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17 Outubro 2019

"Para os homens e mulheres de hoje, Newman parece um tanto antigo, sua prosa deliciosamente pré-moderna, a abrangência de seu desenvolvimento intelectual e espiritual é marcada por uma espécie de rigor e profundidade raramente encontrados nesta Era do Twitter", escreve Michael Sean Winters, jornalista, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 14-10-2019. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

Domingo, dia 13 de outubro, John Henry Newman foi elevado à dignidade do altar, como os seus contemporâneos descreveriam esta sua canonização. O evento era quase tão improvável quanto o foi ter sido elevado à púrpura sagrada, como a sua nomeação ao cardinalato em 1879 foi descrita na época.

Lembro destas velhas expressões porque, para os homens e mulheres de hoje, Newman parece um tanto antigo, sua prosa deliciosamente pré-moderna, a abrangência de seu desenvolvimento intelectual e espiritual é marcada por uma espécie de rigor e profundidade raramente encontrados nesta Era do Twitter. Por exemplo, alguém consegue se imaginar, hoje, a escrever esta descrição arrebatadora do nascimento de uma dúvida religiosa em 1839 enquanto estudava a controvérsia monofisita?

A minha fortaleza era a antiguidade: agora aqui, no meio do século V, encontro, como me parece, a cristandade dos séculos XVI e XVII refletida. Enxerguei o meu rosto naquele espelho, e eu era um monofisita. A Igreja da Via Media estava na posição da comunhão oriental, Roma estava onde está agora; e os protestantes eram os eutiquianos.

Falo da canonização de Newman como algo surpreendente porque pensamos dos santos como pessoas pacientes e cavalheiras, mas Newman poderia ser grosseiro. Todos leem sua Apologia pro vita sua, mas me pergunto quantos ignoraram as correspondências entre ele e Charles Kingsley que provocaram a sua redação. Newman é abrasador, brutal inclusive, intransigente na busca dos seus objetivos. E hilário. Foi a leitura desta correspondência e da batalha panfletos que daí se seguiu o que me fez ver em Newman um espírito familiar: ele era protestante assim como católico, um polemicista da mais alta ordem.

Aí semelhança entre mim e Newman acaba, pois a sua mente e, mais ainda, o seu aprendizado excediam os meus próprios pelo tipo de medida normalmente reservada para cálculos das galáxias. Ele também tinha a genialidade, que é um dom diferente da inteligência e do conhecimento. “Ensaio sobre o desenvolvimento da doutrina cristã” não é o trabalho de um homem só inteligente, mas de um gênio, motivo pelo qual o texto, mais do que qualquer outro, é visto como o precursor do Concílio Vaticano II. Quem pode falar com responsabilidade ou honestidade sobre o direito de consciência, hoje, sem confrontar os argumentos contidos em “Uma carta endereçada ao duque de Norfolk por ocasião da recente repreensão do Sr. Gladstone”? Há algum pregador vivo atualmente que se aproxime de alcançar a erudição, intelectual e emocional, encontrada nas “Meditações e devoções”, de Newman?

Qual o tamanho de Newman no panorama católico? Lembro do meu grande orientador, o Mons. John Tracy Ellis, a falar de Newman com um notável grau de veneração. “Depois do Senhor Jesus e sua mãe, ninguém teve um efeito maior em meu pensamento e em minha fé”, disse ele a nossa turma de alunos certo dia, “do que John Henry Newman”. O que o monsenhor dizia de si mesmo poderia ser dito da Igreja universal: o retorno às fontes na teologia da metade do século XX poderia ter acontecido em qualquer uma de uma dúzia de maneiras diferentes, mas uma das maneiras principais como ocorreu foi através dos escritos de Newman. Estamos, todos nós, trabalhando à sua sombra.

Ser ele nomeado cardeal foi, com certeza, um choque. Após a sua celebrada conversão, Newman se viu em uma Igreja Católica inglesa que se estranhava, cada vez mais, com as suas próprias ideias. Henry Edward Manning tornou-se católico seis anos depois de Newman e cardeal quatro anos antes dele. As opiniões ultramontanas de Manning, e a sua atitude desdenhosa com os leigos, sem falar dos diferentes temperamentos e da formação que tinham, tornou uma longa e duradoura amizade, ou camaradagem eclesial, improvável. A mente cautelosa e cuidadosa de Newman, dada a repensar as próprias ideias, fez Manning suspeitar que ele ainda era um anglicano de coração. E foi Manning quem se tornou arcebispo de Westminster em 1865. A carreira de Newman parecia consignada ao oratório em Birmingham – até que Leão XIII interveio e o nomeou cardeal diácono de San Giorgio em Velabro. É verdade: esta igreja não é uma das maravilhas barrocas tão comuns em Roma, mas um edifício do século VII em um plano basílico simples. O pórtico e a torre do sino datados do século XIII são de fato medievais.

