Um terceiro caminho para o planeta. Entre o catastrofismo e o otimismo científico

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19 Agosto 2019

Em que mundo vivemos: o melhor desde a origem da humanidade, ou o pior? De acordo com os otimistas, estamos rodeados de bem-estar e conforto como nunca antes. Os pessimistas, por outro lado, veem perigos imensos, inclusive o risco de extinção da vida no planeta. Vamos raciocinar sobre as duas hipóteses, avaliando os respectivos pontos fortes e fracos para construir uma terceira alternativa. Que o leitor achará atraente, mas desafiadora, realizável apenas se houver vontade de fazê-lo.

O artigo é de Antonio Maria Costa, publicado por La Stampa, 18-08-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Para animar o debate, vamos dar nomes simbólicos aos protagonistas. Represento os otimistas com dois empreendedores carismáticos, fundadores de empresas de 100 bilhões de dólares: Bill Gates (Microsoft, EUA) e Ren Zhengfei (Huawei, China).

Embora reconhecendo as dificuldades atuais, ambos acreditam que a tecnologia salvará a humanidade da catástrofe. No lado oposto estão as Nações Unidas. Consciência mundial, a ONU lança apelos diários sobre as mudanças climáticas, degradação ambiental e destruição da biodiversidade, bem como pobreza, guerra e migração. A ONU avalia o progresso científico como sendo dificilmente apto a intervir nos breves tempos que as circunstâncias exigem. Quem está certo?

Vamos começar pelo otimismo

Segundo Gates e Zhengfei, a humanidade nunca viveu tão bem como hoje: no último século a expectativa de vida dobrou; carestias e fome transformadas em obesidade crescente; escola e atendimento médico cada vez mais universais e gratuitos. A ciência abole tempo e espaço, melhorando a qualidade da existência a custos decrescentes: seria possível alimentar 10 bilhões de habitantes (em 2050), um terço a mais do que hoje. O progresso na robotização e inteligência artificial reduz o trabalho e a fadiga, transformando milhões de empregos em tempo livre. E é uma melhoria global: na Ásia e na América Latina, o padrão de vida está se aproximando ao da Europa e dos EUA.

Na África, terra de perpétua desolação, a mortalidade infantil caiu pela metade em trinta anos; educação duplicou; fome e pandemias circunscritas. Branko Milanovic (Banco Mundial) mede a trajetória explosiva da renda média mundial: os mil dólares de 2004 dobram em 2013, para duplicar novamente nesta geração (US $ 4 mil). Parece não haver limite para a criação da riqueza.

A essa visão se opõe o pessimismo extremo. As tecnologias de comunicação ameaçam o emprego, a privacidade e a estabilidade política. O grande irmão, representado pelo poder econômico do capitalismo e pelo poder político do totalitarismo, sufoca democracia, liberdade e empreendedorismo. A equidade desaparece: em um mundo que nunca foi tão rico, nunca houve tanta pobreza. Em todos os lugares, especialmente na China, Índia e Rússia, os benefícios do crescimento são apropriados por poucos. A riqueza das 100 pessoas mais ricas do mundo equivale ao total possuído pela metade mais pobre (4 bilhões de pessoas). Um punhado de bilionários (1% das pessoas) possui a maior parte da riqueza do mundo (52%). Os desequilíbrios sistêmicos impactam sobre a natureza: no último meio século, a população mundial duplicou, a economia quadruplicou, os resíduos (plásticos) aumentaram dez vezes, os recursos caíram pela metade, a temperatura está em contínuo aumento. Migrações e guerras em massa tornam-se inevitáveis; uma espécie em cada 10, das 8 milhões existentes, está se aproximando da extinção. Inexoravelmente o planeta se autodestrói.

O futuro

O debate entre otimistas e pessimistas preocupa-se principalmente com o futuro. Convictos da melhoria incessante, Gates e Zhengfei concentram-se nos aspectos individuais da vida (conhecimento, bem-estar, longevidade). Não há necessidade de reduzir o crescimento do PIB e os padrões de vida para sobreviver. A ciência remedia às carências: substitui por energias renováveis ​​as fósseis; torna a vida mais longa e saudável, programando genes e nascimentos; comunicações em rede em vez de deslocamentos físicos; o mundo entra na casa, com um clique. O egoísmo é construtivo: decisões individuais, tomadas no interesse pessoal, criam riqueza e satisfazem necessidades coletivas crescentes. As Nações Unidas pensam o oposto. O atual crescimento demográfico, econômico e de consumo é insustentável devido à prática predatória do homo economicus sobre a natureza, o desperdício do descartável, o desdém pela responsabilidade comum de salvaguardar o planeta. A principal preocupação diz respeito à escassez global de água e terra.

Segundo o World Resource Institute de Washington DC, mais de meio bilhão de pessoas vivem em 17 países sob risco de seca permanente. A superfície cultivável diminui a um ritmo que põe em dúvida a capacidade da humanidade de se alimentar, afirmam os especialistas da ONU no Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas. O aquecimento global agrava a escassez de água e terra. "Sem medo", respondem os otimistas. As descobertas científicas rompem a espiral: aumentam a produtividade da agrícola e pesqueira e reduzem os consumos tradicionais. Carne e peixe são substituídos por alternativas vegetarianas: lipídios, glicídios e protídeos sintéticos, adicionados de sabores artificiais (porco, frango, lagosta).

Terceira opção

Emocionalmente, é fácil se entusiasmar com uma ou outra posição extrema. Mais provável oscilar entre elas. De fato, pessimismo e otimismo têm fundamentos comuns: baseiam-se em um modelo de vida que pressupõe fatalidade, comportamentos futuros que reproduzem o passado. Negam a capacidade humana de reagir. A história nos lembra que as perspectivas mudam quando as atitudes mudam, quando a humanidade constrói sobre os aspectos positivos do progresso para combater os negativos.

Nesse terceiro caso, o personagem simbólico não é nem político nem empreendedor, é um cientista. O geógrafo alemão Alexander von Humboldt elabora, no final de 1700, uma revolucionária percepção holística do planeta: a Terra - com seus habitantes que caminham, voam e nadam - é uma entidade interativa única. O comportamento individual afeta aquele do vizinho, o dano a uma espécie se repercute sobre outra, a perturbação em uma região causa outras alhures, a descoberta científica em um setor beneficia todo o sistema. E assim por diante.

Hoje, 250 anos depois, cientistas nas universidades, o movimento ecológico, a miríade de instituições internacionais e a própria Igreja católica (veja-se a encíclica Laudato Si', do Papa Francisco) constroem sobre a intuição de Humboldt para espalhar uma mensagem de esperança e voluntariedade que contrasta a fatalidade das hipóteses extremas sobre o futuro da humanidade. Uma abordagem construtiva, que se alicerça em considerações pessimistas sobre o futuro (domínio da robótica e inteligência artificial, crise ecológica, falta de recursos) para chegar a conclusões otimistas: a mudança de conduta, individual e pública, põe fim às disfunções do planeta, sejam elas tecnológicas ou ecológicas. A valorização do bem comum, inteligência artificial para servir ao invés de controlar, justiça na sociedade e entre as gerações, podem nos tirar da espiral da exaltação ilusória dos otimistas e da destruição niilista dos pessimistas. Mas é indispensável trabalhar nisso. Duramente.

 

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