O sacerdócio, a eucaristia e a remoção do Vaticano II. Artigo de Andrea Grillo

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05 Fevereiro 2020

Em um dos textos mais elevados da tradição medieval, Igreja, eucaristia e sacerdócio – mistério eclesial, mistério eucarístico e ministério sacerdotal – são compreendidos em um complexo e magnífico equilíbrio, mas exigem – 800 anos depois – uma reavaliação profunda e acurada.

A opinião é do teólogo italiano Andrea Grillo, professor do Pontifício Ateneu Santo Anselmo, em Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, em Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Justina, em Pádua. O artigo foi publicado em Vino Nuovo, 04-02-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

Em uma avaliação geral do livro “Do fundo de nossos corações”, depois de apresentar suas implicações no meu blog (aqui e aqui) e em outros lugares (aqui), gostaria agora de examinar melhor de que modo essa abordagem das questões sobre o celibato e o sacerdócio – que não constitui um magistério eclesial – condicionou, porém, muito fortemente uma parte precisamente não secundária do magistério eclesial dos últimos 40 anos.

O magistério, que deveria ter recebido a mensagem nova do Vaticano II, adotou, por sua vez, um “dispositivo de bloqueio”, despojou-se de toda autoridade pastoral e simplesmente reiterou as evidências pré-conciliares.

Um documento, que remonta a 1983, atesta bem esse fenômeno precisamente sobre os temas em discussão e merece uma releitura à luz do texto sobre o celibato recém-publicado.

Trata-se da carta da Congregação para a Doutrina da Fé, intitulada Sacerdotium ministeriale [disponível aqui, em italiano], que aborda “algumas questões concernentes ao ministro da eucaristia”.

A leitura do texto, que se justifica precisamente no contexto da primeira recepção do Concílio Vaticano II e dos inevitáveis exageros que isso implicava, revela-nos como, ao exagero de uma afirmação drástica da “autossuficiência da comunidade” em termos da celebração eucarística, responde-se com o exagero oposto, ou seja, com a afirmação da “autossuficiência do sacerdote” em “conficere eucharistiam” [“realizar a eucaristia”]. Examinemos brevemente o texto.

Depois de apresentar as “opiniões erradas”, que determinam também “práticas erradas”, o documento recorda a tradição da Igreja de uma forma realmente estreita, pois se limita a contrapor à legítima descoberta do “sacerdócio comum” a autoridade exclusiva do “sacerdócio hierárquico”. Todas as citações modernas ou conciliares são orientadas, sistematicamente, para a citação central, que é a do Concílio de Latrão IV, reproposta na íntegra, com centralidade decisiva. O grande texto de 1215 afirma:

“Una vero est fidelium universalis Ecclesia, extra quam nullus omnino salvatur, in qua idem ipse sacerdos est sacrificium Iesus Christus, cuius corpus et sanguis in sacramento altaris sub speciebus panis et vini veraciter continentur, trans-substantiatis pane in corpus et vino in sanguinem potestate divina: ut ad perficiendum mysterium unitatis accipiamus ipsi de suo, quod accepit ipse de nostro. Et hoc utique sacramentum nemo potest conficere, nisi sacerdos, qui rite fuerit ordinatus, secundum claves Ecclesiae, quas ipse concessit Apostolis eorumque successoribus Iesus Christus.”

[“Além disso, una é a Igreja universal dos fiéis, fora da qual absolutamente ninguém se salva e na qual o próprio Jesus Cristo é sacerdote e vítima: de fato, o seu corpo e p seu sangue estão contidos verdadeiramente no sacramento do altar, sob as espécies do pão e do vinho, pois o pão é transubstanciado no corpo, e o vinho, no sangue, por poder divino, de modo que, para cumprir o mistério da unidade, nós recebemos dele aquilo que ele recebeu de nós. Esse sacramento não pode ser absolutamente realizado por ninguém, senão pelo sacerdote, que foi regularmente ordenado, segundo os poderes da Igreja que o próprio Jesus Cristo concedeu aos apóstolos e aos seus sucessores” (Denzinger-Huenermann, 802).]

Trata-se de um dos textos mais elevados da tradição medieval, em que mistério eclesial, mistério eucarístico e ministério sacerdotal são compreendidos de modo correlato e estrutural.

Mas precisamente aí, nesse complexo e magnífico equilíbrio, todas as três dimensões – a Igreja, a eucaristia e o sacerdócio – parecem ser compreendidos de um modo grande, mas datado e exigem, 800 anos depois, uma reavaliação profunda e acurada.

Tal reavaliação já havia ocorrido em Trento, embora em uma grande continuidade com essa proposição. Mas o Concílio Vaticano II assumiu a sua herança com um extraordinário enriquecimento dos três termos, do qual não há qualquer vestígio no documento.

Tal reelaboração disse respeito à Igreja, com uma grande reavaliação do mistério da unidade, segundo as categorias de “povo de Deus” e de “corpo de Cristo”, em que foi valorizada, de modo novo, a dimensão batismal como acesso ao “sacerdócio comum”; disse respeito à eucaristia, da qual todos os batizados fazem experiência “id bene intelligentes per ritus et preces”, segundo aquela participação ativa em cujo serviço a reforma litúrgica havia se decidido; disse respeito ao sacerdócio hierárquico, que foi correlacionado estruturalmente ao sacerdócio batismal e ao serviço da “ação litúrgica comum”, realizada por toda a Igreja.

A citação de Latrão IV, com a sua imediata centralidade, traz à tona o limite grave daquela Carta e da compreensão que ela propõe da tradição eclesial, eucarística e sacerdotal. Tal texto, de fato, esquece e remove, de modo muito perigoso, todo o avanço conciliar, que é relido exclusivamente com a categoria do “abuso”.

Uma leitura “catastrófica” do Concílio Vaticano II já está presente naquelas linhas. Por isso, o texto determina uma espécie de “autoevidência” da tradição sacerdotal e eucarística, com relação à qual o Concílio Vaticano II, quando não é uma pacífica confirmação dela, é lido como um “risco de abuso”.

Quanta sorte teve esse estilo nas décadas seguintes a 1983, que não é exagero chamar de um verdadeiro “dispositivo de bloqueio”. Ele introduz na consciência eclesial a tentação de considerar o Vaticano II, acima de tudo, com a categoria da suspeita e da desconfiança. E é importante considerar as pesadas recaídas que esse modo de pensar teve sobre os três temas que aqui estão em questão: sobre o sacerdócio ministerial, relido em um perigoso isolamento do sacerdócio comum; sobre a eucaristia, para a qual volta a ser normal uma terminologia para a qual normal é apenas o sacerdote que a “faz” e que a “realiza”; sobre a Igreja, que é relida novamente com as categorias opositivas de clero/leigos e com um imaginário restaurado de “pirâmide não invertida”.

Se olharmos para a assinatura, que está no fim do documento de 1983, e a comparamos com a que aparece do coautor do triste livro de R. Sarah, descobrimos sem surpresa o mesmo nome: J. Ratzinger.

Se um papa, que é filho do Concílio, alimenta confiança no Concílio Vaticano II, confia em uma Igreja como “pirâmide invertida”, em uma eucaristia como “ação comum de Cristo e da Igreja” e em um sacerdócio ministerial a serviço do sacerdócio de Cristo e de todos os batizados, por que ele deveria ser olhado com suspeita e com desconfiança?

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