Espiritualidade política e a possibilidade de outros futuros. Entrevista especial com Rodrigo Toniol

Foto: Erianderson de Chaves | CC

Por: João Vitor Santos | Edição: Ricardo Machado | 31 Agosto 2019

Pensar a espiritualidade na complexa teia das relações sociais exige menos compreender o que ela é e mais entender como ela opera. “Penso que é hora de colocarmos a própria noção de espiritualidade em perspectiva, reconhecermos sua genealogia e vínculos históricos. Por isso mesmo, mais interessante do que perguntar: o que é espiritualidade? Parece ser perguntar: como a espiritualidade opera? O que essa noção é capaz de mobilizar? O que faz a espiritualidade?”, questiona Rodrigo Toniol, professor do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Unicamp, em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

O tema da espiritualidade vem a partir da leitura de Foucault, que acompanhou a revolução iraniana, em que o filósofo estava interessado em uma das mais clássicas questões sociológicas: o que move uma revolução? “A pergunta o leva para uma genealogia da própria ideia de que é possível transformar o mundo. O que ele chama de espiritualidade é justamente essa força transformadora, uma experiência íntima dos sujeitos que, por alguma razão, passariam a estar dispostos a abandonar a si mesmos e se transformarem noutro. Espiritualidade seria, então, essa pulsão, essa força transformadora. A religião e a política são codificadores possíveis dessa força. No primeiro caso, resulta, por exemplo, na conversão. No segundo, na revolução”, postula.

Pensar estas relações entre espiritualidade e política é também pensar formas de transformações do mundo. “Fazendo uma apropriação um pouco livre, com essa noção, o filósofo francês estava tratando da potência transformadora do mundo, da possibilidade de renúncia de si em direção a um outro Eu. Essa prática não é apenas uma prática de recusa, mas é também uma prática que abre a possibilidade para novos futuros. Confesso que não sou dos mais otimistas com relação ao cenário ecológico para o qual caminhamos, mas isso não significa que desconfie da nossa capacidade de imaginar e aderir outros futuros possíveis”, complementa.

Rodrigo Toniol (Foto: Nues)

Rodrigo Toniol é graduado em Ciências Sociais, mestre e doutor em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS. Realizou parte de seu doutoramento no Programa de Antropologia da University of California San Diego - UCSD. Foi pesquisador visitante no Global Health Institute da UCSD, nos Estados Unidos, e no Ciesas, no México. Realizou estudos de pós-doutorado no Departamento de Filosofia e Estudos de Religião da Utrecht University, Holanda. Atualmente é professor permanente no Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Unicamp.

 

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Em diversas de suas pesquisas, o senhor trabalhou o tema da espiritualidade. Como compreender esse conceito? E de que forma a espiritualidade pode incidir no espaço político?

Rodrigo Toniol – Espiritualidade é uma palavra que circula cada vez mais. Não é incomum peças publicitárias, textos de jornal e conversas cotidianas apelarem para espiritualidade indicando algo que ultrapassa a devoção religiosa. Trata-se, nesse caso, de uma categoria importante. O naco da população que se identifica como “sem religião” [1] não necessariamente é antirreligiosa, mas, como mostram os microdados do IBGE, frequentemente se reconhece na lógica do “não tenho religião, mas sou espiritualizado”.

Como um conceito para as ciências sociais a categoria tem uma longa história, o que não significa que haja um consenso sobre sua definição. De modo mais amplo, espiritualidade é empregada para indicar um tipo de engajamento com o sagrado que dispensa a mediação de sacerdotes e que pode ser realizada fora de instituições religiosas. Ou seja, nesse caso, espiritualidade indicaria um tipo de prática que é desinstitucionalizada e individual, uma espécie de recusa à religião. Essa foi e tem sido uma formulação importante para as ciências sociais, no entanto, tenho argumentado em meus trabalhos que é hora de modificarmos um pouco essa ênfase. Penso que é hora de colocarmos a própria noção de espiritualidade em perspectiva, reconhecermos sua genealogia e vínculos históricos.

