“Os povos indígenas e as mulheres estão nos forçando a buscar os novos caminhos e concretizá-los”. Entrevista com Padre Dário Bossi

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18 Outubro 2019

A primeira parte da assembleia sinodal foi encerrada, recolhendo um rico e abundante material que deve determinar o conteúdo do documento final, ao menos do primeiro borrador. Nesta entrevista, o comboniano Dário Bossi, padre sinodal em representação dos superiores gerais, faz uma breve análise das linhas gerais neste momento, destacando a “emergência do grito da Terra e dos povos” e o “protagonismo das comunidades que querem celebrar a própria fé, a própria vida”.

A entrevista é de Luis Miguel Modino.

Na dinâmica da assembleia tem uma força especial a presença dos povos indígenas e das mulheres, “que nos impedem de nos resignar, eles que nos estão forçando a buscar esses novos caminhos e concretizá-los”. Essa tem sido uma presença impulsionada pelo Papa Francisco, num Sínodo em que a importância das periferias, de onde sempre surgem as mudanças, está cada vez mais clara.

Mesmo engatinhando, algo novo está nascendo, algo que conta com o impulso do Papa Francisco, disposto a fazer realidade os novos caminhos que a Amazônia e seus povos sonham.

Eis a entrevista.

A gente poderia dizer que acabou a primeira metade do Sínodo. Como resumiria o que tem aparecido sobre o trabalho de reflexão de todos os grupos?

Ainda precisamos refletir um pouco porque acabamos de sair da escuta de todos os relatórios dos 14 grupos. Então foi uma enxurrada de ideias. Sentimos porém, sobretudo nos últimos grupos que pudemos escutar agora, que há propostas concretas que partem sobretudo de dois gritos, da emergência do grito da Terra e dos povos, que são ameaçados, e junto a esse grito, não podemos mais separá-los, os povos estão gritando por emergência. Do outro lado, o grito do protagonismo das comunidades que querem celebrar a própria fé, a própria vida, o rosto realmente amazônico com o protagonismo novo.

Eu senti na última parte que tem espaço para isso, mas teremos que estudar bem agora o que saiu, porque realmente hoje se condensou todo o resultado de 250 escutas pessoais e de 4 dias intensos de trabalho de grupo.

A gente poderia dizer que depois do que tem acontecido, especialmente hoje no resumo, a Igreja da Amazônia pode ter esperança de que esses novos caminhos vão se tornar realidade?

Eu diria que sim, sobretudo pela presença que ainda está aqui, no meio de nós, nesta sala e fora desta sala, dos povos indígenas e das mulheres. São eles que nos impedem de nos resignar, eles que nos estão forçando a buscar esses novos caminhos e concretizá-los. A presença deles constantemente aqui ao nosso lado não deixa que a gente se retraia nos percursos óbvios, nos caminhos protegidos, nos clichês repetidos de uma Igreja que volta a se fechar sobre si mesmo. Essas pessoas no meio de nós são a garantia que este Sínodo vai dar certo.

O Papa Francisco sempre disse que as mudanças vêm de baixo para cima, não de cima para baixo. Podemos dizer que seu jeito está dando certo?

Exatamente. O Papa Francisco foi muito inspirado ao forçar essa presença, porque é ela que faz a diferença, é ela que nos traz algo novo aqui dentro. Eu sinto que é o sínodo da diversidade, é o sínodo da pluralidade, é o sínodo das periferias, o sínodo que surpreende porque vem de fora para dentro. Às vezes tenho medo em querer proteger de toda essa invasão, de toda essa novidade. Eu acho que quanto mais conseguiremos, claro, com sabedoria, com prudência, respeitar e acolher esse vento do Espírito, aí sim, ele nos dirá coisas novas.

É o sínodo das periferias e o sínodo dos excluídos. As mulheres têm sido excluídas durante muito tempo na Igreja e os povos indígenas têm sido excluídos na sociedade. Podemos dizer que essas periferias, agora, realmente, estão se tornando o centro da Igreja e da sociedade e nos ensinando os novos caminhos?

Eu acho que tem ainda muito a percorrer. Não posso afirmar isso desde a sala sinodal, porque é claro, é um lugar de centro aqui, é um lugar da instituição. Porém é um lugar que está se deixando tocar. Eu acho que está começando um caminho, está começando um percurso, uma história nova, com passos frágeis. Como todas as crianças recém-nascidas é o momento mais delicado dessa história, é um momento em que estamos retomando também algumas intuições que já estavam expostas no Vaticano II, que já abriu a esse pluralismo, a essas vozes amplas, mas que agora temos que, de novo, saber cuidar com muita atenção para que cresçam, para que se consolidem, para que, com suas próprias pernas, nos abram caminhos novos.

Pelo que o senhor vê, as reações, os gestos, a forma de se colocar na sala, o Papa Francisco está se sentindo interpelado?

Eu me senti muito interpelado por ele quando ontem, ou antes de ontem, fez um discurso provocativo. Vê-lo pedindo poesia e intuições mais profundas, eu acho que ele está profundamente mexido pelo que está escutando, mas ainda não está totalmente satisfeito, ele está como que nos desafiando. Eu acompanho um pouco os seus movimentos, e algumas vezes ele levanta o rosto e percorre com os olhos os rostos das pessoas como se nos desafiasse, dizendo estou esperando algo a mais de vocês.

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