“É preciso fazer um trabalho de descolonização do desejo”. Entrevista com Suely Rolnik

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27 Julho 2019

Suely Rolnik (São Paulo, Brasil, 1948) é psicoterapeuta, doutora em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, com uma tese sobre a produção do desejo. Esta brasileira que passou vários anos no exílio, na França, leva uma vida indagando a subjetivação, explorando também, através de Félix Guattari, as micropolíticas.

Esferas da Insurreição. Notas para uma vida não cafetinada” (N-1 Edições, 2018) é seu último livro. Há alguns meses, veio apresentá-lo em Madri e teve uma longa conversa com El Salto, expondo sua visão original sobre a micropolítica, a colonização do desejo e a politização do mal-estar. O Brasil de Bolsonaro, a natureza dos novos movimentos sociais e os comuns foram alguns dos temas que emergiram durante o nosso encontro.

A entrevista é de Sarah Babiker, publicada por El Salto, 24-07-2019. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Antes de começar esta entrevista, gostaria de esclarecer que não tenho formação em teoria psicanalítica e que não estou segura de ter entendido completamente seus textos, dos quais tentei me aproximar a partir de uma visão intuitiva.

Que sorte não possuir uma formação psicanalítica, teria mais dificuldades para entender. Para me ler não é necessário contar com uma formação em psicanálise, filosofia ou ciências sociais, mas viver as experiências das quais falo e se autorizar a reconhecer que isso está aí, que quem escreve é alguém que vive a mesma experiência e que tentou colocá-la em palavras. Então, é a partir dessa ressonância que meus textos são lidos.

O fato é que você produz um montão de conceitos com os quais acredito que seja necessário ser respeitosa, ter certo cuidado ao retomá-los para não distorcê-los.

Mas, de certo modo, se você diz: “oh, compreendi por intuição”, é justamente a intuição que utilizo para escrever estes textos. Por isso, digo que não depende tanto da formação que se possui para poder ler e entender o que eu escrevo. Claro que diferentes formações podem alimentar de formas diversas o pensamento, gerar outras ressonâncias, palavras que são levadas em conta, que podem servir. Contudo, trabalho a partir da intuição e é a intuição que eu defendo como origem primeira e privilegiada do pensamento.

Então, abordemos o que pensa a partir da intuição: fala da necessidade de descolonizar e desneoliberalizar o subconsciente. O que significa a colonização de nossas subjetividades?

A cada regime, a cada contexto histórico, a cada tipo de sociedade corresponde um modo de funcionamento da subjetividade. É a subjetividade o que dá a carne, a consistência a esse regime. O que tento demonstrar, primeiro, é que este funcionamento subjetivo é político. Por que é político? Porque é a base existencial de um sistema epistemológico, histórico, cultural.

Não é possível transformar, por exemplo, a distribuição de direitos dentro deste sistema, que é o objetivo da macropolítica, sem transformar também o tipo de subjetividade que lhe corresponde, pois se as coisas caminham apenas em um nível, sem que se movimentem no outro, acabam voltando ao mesmo lugar.

Falamos dos fracassos da esquerda e isso me irrita. Não é que me deixe triste, é que me irrita pois não se trata de fracasso. Não é possível voltar ao mesmo lugar, caso não se intervenha na esfera das subjetividades. As experiências que começaram há um século e meio – se colocamos como data de início destas lutas, no plano macropolítico, a Comuna de Paris ou a Revolução do Haiti – nos mostraram isso: o que chamamos de fracasso não é isso, permitiu-nos tomar consciência de que é necessário avançar na esfera das subjetividades, sem abandonar a macropolítica, ambas são fundamentais. Trata-se de dar passos, não para chegar ao final feliz de uma revolução comunista, onde todos somos irmãos que se amam, mas para avançar na efetiva transformação deste tipo de sistema econômico, político e social.

Também é urgente se desapegar do sujeito.

Claro, tem a ver com o que significa descolonizar o subconsciente, de onde podemos definir que tipo de subjetividade domina em um determinado momento. É claro que deve haver muitas outras coisas para elaborar, mas eu me centrei no que tem a ver mais diretamente com o nosso modo de viver. Assim, as experiências subjetivas são experiências muito complexas, mas há duas esferas dessa experiência.

O capitalismo está conseguindo colonizar o conjunto do planeta, é um regime no qual já não conseguimos nos reconhecer em nossa experiência coletiva como sujeitos, que tem a ver com o eu, com a vontade, com a consciência, com a experiência que está estruturada segundo um repertório cultural. Trata-se da experiência do mundo como um conjunto de formas, de códigos, de cenários, de personagens, de uma certa distribuição de acesso a direitos..., aí utilizamos a percepção.

