Guatemala. Na eleição presidencial, a grande vitória foi da abstenção

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Por: Wagner Fernandes de Azevedo | 17 Agosto 2019

Na Guatemala são mais de oito milhões de pessoas aptas a votar para eleger o presidente do país. O fim do conturbado governo do comediante Jimmy Morales era esperado por uma grande parcela de guatemaltecos. A desaprovação ao governo ultrapassa 80%, conforme a última pesquisa divulgada pela agência ProDatos, em 15-08-2019. Em um cenário de insatisfação geral o país foi às urnas no último domingo, 11-08, para eleger em segundo turno o próximo presidente. O eleito foi o conservador Alejandro Giammatei, com 1,9 milhões de votos, contra a candidata da centro-esquerda, Sandra Torres, que somou 1,3 milhões. No entanto, mesmo que somados ainda passariam longe dos 4,6 milhões que optaram por não votar.

A primeira leitura que se sobressai com os números é o da insatisfação geral com a política no país. Jimmy Morales foi eleito em 2015 com uma diferença de quase 20 pontos percentuais para a mesma segunda colocada deste ano, Sandra Torres. O atual presidente foi candidato pela Frente Convergencia Nacional, um partido que disputava apenas a sua segunda eleição. O fato de ser um comediante, voltado à retórica anti-política precedeu movimentos parecidos que se espalharam pelo mundo nessa década, induzia ares de “novo” na política, com um plano conservador, cerrando fileiras com as igrejas evangélicas. No entanto, Jimmy Morales e seu partido tornaram-se alvos de investigação por financiamento ilícito de campanha. Os protestos exigindo pela renúncia do governo se espalharam já no ano de 2017, antes mesmo de se completar a metade do mandato. Embora tenha resistido no cargo, o FCN é alvo de processo judicial no Tribunal Superior Eleitoral sob risco de ter a legenda cancelada. O resultado de 2019 nas urnas foi arrasador. No primeiro turno, o candidato governista Estuardo Galdámez terminou em oitavo lugar, pouco mais de 180 mil votos. O cientista político Renzo Rosal opinou que ao portal Prensa Libre que o FCN foi o grande perdedor das eleições. A desilusão dos guatemaltecos com a “nova” política fez o partido governista perder mais de 2 milhões de votos, em 4 anos.

Pelo outro lado, a segunda colocada Sandra Torres, do partido da Unidade Nacional da Esperança – UNE, casada com Alvaro Colom, foi a primeira-dama entre 2008 e 2011. Deste modo, foi impedida pela Constituição de concorrer em 2011, e disputou sua primeira eleição em 2015. Em 2019 a campanha do primeiro turno permitiu à Torres que sonhasse com a eleição. Somou quase o dobro de votos que o segundo colocado Alejandro Giammatei, emplacou também 52 deputados, 35 a mais que o segundo mais votado, em um Congresso de 160 cadeiras. A UNE, dita representação da centro-esquerda, também assumiu a maioria das vagas para o Parlamento Centro-Americano e 32% dos prefeitos do país. Sandra Torres demonstrou ser a cabeça de uma máquina eleitoral.

Porém, segundo análise do cientista político David Martínez-Amador, “Sandra Torres é uma excelente candidata para potencializar candidaturas ao parlamento, mas é terrível para segundo turno. Pode ser fantástica como capataz do seu partido, mas é terrível como o produto”. A candidata chegou para o pleito decisivo com 40% de rejeição, sobretudo no meio urbano. Mesmo sendo a população rural ainda maior que a urbana (de acordo com a Pesquisa Nacional de Condições de Vida na Guatemala, de 2014, são aproximadamente 8 milhões de moradores em área rural e 7,8 milhões na área urbana), explica Martínez-Amador que pelo fato de o segundo turno não eleger representantes municipais, as áreas mais afastadas se abstém de votar.

Nos grandes centros guatemaltecos, a rejeição à UNE e Sandra Torres foi crucial para a eleição de Alejandro Giamattei, que, em menos de dois meses, conseguiu triplicar a votação do primeiro turno. O voto “anti-Torres” é explicado por Martínez-Amador como “irracional”, pois Giamattei teve uma flexibilidade muito maior de público, frente a uma candidata que quis se estabelecer como uma alternativa à esquerda sem sê-la. Torres transitou entre vários temas com “um desespero que se sentia de longe”, afirma o cientista político.

Por fim, Giamattei, depois de três candidaturas pífias, enfim foi eleito presidente. Com o perfil católico conservador, discurso firme de combate à criminalidade e contra as pautas LGBTs, do aborto e de legalização da maconha. A polarização com Torres também o alinhou ao empresariado, com quem manteve diálogo durante a campanha, diferentemente da sua concorrente. Era o candidato da classe média urbana da Guatemala, que decidiu a eleição.

No entanto, Giamattei, que se elegeu sem chegar aos 2 milhões de votos, já iniciará um mandato sem respaldo, com uma bancada menor que a da oposição e apenas 29 prefeituras em todo o país.

Em toda essa conjuntura a abstenção é a grande vencedora, com 57,29%, mais de 4,6 milhões de guatemaltecos que deixaram as urnas vazias. Em um país marcado pela violência dos maras, das grandes ondas migratórias e o recrudescimento das igrejas evangélicas neopentecostais, o desalento democrático é uma marca profunda.

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