Amapá, missionário do PIME é agredido por defender a terra

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02 Março 2020

O padre Dennis Koltz, missionário estadunidense do PIME na diocese de Macapá, foi repetidamente agredido e teve seu carro batido por um fazendeiro por estar averiguando a regularidade das licenças de um lote de terra. Um ato de violência que faz parte da guerra cotidiana que na Amazônia vitima pequenos agricultores em favor de grandes produtores de soja.

A reportagem é de Andrea Guerra, publicada por Mondo e Missione, 01-03-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

O padre Dennis Koltz, um missionário estadunidense do PIME que vive no Brasil há anos, foi agredido na terça-feira, 25 de fevereiro, quando todo o país estava celebrando o carnaval. A agressão ocorreu no território da diocese de Macapá, onde o missionário reside e trabalha, e mais precisamente em São Benedito da Campina: o padre Denis, além de ser administrador paroquial da paróquia de São Joaquim de Pacuí, também trabalha na Pastoral da Terra. E é precisamente durante uma visita pastoral que o fato aconteceu.

O fato

O padre Dennis estava no carro com o padre Sisto Magro, coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT) da diocese de Macapá. Nas proximidades de uma grande fazenda, os dois pararam (estavam dentro do carro) e o padre Dennis saiu do veículo para tirar uma foto da placa com as informações sobre a propriedade daquela área. Por lei, as placas com informações sobre as concessões das terras devem ser colocadas "à vista": neste caso, no entanto, a placa estava, segundo o relato dos dois missionários, bastante escondida e, portanto, "suspeita". Nesse momento, um homem que se apresentou como dono da fazenda correu em direção do padre Dennis. E começou uma violenta discussão verbal, terminando com a agressão física do homem contra o missionário.

As denúncias

O homem, que primeiro tentou pegar e quebrar as chaves do carro dos missionários, bateu várias vezes o padre Dennis na cara e no tórax. Depois disso, ele entrou no seu carro e bateu várias vezes naquele dos dois padres, amassando a lateral direita. “Como se isso não bastasse - relata o padre Sisto, que testemunhou a cena - o homem, depois de tudo isso, também apresentou uma denúncia dizendo que o padre Dennis havia invadido sua propriedade, quando isso não era verdade. E ele também declarou que o próprio padre Denis teria tentado atropelá-lo com o carro, razão pela qual ele reagiu para tentar escapar da agressão". O relatório do padre Sisto, junto com exames médicos realizados no padre Dennis, faz parte do comunicado oficial emitido pelo Gabinete de Comunicação da Diocese de Macapá.

Solidariedade

Felizmente, o padre Dennis não sofreu sérias consequências. Porém, existe uma grande preocupação com a segurança de padres e leigos que trabalham na Comissão Pastoral da Terra (CPT, órgão da CNBB, a Conferência Nacional dos Bispos Brasileiros, criada em 1975 e comprometida com a promoção da conquista dos direitos e da terra, da resistência na terra, da produção sustentável). E a diocese local, como muitas outras pastorais, associações e organizações envolvidas na luta pelo direito à terra, imediatamente expressou sua proximidade com os missionários e com o PIME pelo que aconteceu.

A terra

“O problema diz respeito aos caboclos, que a gerações cultivam terras que nunca foram oficialmente reconhecidas. O Estado hoje tenta atribuí-las às empresas, dizendo que trazem trabalho, desenvolvimento, modernidade. A Amcel, uma grande empresa de celulose ligada ao grupo japonês Nippon Papers Industries, possui cerca de 300 mil hectares de terra", relatava o padre Sisto em uma entrevista a Mondo e Missione (agosto-setembro de 2019) publicada às vésperas do Sínodo sobre a Amazônia. “Em 2009, começaram as ações judiciais da multinacional japonesa contra várias famílias de pequenos agricultores. Os juízes desconsideram a situação e mandam embora pessoas que viveram por trinta, quarenta ou cinquenta anos em um lugar. Já são 200 famílias que perderam suas terras devido a documentos muito duvidosos obtidos pelo órgão federal que trata das terras. Pelo menos duas vezes por mês vou ao tribunal com essas pessoas. Sem dinheiro, elas só podem se defender com advogados da defensoria pública que muitas vezes nem conhecem o direito agrário. Mas vencemos algumas causas. Não tanto contra a Amcel, a multinacional da celulose, mas contra as empresas da soja. Os procuradores federais se envolveram totalmente com esses casos, analisando a fundo as concessões. Mas a situação continua sendo crítica", acrescentava o padre Sisto.

A guerra

Uma "guerra" cotidiana. "Somente em 2017, foram emitidos 26.523 títulos de propriedade e 97.030 contratos de concessão de uso, que ultrapassam a soma dos últimos dez anos. Segundo a Comissão, o objetivo não declarado dessa política é beneficiar o mercado fundiário, uma vez que muitas famílias frágeis tiveram que ceder facilmente à pressão de empresas do agronegócio e grandes proprietários de terras e vender seus lotes", consta em uma reportagem do Osservatore Romano publicada em janeiro de 2019. Uma guerra que também colhe vítimas: “Mais de três pessoas foram mortas em todo o mundo a cada semana em 2018 por defenderem suas terras e o ambiente em que vivemos. Um total de 164 cidadãos comuns (a reportagem reproduz a lista completa de nomes) assassinados por tentarem defender suas casas, florestas e rios de lobbies considerados culpados por querer explorar seus recursos para fins especulativos", relata IlSole24Ore, citando dados do relatório anual "Enemies of the State 2019" da Global Witness.

O massacre

O Brasil em 2019 contou com 23 mortes. Em 2005, a irmã Dorothy Stang, missionária estadunidense das Irmãs de Nossa Senhora de Namur, perdeu a vida no Estado do Pará, ainda hoje lembrada como um símbolo da luta pela terra e, principalmente, pela disposição da Igreja universal de ficar ao lado dos mais fracos. “De vez em quando ainda hoje as pessoas da pastoral da terra são ameaçadas e isso nos preocupa. Inclusive porque Bolsonaro está tentando fazer o Congresso aprovar uma lei pela qual disparar contra quem invade uma propriedade é legítima defesa. O que isso significaria no contexto da Amazônia, onde muitas terras pertencem a fazendeiros simplesmente porque um dia levantaram cercas e colocam paramilitares de guarda? Se alguém fala: Não, esta terra é pública, hoje corre o risco de ser morto. Já estão nos linchando moralmente porque dizemos essas coisas. Mas são terras públicas que por direito deveriam pertencer àqueles que mais precisam. A verdade é que o crime contra os ativistas ambientais ainda vale a pena: você os tira do caminho e ninguém vai para a cadeia", relatava ainda o padre Sisto em 2019.

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