Mas, a percepção, a visão, não é virgem. Eu vejo você e lhe associo com uma série de representações em minha memória: fixo-me na cor de sua pele, no cabelo, na roupa que usa, levo em conta sua profissão, relaciono você com a editora que me convidou, com o seu jornal que não é qualquer jornal... Com este conjunto de coisas, posso me localizar diante de você, situar-me.

É uma ferramenta muito importante que nos serve para viver socialmente, comunicar. É o que podemos chamar de cognição e é muito necessária, mas há outra experiência que estamos fazendo ao mesmo tempo que esta, uma segunda experiência que para nós – brancos modernos ocidentais, no regime colonial capitalista antropocêntrico, logocêntrico – é menos conhecida.

E essa experiência tem a ver com entender o mundo em sua dimensão de corpo vivente. Na biosfera, há muitos elementos entre os quais estão os humanos, como estão as baratas ou as palmeiras. Nesta experiência, aprendemos a alteridade do mundo não como conjunto de formas, mas, sim, como um conjunto de forças vivas em disputa, formando diferentes composições, que nos produzem efeitos como se nos fecundassem.

Para entender isso, uso a imagem guarani para a garganta, que se diz “ninho de palavras-alma”. E se é um ninho é porque tem embriões, e se tem embriões é por que fecundou. Como? Pelo ar dos tempos. Você não enxerga, mas é isso, essa imagem do mundo como corpo vivo que produz em seu corpo estados muito fortes, muito precisos, mas que não têm palavra, não têm imagem, nem têm texto. Não têm nada. Não é que não sejam reais, são absolutamente reais.

Quando os guaranis dizem que são sementes das palavras-alma, é porque sabem que esses efeitos do mundo vivo, esses estados se produzem aí, geram afetos, não no sentido de carinho ou amor, mas no sentido de estar afetado. São como embriões de outros mundos, de outros futuros, porque são situações do vivo, que permitem que a vida se afirme, porque a vida quer continuar perseverando. Eu digo que esta experiência é uma experiência fora do sujeito, não é a melhor forma de a chamar porque se acaba fazendo referência ao sujeito, mas a uso estrategicamente, como um conceito que se utiliza nesta perspectiva filosófica que é extrapessoal, que não acontece dentro da pessoa.

Então, o que acontece? Quando você é habitada por mil sementes do mundo, sementes de futuro e, por outro lado, está formatada segundo um certo repertório cultural, há uma tensão entre estas duas experiências. Nesta tensão, há dois movimentos que se desencadeiam, um movimento que é o movimento da vida, que precisa germinar, e o outro movimento que é um movimento a partir do sujeito, que precisa conservar esta forma porque a desagregação provoca muito medo.

E aí, como a vida precisa eliminar esses estados que produzem uma espécie de tontura, de desestabilização, de mal-estar, se ativa como um sinal de alarme brutal, quando isto mexe com você, que é a vida que está aí gritando, dando sinais. Isso coloca a pessoa em movimento, convoca o desejo de atuar, para que a vida readquira um equilíbrio. No caso da vida humana, trata-se de um equilíbrio emocional, existencial. É aí que se definem as diferentes políticas do desejo ou micropolíticas.

Ou seja, a micropolítica não é a política da experiência fora do sujeito. É a experiência entre uma forma de existência e o que está para nascer, que transforma essa forma de existência quando essa forma de existência está sufocando a vida. A vida tem que encontrar outros corpos onde estar, onde se corporizar. E aí se definem as diferentes micropolíticas.

No plano macropolítico, coexistem diferentes macropolíticas: desde as mais revolucionárias às mais reacionárias, ou seja, desde a máxima vontade de igualdade de direitos até a máxima vontade de manter os privilégios e a máxima capacidade para não deixar que se movam. No plano micropolítico é diferente, as micropolíticas vão das mais ativas, as que conseguem estar à altura do que a vida pede, deixando que essa germinação aconteça, até que se confirme o desejo de um corpo, de um modo de existência, onde isso que está procurando paz encontre o seu lugar. Isso transforma a realidade.

Depois, existe o mais reativo, que é quando o desejo atua na direção de interromper esta germinação porque é uma subjetividade que não tolera qualquer tipo de mudança. Deste modo, a todo momento se está interrompendo um processo de germinação para reproduzir o status quo.

Então, o que define a micropolítica dominante no regime colonial capitalista, desde o início, com diferentes desdobramentos – agora estamos no desdobramento financeiro-neoliberal –, é primeiro que estamos reduzidos a uma experiência de sujeito, onde a subjetividade está tomada pela deslocalização, porque já há sementes aí pressionando para germinar e porque há um descontentamento na saúde, a vida quer mais, quer diferente, porque assim como está não é possível.

