Vírus e filosofia: uma resenha. Artigo de Giuseppe Villa

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22 Abril 2020

O tema da “pandemia” atraiu quase que imediatamente a atenção dos filósofos. Além do debate levantado por Giorgio Agamben, outros autores intervieram. Giuseppe Villa nos oferece uma resenha dessas intervenções.

O artigo é publicado por Come Se Non, 20-04-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

 

O vírus que nos compete e a filosofia que lhes compete

Algumas vozes e os argumentos mais recorrentes

Há alguns meses, vivemos em uma situação precária devido à disseminação de um vírus, a Covid-19. A disseminação ocorreu progressivamente e as medidas de contenção também foram introduzidas progressivamente pelo governo, em particular o isolamento em casa, em família. Em meados de março, a Organização Mundial da Saúde declarou que estamos em um estado de “pandemia global”.

Na vida das pessoas, disseminou-se o medo de uma doença grave e da morte, ameaçando os pontos de referência familiares e de um mundo de relações que fazem a vida das pessoas. Em uma sociedade desenvolvida do século XXI, podia-se acreditar que as epidemias, que marcaram a história, haviam ficado para trás. Foi preciso algum tempo para reconhecer a extensão do perigo e os seus efeitos devastadores, que não permaneceriam limitados a países distantes e atingiriam, em graus variados, todas as gerações.

Esse vírus mostrou uma capacidade, uma agressividade e uma velocidade de movimento a ponto de pedir a intervenção de inúmeras competências, em primeiro lugar das equipes médicas e científicas, mas também da proteção civil, dos ordenamentos estatais, dos sociólogos e dos psicólogos. Até os filósofos se manifestaram para dar a sua opinião, alguns de maneira precipitada. E me refiro à intervenção de Agamben (relatada pelo Prof. Grillo na sua intervenção), que, em nome de um princípio abstrato, não soube considerar o bem possível.

Outros filósofos intervieram com maior ponderação, reconhecendo que “ninguém sabe como a pandemia poderá evoluir. (...) Nem mesmo a rapidez com que a pandemia purifica o ar das regiões paralisadas consegue sugerir como encontrar uma nova orientação técnica e industrial” (Jean-Luc Nancy).

O mesmo filósofo cita um certo Sr. Gaudin, que se apresentava como “químico filósofo”. Em 1865, ele escrevia: “Se admitirmos a opinião comum, a nossa época viu surgir uma multidão de doenças desconhecidas aos nossos antepassados; mas é muito provável que essas doenças, antigamente localizadas, se disseminaram graças à frequência e à rapidez das comunicações que hoje conectam os distritos mais distantes”.

Naquele século, tratava-se da cólera, que atravessou toda a Itália e várias vezes durante um século. Thomas Mann escreve sobre isso no romance “Morte em Veneza”, publicado em 1912, no qual uma misteriosa doença (que mais tarde se descobriria como a cólera) se espalha entre os turistas naquele “paraíso”. O protagonista, Ashenbach, descobre que a doença veio da Índia e, antes de chegar ao Mediterrâneo e Veneza, se espalhou por toda a Ásia.

Os dois dados, concordando em apontar o entrelaçamento moderno entre “mobilidade” – “conexões”, como “suporte” humano para a disseminação da cólera, apresentam-se como uma questão claramente filosófica, no sentido de que “esse vírus é competente, não apenas no sentido de que parece saber muito, mas também no sentido de que nos compete, está à altura dos nossos tempos e nos força a redesenhar as nossas categorias histórico-temporais” (Marco Senaldi, filósofo).

A afirmação exclui do debate outras formas de epidemia como a peste, a varíola e a Aids, cada uma das quais expressava um paradigma próprio daqueles tempos.

A filosofia está quase de acordo com essa conclusão, que vê na competência sobre a mobilidade e sobre as conexões as razões para se falar sobre isso e oferecer outras pistas para um desenvolvimento e, sobretudo, para “imaginar” um depois. Um primeiro efeito que o contágio tornou evidente é o tempo que vivemos: relegados à casa sem compromissos e prazos, o tempo parece “vazio”. A imagem veio à tona com os monólogos de Stefano Massini na TV, segundo o qual “há algo mais na nossa relação com o tempo que o vírus pôs em crise: não haverá apenas um antes e um depois do vírus, mas também um durante. Não aceitamos a fase transitória, não conseguimos entendê-la”.