Espiritualidade é uma noção que se consolidou na modernidade ocidental. Foi na virada do século XIX para XX que o termo adquiriu ampla circulação [2]. Há muitos fios para se puxar aqui para contar essa história do conceito, mas um dos mais relevantes é o do contexto colonial a partir do qual essa noção passou a circular. Empregada especialmente para designar práticas devocionais fora do Ocidente moderno, espiritualidade foi lapidada como algo paralelo às religiões mundiais. Há, então, dois processos. Primeiro, a dificuldade em considerar certas práticas não ocidentais como religião. E, segundo, a transformação de um amplo e variado conjunto de práticas espalhadas pelo globo em demonstrações de espiritualidade. O que estou tentando apontar é que essa é uma categoria que se origina do e no encontro colonial. Além disso, que foi instituída como universal, mas trata-se de um tipo de universalidade muito particular, endereçada aos Outros.

É evidente que toda categoria tem uma origem e não há aqui nenhum tom de denúncia do que realmente é a espiritualidade, mas sim um engajamento em um projeto que desconfia de noções que projetam universalismos a um conjunto de práticas tão variado. De alguma maneira, espiritualidade é um conceito com significante vazio, isto é, de conteúdo esvaziado, podendo, portanto, ser muitas coisas. Por isso mesmo, mais interessante do que perguntar: o que é espiritualidade? Parece ser perguntar: como a espiritualidade opera? O que essa noção é capaz de mobilizar? O que faz a espiritualidade?

Considero, então, que um primeiro passo para pensarmos a relação desta noção com política seja começar investindo em reflexões sobre a política da própria categoria espiritualidade.

IHU On-Line – De que forma o político e o religioso se articulam nesse conceito de espiritualidade política?

Rodrigo Toniol – Foucault [3] está cercando outra coisa quando elabora essa noção de “espiritualidade política”. Não foi um termo extensamente explorado por ele e para chegar nele é preciso o situarmos na obra do filósofo. No fim da década de 1970 Foucault foi para o Irã para acompanhar as ondas de protestos que consolidariam a revolução iraniana, o fim do regime dos Xás e a ascensão do Aiatolá Khomeini [4]. Regressou e escreveu uma série de textos, que chamou de Reportagem das Ideias, publicada pelo jornal italiano Corriere della Sera. Foucault estava interessado em uma questão clássica das ciências sociais: o que move uma revolução? A pergunta o leva para uma genealogia da própria ideia de que é possível transformar o mundo. O que ele chama de espiritualidade é justamente essa força transformadora, uma experiência íntima dos sujeitos que, por alguma razão, passariam a estar dispostos a abandonar a si mesmos e se transformarem noutro. Espiritualidade seria, então, essa pulsão, essa força transformadora. A religião e a política são codificadores possíveis dessa força. No primeiro caso, resulta, por exemplo, na conversão. No segundo, na revolução.

IHU On-Line – Especialmente no Brasil, mas também na Itália e em outros países europeus, vivem-se tempos de apropriação do político pelo religioso e uma tendência de tentar aproximar ainda mais esses campos. Como o senhor observa esses fenômenos?

Rodrigo Toniol – Nos dois países a relação entre religião e política tem uma longa duração. A própria história de formação desses Estados nacionais passou por vínculos muito estreitos com a Igreja Católica. Nos dois casos, houve influência direta se considerarmos as constituições nacionais elaboradas desde o fim do século XIX e indireta, ainda mais relevante, quando observamos a formação e os vínculos das elites nacionais.

A pergunta então passa a ser: Qual é a novidade dessa relação atualmente? São muitas, mas certamente elas passam por três aspectos essenciais — limito-me ao caso brasileiro. 1. O aumento significativo da presença de candidatos que se apresentam como evangélicos nos pleitos. 2. Articulação mais explícita de uma pauta legislativa, sobretudo de moral e costumes, que corresponde a sensibilidades religiosas. Esses dois primeiros aspectos são mais estabelecidos. Afinal, trata-se de um movimento que podemos identificar desde o fim do período do regime militar. 3. O último aspecto talvez seja aquele que guarde a principal novidade: a presença do discurso religioso evangélico entre candidatos e eleitos para cargos do Executivo. Insisto neste ponto não para atenuar as importantes transformações que temos passado no campo que articula religião e política, mas para enfatizar que a novidade não é a aproximação em si, mas os termos da aproximação e o tipo de ator nela implicado.

IHU On-Line – A política de hoje perdeu a capilaridade? Em que medida podemos considerar que a política busca sua capilaridade pelo espiritual e religioso?

