El Salvador. Em contraste com os vizinhos, a pandemia fortalece o autoritarismo do governo

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Por: Wagner Fernandes de Azevedo | 28 Abril 2020

A América Central em sua diversidade é uma região de particularidades, que voltam a se expressar nesse momento pandêmico. Enquanto a Costa Rica apresenta o menor índice de letalidade da covid-19 de todas as Américas, e a Nicarágua segue o cotidiano em sua normalidade, em El Salvador as medidas foram radicalizadas antes mesmo de aparecer algum caso no país. O presidente Nayib Bukele tem utilizado do coronavírus para impulsionar a política autoritária que já se desenhava. Para além da quarentena militarizada no país, neste final de semana a Polícia Nacional e as Forças Armadas receberam autorização para o “uso da força letal” contra as pandillas do país.

Embora a faixa continental América Central já tenha sido formada por um único país, a República Federal de Centroamérica (1824-1839), desde suas independências, cada Estado assumiu características políticas próprias, mesmo com semelhanças econômicas, geográficas e culturais. Esse ar macondiano do continente hoje se expressa com o golpe de Estado hondurenho e a implementação de um governo corrupto, com o presidente comediante na Guatemala substituído por um médico defensor da pena de morte, com uma revolução de cunho socialista cooptada pelo personalismo de uma dinastia de discurso cristão messiânico na Nicarágua, com a até então calma, pacificista e republicana Costa Rica e, enfim, com um muçulmano milionário de 38 anos que exerce a presidência de El Salvador com memes no twitter. No entanto, as características desses governos têm apresentado consequências nas respostas à pandemia do novo coronavírus.

A Costa Rica governada por Carlos Alvarado apresenta o menor índice de letalidade da covid-19 em todo o continente americano. De acordo com os dados da John Hopkins University, que acompanha os casos de coronavírus em todo o mundo, são 695 casos até a tarde da segunda-feira, 27-04-2020, no país, com 6 mortes confirmadas, o que resulta em uma taxa de mortalidade menor que 1%. O país tem um sistema de saúde universal reconhecido, com ampla assistência social e serviços sanitários.

Já a Nicarágua tem oficialmente divulgados apenas 13 casos de contágio por coronavírus, e três mortes. Enquanto Daniel Ortega passou um mês sem aparecer a público, a pandemia se expandia por todo o mundo, mas segundo o governo, não pela Nicarágua, onde todas as atividades seguem em funcionamento, incluindo o campeonato nicaraguense de futebol, e até uma “marcha do amor nos tempos da covid-19” foi organizada pela vice-presidente Rosario Murillo. Porém, segundo levantamento da ONG Observatorio Ciudadano, o país tem pelo menos 316 casos suspeitos da covid-19.

Costa Rica e Nicarágua são como dois pontos extremos e opostos da poliédrica cultura política centro-americana. Mas em toda a peculiaridade da região, Nayib Bukele tem se tornado inovador com velhas práticas.

No pleito eleitoral, ao colocar-se como uma terceira via entre a Arena e o FMLN, Bukele prometeu uma nova forma de fazer política. O presidente mais novo da história de El Salvador, de uma família tradicional palestina, de fé islâmica, venceu a eleição com facilidade em primeiro turno, e vem gozando de alta popularidade no primeiro ano de mandato, chegando ao pico de 91% em janeiro. Em fevereiro, utilizou-se do respaldo com a população para ameaçar o parlamento do país. Sem contar com a maioria no legislativo, enviou as forças armadas do país para uma sessão extraordinária, em um domingo, 09-02-2020, para forçar a votação de um empréstimo de 109 milhões de dólares para aplicar em um projeto de segurança pública, o Plano de Controle Territorial.

Esta foi uma das principais bandeiras de campanha e tem sido um dos êxitos estatísticos do seu governo. As pandillas, ou as gangues, em El Salvador fizeram do país um dos mais violentos do mundo. Os grupos mais violentos são conhecidos como maras, que se espalham também por Honduras e Guatemala, e tomam o controle de parte dos territórios urbanos desses países pelo comando do narcotráfico e sendo um dos motivos agravantes das correntes migratórias na região. Bukele tem aumentado expressivamente o efetivo policial e sua presença nos territórios pandilleros, os gastos em equipamentos de segurança e o número de encarceramentos. A taxa de homicídio caiu bruscamente no país, em 2015 a era de 103 para 100 mil habitantes, e em 2019 fechou em 36 a cada 100 mil habitantes.

Bukele mescla a imagem de um presidente empresário, novo e anti-establishment com a política da força. O envio da polícia e das forças armadas ao congresso em fevereiro foi uma prévia do que tem feito na quarentena pela covid-19. O país apresenta 323 casos, e oito mortes, segundo a John Hopkins. Porém, ainda no dia 11-03-2020, o presidente decretou quarentena nacional, sem que houvesse casos da covid-19 registrados no país. Na mesma semana criou um conflito com o México, acusando o país de enviar um avião com infectados para San Salvador. Em dez dias de quarentena, a polícia do país já havia prendido 327 pessoas por violação da quarentena.

Em duas semanas, Bukele elevou a situação do país para “estado de exceção”, e nas redes sociais justificou dizendo que “já começou a terceira guerra mundial”. É pelas redes sociais, sobretudo o Twitter, que o presidente passa seus recados. Neste final de semana, tuitou “O uso da força letal está autorizado para defesa própria ou para defesa da vida dos salvadorenhos”. Isso porque os corpos de segurança perderam o controle das pandillas durante a quarentena.

 

Desde a sexta-feira, 24-04, até a segunda, 27-04, foram 33 homicídios registrados no país. Como se a política de segurança fosse um cobertor curto, a autorização para os policiais matarem pandilleros foi dada como nova prioridade perante a vigilância da quarentena.

Outra resposta dada pelo governo foi aglutinar membros de diferentes maras nas mesmas celas dentro das prisões do país. Segundo a avaliação dos corpos de segurança, as ordens para os homicídios registrados no país saíram direto dos pandilleros encarcerados. O diretor de Centros Penais do governo, Osiris Luna Meza, afirmou que “não vai entrar nenhum raio de sol nas celas”. Em seu twitter postou diversas fotos de presidiários aglomerados nas diferentes penitenciárias do país, com a mensagem “Ao Estado se respeita! Governo de Nayib Bukele”.

Entre o governo responsável de Alvarado, o negacionismo e o sumiço de Ortega, Bukele contrasta com um Estado que se declara literalmente em guerra. Contra o vírus e sua população.

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