O Pe. Ian Ker, cuja biografia de Newman é a melhor que existe, e a quem tive o prazer de conhecer e, juntos, celebrar uma santa missa há alguns anos, quando de sua visita a Washington, captura parte da relevância atual de Newman quando assim falou a Jonathan Luxmoore do National Catholic Reporter:

“Newman foi um pensador complexo e sutil, que se recusou a ver as coisas em preto e branco, e foi ao mesmo tempo radical e conservador em suas atitudes. Ele apoiaria os reformadores do Vaticano II, mas também anteciparia como eles mais tarde se dividiriam em facções moderadas e extremas. Embora certamente acreditasse na verdade objetiva, ele também via como as pessoas enxergavam de forma diferente as provas, de uma forma que continua relevante aos debates atuais sobre o ateísmo, o reducionismo científico e o pós-modernismo.

Se a Igreja, em nosso tempo, tem buscado uma maneira de superar as divisões ideológicas internas, poderíamos todos começar lendo, com honestidade, Newman, não procurando escolher as partes que concordam com as nossas próprias opiniões, mas permitindo que as partes que não concordam nos desafiem, como Newman se permitia a ser desafiado. Newman se desafia. Na verdade, a sua carreira toda é uma repreensão às categorias de direita versus esquerda com que nos debatemos. Certamente um grupo que não tem o direito de reivindicar as ideias deste religioso do qual nos ocupamos a escrever é a “Cardinal Newman Society”, grupo caça às bruxas de direita que monitora escolas católicas por desvios à ortodoxia. Newman iria se envergonhar deles, com certeza.

Newman nunca veio aos EUA, mas aqui estão palavras suas escritas em um artigo de 1839 na publicação British Critic que o próprio descrevia como “irreverente”. O assunto foi a “Igreja americana”, pois ele ainda era membro da Igreja da Inglaterra em 1839 e reconhecia a Igreja Episcopal americana como igreja irmã. Os comentários sobre a sociedade e a religião deste país ainda são astutos:

Não é para os pobres, os desamparados, os abatidos, os aflitos, que a doutrina unitária pode ser sedutora, mas para os ricos e que não precisam de nada (...) Aqueles que não têm nada neste mundo em que se apegar necessitam de um aperto firme do próximo, precisam de uma religião profunda (...)
Tal é o benefício da pobreza; quanto à riqueza, seu corretivo providencial são os deveres relativos que ela envolve, como no caso de um senhorio; mas estes não recaem sobre o comerciante. Ele tem posto sem responsabilidades tangíveis; ele se fez o que é, e se torna autodependente (...) Se pensa em religião, ele não vai gostar de ser um grande homem para se tornar um pequeno; ele negocia uma ou outra compensação à sua autoimportância, algum poder de juízo ou gerência, alguma pequena permissão para seguir o seu próprio caminho. O comércio é livre como o ar; não conhece distinções; a relação mútua é seu meio de operação. Exclusividade, separações, regras de vida, observância dos dias, bons escrúpulos de consciência são odiosos (…).

Uma religião que não irrita a razão dessas pessoas nem interfere em seu conforto será tudo em uma sociedade assim. A severidade, seja de credo ou preceito, altos mistérios, práticas corretivas, sujeição de qualquer espécie, seja a uma doutrina ou a um sacerdote, será ofensiva para elas. Não precisam de nada para preencher o coração, para se alimentar ou para viver; desprezam o entusiasmo, abominam o fanatismo, condenam a intolerância. Querem religião somente na medida em que satisfaça a sua percepção natural da propriedade de serem pessoas religiosas. A razão lhes ensina que o desrespeito total ao Criador é impróprio e determinam ser indivíduos religiosos, não por amor e medo, mas por bom senso.

Deus, salve a todos nós – e por “todos” quero dizer todos, porque este sentimento de fé fracassado é encontrado tanto na esquerda quanto na direita, a partir de “uma religião que não irrita a [nossa] razão nem interfere em [nosso] conforto”.

Devo finalizar com dois links para dois dos hinos que este grande homem escreveu. Cantamos “Lead Kindly Light” [1] como o recessional na missa para o 34º aniversário. “Praise to the Holiest in the Height” [2] está programado para tocar em meu funeral. Estes dois hinos, de formas diferentes, capturam a espessura da fé católica, uma espessura que nenhum falante de língua inglesa esforçou-se mais para elucidar do que Newman. É belo, maravilhoso que a Igreja universal hoje o reconhece como santo. São John Henry Newman, orai por nós.

Notas:

[1] Disponível aqui.
[2] Disponível aqui.

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