Rodrigo Toniol – Se estamos falando de política partidária me parece que poucos analistas no Brasil hoje não diriam que ela perdeu forças. Embora, sempre bom lembrar, no período eleitoral essa aparente falta de capilaridade seja reativada e a identidade político-partidária continue sendo um importante elemento do jogo político, ainda que seja para se contrapor a ela. O apelo a motes como "Meu partido é o Brasil”, no caso da campanha de Bolsonaro, e mesmo “Meu partido é o Rio Grande”, lema do então candidato Sartori aí no estado, são bastante emblemáticos disso. Diante desse esvaziamento, o crescimento da importância do voto religioso tem se tornado tema incontornável. Não se trata simplesmente de um uso estratégico da capilaridade dos grupos religiosos, mas de uma necessária adesão, ou melhor, de um necessário diálogo com essa população. Um diálogo que muitas vezes tem se estabelecido a partir do pertencimento religioso. Isto é, o discurso político poderia acionar inúmeras chaves para chegar a seus eleitores, mas cada vez mais frequentemente opta por emitir sua mensagem tomando como fio a religião.

IHU On-Line – O senhor também trabalhou com espiritualidade e ecologia. De que forma a espiritualidade também pode ser uma categoria importante para o enfrentamento do caos climático, dos desastres ecológicos do mundo de hoje?

Rodrigo Toniol – Sim, o apelo universalista da noção de espiritualidade é frequentemente associado às questões ambientais. Historicamente os movimentos ambientalistas também foram próximos dessa noção, mas talvez aproveitando o gancho do texto do Foucault seja mais oportuno pensar em espiritualidade política novamente. Fazendo uma apropriação um pouco livre, com essa noção, o filósofo francês estava tratando da potência transformadora do mundo, da possibilidade de renúncia de si em direção a um outro Eu. Essa prática não é apenas uma prática de recusa, mas é também uma prática que abre a possibilidade para novos futuros. Abrir mão de si é, por um lado, uma recusa de um projeto estabelecido e, por outro, uma disposição em aderir a novos futuros. Confesso que não sou dos mais otimistas com relação ao cenário ecológico para o qual caminhamos, mas isso não significa que desconfie da nossa capacidade de imaginar e aderir outros futuros possíveis.

 

Notas: 

[1] É preciso lembrar a importância estatística dessa população. Se considerarmos os “sem religião” como uma religião, ela seria a terceira maior do país. (Nota do entrevistado)

[2] O termo já havia sido empregado anteriormente e há debates filosóficos e teológicos que refletem sobre isso, mas estou aqui concentrado em seu uso corrente, especialmente no campo das ciências sociais. (Nota do entrevistado)

[3] Michel Foucault (1926-1984): filósofo francês. Suas obras, desde a História da Loucura até a História da sexualidade (a qual não pôde completar devido a sua morte), situam-se dentro de uma filosofia do conhecimento. Foucault trata principalmente do tema do poder, rompendo com as concepções clássicas do termo. Em várias edições, a IHU On-Line dedicou matéria de capa a Foucault: edição 119, de 18-10-2004; edição 203, de 6-11-2006; edição 364, de 6-6-2011, intitulada 'História da loucura' e o discurso racional em debate; edição 343, O (des)governo biopolítico da vida humana, de 13-9-2010, e edição 344, Biopolítica, estado de exceção e vida nua. Um debate. Confira ainda a edição nº 13 dos Cadernos IHU em formação, Michel Foucault – Sua Contribuição para a Educação, a Política e a Ética. (Nota da IHU On-Line)

[4] Ruhollah Musavi Khomeini (1902-1989): foi uma autoridade religiosa xiita iraniana, líder espiritual e político da Revolução Iraniana de 1979 que depôs Mohammad Reza Pahlavi, na altura o xá do Irã, e instaurou uma república islâmica. Governou o Irã desde a deposição do xá Reza Pahlavi até a sua morte em 1989. Costuma ser referido como Imã Khomeini dentro do Irã e no mundo ocidental como Aiatolá Khomeini. Após a revolução, Khomeini tornou-se o Líder Supremo do país, uma posição criada na constituição da República Islâmica como a autoridade política e religiosa mais alta da nação, que ele manteve até sua morte. Ele foi sucedido por Ali Khamenei em 4 de junho de 1989. (Nota da IHU On-Line)

 

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