Um homem, duas Igrejas: o legado de John Henry Newman para católicos e anglicanos

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15 Outubro 2019

O Rev. Dr. Will Adam é o conselheiro ecumênico do arcebispo de Canterbury e diretor da comissão Unidade, Fé e Ordem para a Comunhão Anglicana. O Dr. Adam foi ordenado em 1994 e atuou em várias paróquias, mais recentemente em Londres, antes de ingressar na equipe sênior do Lambeth Palace no início de 2017. Formado pelo Instituto Ecumênico Bossey, ele supervisiona as relações da Comunhão Anglicana com a Igreja Católica e outras comunhões cristãs.

Em preparação para a canonização do Bem-aventurado John Henry Newman, no dia 13 de outubro, pelo Papa Francisco, o arcebispo de Canterbury, Justin Welby, anunciou o envio de uma delegação para representar a Igreja da Inglaterra, a ex-comunidade religiosa de Newman.

No dia 9 de outubro, eu entrevistei o Dr. Adam, membro da delegação, por e-mail, sobre o legado de Newman na tradição anglicana e para as relações ecumênicas.

A reportagem é de Sean Salai, SJ, publicada por America, 11-10-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Qual o significado de a Comunhão Anglicana ter incluído John Henry Newman em seu calendário litúrgico?

John Henry Newman é comemorado no calendário litúrgico da Igreja da Inglaterra há vários anos. Não existe nenhum santoral central para toda a Comunhão Anglicana, mas ele também é comemorado nos calendários de outras províncias, entre os quais EUA, Canadá e Austrália. As Igrejas da Comunhão Anglicana não têm uma tradição de canonização do modo como ela é entendida na Igreja Católica, mas têm calendários litúrgicos que marcam e honram a vida e o legado de homens e mulheres santos, incluindo muitos do período pós-Reforma. Como alguém que foi uma figura importante no desenvolvimento da vida da Igreja da Inglaterra no século XIX, assim como uma figura de oração, santidade e dedicação a Cristo, Newman é um exemplo de vida religiosa. Como é comum nas comemorações de homens e mulheres santos, a data de sua comemoração no calendário da Igreja da Inglaterra é o dia 11 de agosto, a data da sua morte.

Newman, um brilhante estudioso que fundou o movimento anglo-católico em Oxford, afastou a Igreja da Inglaterra do protestantismo rumo a um “caminho do meio” entre o protestantismo e o catolicismo romano. Como você avalia o legado dele na Comunhão Anglicana hoje?

Newman foi um dos vários estudiosos influentes em Oxford nos anos 1830 e 1840 que começaram a se interessar pela relação entre o anglicanismo (como ele ficaria conhecido mais tarde) e a Igreja em geral, do Ocidente e do Oriente. Eles estavam muito interessados Ia igreja primitiva e no estudo dos Padres da Igreja, e publicaram suas opiniões em uma série de 90 panfletos ou “folhetos” [‘tracts”]. O grupo ficou conhecido como “Tractários”. O trabalho de Newman, Pusey e outros deram forma ao pensamento anglicano a partir daquele momento. Foi somente mais tarde que o desenvolvimento litúrgico levou à reintrodução da prática litúrgica católica no culto anglicano, mas foi Newman e seus colegas que lançaram as bases para desenvolvimentos litúrgicos e também teológicos.

Embora Newman tenha se tornado padre e cardeal católico mais tarde, ele passou uma parte igual da sua vida como anglicano, recebendo ordens anglicanas e tendo sido formado na tradição intelectual de Oxford. De que maneira a sua formação faz dele uma figura de ponte ideal para anglicanos e católicos hoje em dia?

É importante lembrar que não existem dois Newmans – um anglicano e um católico – mas apenas um. Ele levou consigo seus 15 anos como vigário da Igreja de Santa Maria, em Oxford, assim como a sua experiência de oração e estudo como anglicano quando ingressou na Igreja Católica. Em um artigo recente, Dom Fintan Monahan, bispo católico de Killaloe, na Irlanda, sugeriu que, nos dias atuais, Newman seria um forte defensor do diálogo ecumênico no qual anglicanos e católicos estão envolvidos há mais de 50 anos.

Nas últimas décadas, muitos católicos progressistas abandonaram Roma para se unir à Comunhão Anglicana, enquanto muitos anglicanos conservadores abandonaram a Comunhão Anglicana para se tornarem católicos romanos. O que você acha desse fenômeno?

