Deus ainda está presente na Itália, mais esperado do que acreditado

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16 Março 2020

"No final do livro, o título assumiu um significado diferente do que se pensava no começo. Aquele Gente de pouca fé não expressa mais o simplismo daqueles que medem a religião por quilo, mas o dinamismo de um país que questiona sobre a qualidade de sua fé. A religião então emerge incerta e, por essa mesma razão, viva", escreve Marco Ventura, em artigo publicado por La Lettura, 15-03-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Quanto a religião dos italianos mudou nos últimos 25 anos. Em meados da década de 1990, pouco menos da metade rezava diariamente ou até mesmo várias vezes ao dia. Hoje, apenas um em cada quatro italianos faz isso. Na época 5% acreditavam que apenas as pessoas mais ingênuas e incautas acreditavam em Deus. Hoje 23% acreditam nisso. No mesmo período, o número daqueles que não se reconhecem em nenhuma religião aumentou 30%, é agora um quarto da população, e caiu de 80 a 60% o percentual daqueles que acreditam que a religião ajuda a encontrar o profundo significado da vida. Enquanto isso, triplicou o número daqueles que pensam que Deus não existe, de 10% para 30%, porque, se existisse, não permitiria a propagação do mal e das injustiças no mundo. A porcentagem de pessoas que nunca participam de ritos religiosos, com exceção de casamentos e funerais, também triplicou de 10% para 30%, e a cota de pessoas que participam pelo menos toda semana caiu de 31% para 22%. Finalmente, o número de pessoas que declaram escolher o rito religioso em caso de casamento diminuiu: era de 83% em meados dos anos 1990, hoje é de 57%.

Devemos esses números à pesquisa realizada em 2017 por Franco Garelli, quase um quarto de século depois de uma pesquisa semelhante em 1994 pelo mesmo estudioso, um dos sociólogos italianos mais respeitados. Os dados parecem indicar um declínio acentuado da religiosidade, que já caiu significativamente nas décadas anteriores, principalmente desde a década de 1960. Assim parece de fácil leitura o título, Gente de poca fade (Gente de pouca fé, em tradução livre) do livro que recentemente chegou às livrarias (il Mulino), na qual o sociólogo de Turim apresenta os resultados de sua pesquisa, financiada pela Conferência Episcopal Italiana, e de um estudo contemporâneo do sociólogo romano Roberto Cipriani: Gente de pouca fé somos nós, devemos deduzir, porque acreditamos menos e porque praticamos menos. Inclusive porque acreditamos pouco e pouco praticamos. Em resumo, não apenas haveria um declínio, mas dever-se-ia constatar que a agulha da balança da religião está agora inexoravelmente apontando para o pouco.

Então aqui estamos nós, italianos, antes um povo crente por excelência, reduzido a gente de pouca fé. Só que este não é o caso. Quem parasse nessa conclusão, limitando-se ao título e a alguns dados mais espetaculares, não teria compreendido todo o panorama que a pesquisa nos oferece, nem a profundidade da análise a que o autor convida. Para eles, seria necessário entrar nos números e no texto.

Descobre-se, então, as grandes áreas onde a religiosidade não recua. Aprende-se sobre a vitalidade do catolicismo, com uma base de "convictos e ativo" que vale cerca de um quinto dos italianos e das outras religiões, agora perto de 10% contra 2% nos anos 1990. Descobre-se que apenas 10% nega sem dúvida a existência de Deus, que quem acredita em um poder maligno aumentou de 15% para 40% nos últimos 25 anos, que um em cada três italianos reconhece ter recebido ao longo dos anos graça ou favores divinos, e que aumentou de 27% para 43% a parcela daqueles que se identificam com o catolicismo por educação e tradição.

O interesse dos resultados da pesquisa e o valor do percurso de leitura proposto pelo sociólogo de Turim reside justamente na transformação em curso. Nenhuma das duas grandes narrativas concorrentes das últimas décadas encontra confirmação: não é verdade que a religião esteja perdendo; e não é verdade que a religião esteja vencendo. Em vez disso, coexistem indicadores de sinal diferente e, como um todo, delineia-se algo novo que substitui todo preconceito. O maior mérito da obra reside em não recuar diante uma mudança tão refratária aos estereótipos e, ao mesmo tempo, ousar uma forte interpretação.

Em primeiro lugar, Franco Garelli aprofunda as posições dos italianos sem medo de suas contradições; aliás, identifica-as como um traço distintivo. Assim é, em especial, para aquelas opiniões sobre o catolicismo às quais o autor atribui o Oscar de um imaginário "festival dedicado ao tema da ambivalência": por um lado, de fato, pede-se à Igreja que seja mais liberal, por exemplo, em termos de sacerdócio feminino e casamento dos padres, apoiados pela grande maioria, e pelo outro, convida-se a mesma Igreja a "manter firmes seus princípios, sem se deixar influenciar pelas opiniões predominantes". A mudança fotografada por Franco Garelli no tempo e no hoje não poupa nenhum âmbito.

Aumentam os católicos culturais, é ampla a preferência pelo crucifixo em locais públicos, apoiada por 67%. Ao contrário, aqueles a favor da manutenção da hora da religião católica, assim como é na escola pública, mal excedem o limiar de 50% e os contrários ao 8 por mil, 46%, excedem em três pontos percentuais os favoráveis. Se, de tema em tema, do papa Francisco à eutanásia, da política ao islamismo, Garelli conduz o leitor nos turbilhões da mudança, não é porque ele se tenha perdido na tempestade de dados. Existe uma interpretação que liga tudo e que dá sentido à tempestade.

É a Itália "incerta de Deus" do subtítulo do livro. Nela, explica o autor, afirma-se a tendência de ir além das cercas, com uma crença "que usufrui de uma boa resposta no país" e que, no entanto, "não é dada como certa". Acredita-se em um Deus "mais esperado do que se acreditado", um "Deus oscilante e intermitente, que muitas vezes se eclipsa e às vezes reaparece".

Experimenta-se uma sucessão de maiorias e minorias, de catolicismo "cansado", "descontínuo" e "identitário". Mais ainda, muda a abordagem à verdade: mesmo que não faltem aqueles que ainda aderem a uma "fé exclusiva", uma "crença relativa" se espalha, condicionada pela coexistência de crenças diferentes e até mesmo desponta "a demanda de uma religião universal”.

No final do livro, o título assumiu um significado diferente do que se pensava no começo. Aquele Gente de pouca fé não expressa mais o simplismo daqueles que medem a religião por quilo, mas o dinamismo de um país que questiona sobre a qualidade de sua fé. A religião então emerge incerta e, por essa mesma razão, viva.

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