucas, nos faz um relato da missão de Filipe entre os samaritanos: “As multidões seguiam com atenção as coisas que Filipe dizia” (At 8,6). As pessoas não ouviam somente falar dos sinais da presença do Cristo ressuscitado pela boca de Filipe; eles viam o Cristo através dele. E São Lucas precisa que a missão de Filipe, que consistia em batizar os samaritanos que acolhem a Palavra de Deus, foi confirmada pelos apóstolos de Jerusalém, Pedro e João, pela imposição das mãos e pelo dom do Espírito Santo (At 8,17).

Obs.: Os apóstolos de Jerusalém decidem colegiadamente enviar Pedro e João (At 8,14). Pedro, embora seja o chefe, o papa, não decide sozinho: são os apóstolos em conjunto que tomam as decisões... Uma bela mensagem para a Igreja de hoje.

Para terminar, nos damos conta de que a Páscoa, a Ascensão e o Pentecostes são diferentes facetas de uma mesma realidade, de um mesmo acontecimento que se deu na cruz da Sexta-Feira Santa. Separá-los no tempo e no espaço permitiu aos primeiros cristãos reconhecer em Jesus o Caminho que conduz ao Pai, descobrir a verdade do Espírito que os habita e partilhar, numa corrente de amor, a vida que eles receberam do Cristo da Páscoa.

Como escreveu o teólogo francês Gérard Bessière: “Os nossos verdadeiros mestres vivem para sempre em nós. Eles nos despertaram para o conhecimento, a sabedoria e a vida. Após a morte, sua presença torna-se mais intensa na memória e sua mensagem ganha mais força ainda. Outrora, eles nos encaminhavam para a autonomia da nossa inteligência e da nossa consciência. Hoje, eles não nos ditam as condutas que devemos seguir, mas nos inspiram e estimulam. Eles nos acompanham interiormente. Nós continuamos a receber o melhor deles. Mais ainda talvez do que no tempo em que eles estavam perto de nós, eles nos vivificam. Eles são ativos em nós, mesmo quando levamos as nossas vidas... O mesmo acontece com Jesus, que partiu para o seu Pai e, ao mesmo tempo, está presente no coração daquelas e daqueles que olham para ele ao longo dos dois milênios: vós me vereis vivo e vós também vivereis. É falando de amor que ele acrescenta: eu me manifestarei. Ele não fala de grandes mudanças: ele se manifesta na intimidade, no segredo do coração, em qualquer gesto de doação e de gratuidade”.

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