Sempre acontecerá que algumas pessoas encontrarão o seu lar espiritual em uma Igreja que não é aquela em que foram batizados. Eu não acho que isso tenha a ver com ser “progressista” ou “conservador”: pode haver muitos outros fatores, sejam eles teológicos, espirituais, litúrgicos ou relacionados à vida familiar da pessoa em questão. No meu próprio ministério pastoral, ao longo dos últimos 25 anos, eu preparei vários católicos para receber a comunhão da Igreja da Inglaterra e me despedi, com orações e votos de felicidade, de anglicanos que se tornaram católicos.

No dia 26 de janeiro passado, respondendo aos ordinariatos católicos romanos erigidos para receber convertidos do anglicanismo de modo a manterem sua tradição litúrgica, o arcebispo Welby disse à revista The Spectator que é “maravilhoso” quando o clero anglicano deserta rumo a Roma para serem “discípulos fiéis”. Como o fato de anglicanos se tornarem católicos romanos pode ser algo positivo para o ecumenismo?

O objetivo de ambas as Igrejas é a unidade cristã. São João Paulo II escreveu na Ut Unum Sint que o nosso ser irreconciliável dificulta a nossa proclamação do Evangelho da reconciliação. Eu rezo e trabalho pelo dia em que as nossas Igrejas se reunirão.

Como a sé anglicana de Canterbury e a sé católica romana de Westminster colaboraram na celebração dessa canonização conjunta de Newman?

Tivemos o prazer de receber um convite para enviar representantes a Roma para a canonização do dia 13 de outubro. Vários bispos, clérigos e leigos da Igreja da Inglaterra estarão lá para esse importante evento. O arcebispo de Canterbury pregará no rito das Vésperas na Catedral de Westminster no sábado, 19 de outubro, após a canonização.

Se você pudesse dizer uma coisa ao Papa Francisco sobre São João Henry Newman, o que seria?

Que Newman passou metade da sua vida como anglicano e metade como católico. Há apenas um Newman, e não dois, e o seu legado é comum a ambas as Igrejas. Newman viveu em um momento de suspeita mútua entre as nossas Igrejas, mas o respeito e o calor mútuos entre o Santo Padre e o arcebispo de Canterbury são indicativos de um clima muito modificado desde os tempos de Newman.

Teologicamente, o anglicanismo permanece próximo ao catolicismo em algumas questões dogmáticas básicas, mas se distancia muito em outros assuntos, como as Ordens Sagradas, pois os anglicanos ordenam mulheres, e o catolicismo romano vê as ordens anglicanas como inválidas, além de ordenar apenas homens. Que possibilidades você vê para uma maior unidade, apesar das diferenças irreconciliáveis?

A Comissão Internacional Anglicana/Católico Romana (ARCIC) está agora em sua terceira fase de trabalho, reunindo teólogos para trabalharem juntos em busca de uma unidade maior. Agora, acrescentou-se a isso outra iniciativa mais prática: a Comissão Internacional Anglicana/Católico Romana para a Unidade e a Missão (IARCCUM). Com a IARCCUM, pares de bispos anglicanos e católicos, em diferentes partes do mundo, procuram tornar realidade a convergência teológica alcançada pela ARCIC e encontrar maneiras de compartilhar a missão e o ministério em suas situações locais.

Na Inglaterra, há muita colaboração e cooperação na proclamação do Evangelho ao mundo e no trabalho conjunto para cuidar dos necessitados. É verdade que, em questões de ordenação e ministério, há discordância entre nós, mas desde o papa e o arcebispo de Canterbury até as Igrejas locais e seus clérigos e leigos, há um compromisso em todo o mundo, com anglicanos e católicos trabalhando juntos no serviço a Deus.

Quais são as suas esperanças para o futuro das relações católico-anglicanas?

Continuo esperançoso pelo progresso no nosso diálogo teológico. Certamente, como dois corpos de cristãos, há muito mais que nos une do que nos divide. O mundo clama pela Boa Nova de Cristo e por pessoas que cuidem dos necessitados em nome de Cristo. Isso é algo que anglicanos e católicos (e outros cristãos também) podem fazer e fazem juntos. No início deste ano, o Papa Francisco e o arcebispo Welby, junto com um ex-moderador da Igreja da Escócia (presbiteriana), estiveram presentes em um retiro espiritual em Roma para os líderes políticos do Sudão do Sul, como parte dos esforços para mediar uma paz duradoura no país. Esse testemunho, oração e ensino conjuntos pode ter um efeito positivo real e duradouro no nosso mundo.

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