Na realidade, a questão já havia sido debatida no início dos anos 1970 pelo filósofo Martin Heidegger, na publicação “Tempo e ser”, que completava o arco do seu pensamento iniciado em 1927 com “Ser e tempo”. O tempo não existe, pelo menos como uma casa ou como uma sucessão de números. O tempo se dá, e se dá no acontecer das coisas e da própria vida dos humanos. O tempo como cronologia é uma invenção humana, em que se colocaram “reuniões intermináveis, estatutos, regras, procedimentos e regulamentos internos”, compunha o poeta Andrade.

Os seres humanos, porém, conhecem não apenas a cronologia, chronos, mas também o outro modo de entender o tempo, o kairos, precisamente o evento em que se dá a existência efetiva dos seres humanos pelas suas próprias escolhas.

Um segundo efeito que se criou com a pandemia é que o espaço foi redesenhado, em todos os sentidos do termo. “O coronavírus – escreveu Marco Senaldi – é capaz de atingir com suspeita imparcialidade idosos enfraquecidos, mas também crianças inocentes, prefeitos, vice-ministros, magistrados, lombardos e apulianos, às vezes passando despercebido, outras vezes matando, descompaginando as categorias e redesenhando as fronteiras”.

E não é tanto um efeito colateral da globalização: diante desse cenário estratificado, tridimensional, o termo “global” corre o risco de passar por uma infeliz atenuação. O fato é que, no tempo da interconectividade, os desenhos geográficos não dão conta do que é o espaço hoje. É melhor a chamada “conectografia”, que começa a oferecer uma ideia um pouco menos pálida.

A filosofia da linguagem tornou evidente alguns dos nós daquele entrelaçamento movimento-conexões: a alta conexão de rede, conexão, comunicação, conhecimento, todas as palavras que, como contágio e contato, são formadas com o prefixo “co-”.

O filósofo Mauro Magatti observou que isso também nos expõe a problemas novos. “É precisamente porque as nossas sociedades são avançadas que o coronavírus pôde se transferir no arco de poucas semanas de uma localidade perdida da China a todo o mundo. E é por causa do compartilhamento de um conhecimento e de uma comunicação impensáveis até poucos anos atrás que nos encontramos acompanhando, dia após dia, hora após hora, a evolução da infecção”.

O espessamento das conexões e dos contatos físicos e virtuais não são casuais. Para o filósofo Magatti, esse desenvolvimento dos vínculos ocorreu por causa da potencialização do ego. A Itália se fechou: “Algo impensável até alguns dias atrás. Assim, o fantasma imunitário – de fechamento, defesa, rejeição – que há anos circula entre nós também se torna realidade repentinamente. Forçando-nos a um momento de verdade”.

A Itália se fechou, e nós nos fechamos em casa: fechados por segurança nossa e dos outros, fechados temporariamente e livremente. É aqui que a filosofia sugere “um momento de verdade”.

O termo latino “segurança” é “sine cura”. “Diante de todas as inseguranças atuais – escreve Magatti –, o eu imunitário gostaria de se isentar da responsabilidade das conexões, pedindo que qualquer sistema se encarregue, em seu nome, dos encargos que as novas formas do ‘com’ envolvem. As técnicas, as organizações, as instituições de que dispomos (elas mesmas formas de ‘com’) são e continuam sendo fundamentais”.

É aqui que é necessário “um momento de verdade” para evitar que a demanda de segurança não seja um álibi para se livrar das próprias responsabilidades pessoais.

Mais uma vez, Heidegger nos ajuda a dar esse passo referente ao “ser-com”: em todas as formas que ele pode assumir, o nosso “ser-com” envolve o cuidado; o cuidado de si, do outro, do mundo inteiro. A experiência tão dramática do contágio destas semanas nos diz que ainda temos um longo caminho a percorrer se quisermos administrar a coabitação no mundo hiperconectado.

Mas, acima de tudo, ensina-nos que toda forma de “com” exige o reconhecimento do vínculo original entre o ego e o outro. Disso deriva aquela responsabilidade do “cuidado” sem a qual o “com” decai velozmente em “conflito”. Além disso, deveremos aplicá-la a muitos outros âmbitos da nossa vida: a comunicação (o modo como tomamos a palavra nos vários circuitos sociais e midiáticos), a concorrência (a nossa relação com o mercado), a contaminação (todo o tema ambiental), a comunidade (o nosso modo de fazer parte dos mundos sociais nos quais vivemos).

 

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