Isso é interpretado como algo ruim, uma doença ou uma inferioridade, ou como algo terrível que vem de fora, e assim se projeta para fora a causa de seu mal-estar. Se a culpa da desestabilização está em mim, se vem de minha inferioridade, vou tentar me mimetizar, construindo discursos, objetos, gestos, para manter a ilusão de que conseguirei me organizar, para me equilibrar. Se minha opção é atribuir o mal-estar a outro, como modo de recuperar o equilíbrio, projeto sobre o outro todo o mal e atuo contra o outro, que em grande parte é o que está se convertendo em micropolítica predominante neste momento. Tudo o que se distancia de um tipo de existência hegemônica precisa ser rotulado como coisa do mal e para erradicar o mal se ataca, primeiro talvez como um golpe pequeno e assim até o assassinato.

Com base na dissociação do sujeito, frente ao medo que tenho diante da deslocalização, o que acontece? Quando o alarme vital atua, seja qual for a micropolítica, a função vital se coloca em movimento e o desejo é convocado. Esta potência vital, em sua essência, é uma essência de atuar para criar. É deste momento da pulsão vital que o capital se alimenta, no mais básico, no mais essencial. Ou seja, o capital não se alimenta só da força vital em sua expressão do trabalho, como pensava o marxismo, mas também da própria vida, do próprio desencadeamento do movimento vital, quando é necessário criar algo. É esse movimento que é desviado do curso de criar algo, de seu destino ético, e sua força é dirigida em outra direção, que é produzir cenários para investimento de capital e para alimentar o consumo.

Então, o desejo é pervertido desde o momento de seu desencadeamento. É como se o desejo fosse “prostituído”. Não é que alguém chegue de fora e diga para você: olha para lá. É que seu próprio desejo produz esta realidade capitalista, sem que você perceba. Até mesmo quando você é alguém de esquerda, no máximo grau revolucionário. Por isso, o desejo ou a própria pulsão vital está colonizada. É necessário realizar todo um trabalho de descolonização do desejo.

De que maneira uma visão sobre a micropolítica pode ajudar a entender o fenômeno Bolsonaro?

No Brasil, em um primeiro momento, pensei que o neoliberalismo precisava de conservadores no poder, estratégias macropolíticas feitas por conservadores, estratégias micropolíticas de uma subjetividade superconservadora. Por quê? Para destruir totalmente o Estado de maneira que sirva somente ao mercado, sem nenhum estorvo ou barreira, era necessário manter no poder do Estado conservadores totais, políticos à antiga, para que fizessem o trabalho sujo de privatização de tudo, de destruição da legislação trabalhista. Diria que esses políticos seriam como os sicários do neoliberalismo, expulsos depois de cena. Por exemplo, alguém como Temer.

Contudo, em seguida, o que se viu em torno destes conservadores é um ciclo de conservadorismo muito mais bruto, evidente, psicopata, pode se dizer quase psicótico. Hoje, vejo que para o neoliberalismo poder consumar seu poder global, globalitário, conforme disse um pensador brasileiro, é necessário produzir uma subjetividade identitária, conservadora. É necessário manter uma maioria totalmente tomada, com a subjetividade totalmente dissociada da experiência vital, totalmente reduzida ao sujeito.

Como uma das soluções que o sujeito assume para atuar quando a vida está desequilibrada, está em crise, é projetar sobre o outro a causa, é muito necessário construir esse bode expiatório, mas permanentemente. Inicialmente, o bode expiatório era os governantes do Partido dos Trabalhadores, muito antes da candidatura de Bolsonaro. No segundo episódio, começam a perseguir elementos na sociedade, qualquer modo de existência que se distinga minimamente deste modo hegemônico familiarista, paternalista, patriarcal, heteronormativo, nacionalista.

Em meu livro, eu explico o golpe como uma série televisiva que começou a ser pensada a partir do momento em que os governos progressistas tomam o poder em vários países da América Latina, após o fim das ditaduras. Aí começa toda uma estratégia que se desenvolve em muitíssimos capítulos. Ainda estamos na série. Por exemplo, no Brasil, podemos focar na eleição de Lula, quando começam a pensar em como destruir isso eficazmente. Eram necessários conservadores no poder, como Temer, um dos políticos mais corruptos, mais horríveis, que tem uma mentalidade totalmente colonialista conservadora, para fazer o trabalho sujo. E aí se instalariam os Chicago Boys, os economistas neoliberais e os técnicos do neoliberalismo.

Por exemplo, parece que a candidatura de Bolsonaro começou a ser construída em 2014, quando tiraram Dilma, e que foi uma parte das forças armadas que o chamou para construir sua candidatura. Essa parte das forças armadas é a mais terrivelmente conservadora e violenta. São setores que inclusive durante a ditadura constituíam a ala mais violenta. E não é que a ditadura tenha sido branda, foi muito dura.

O que isto significa para a sociedade brasileira?

Além de projetar sobre o outro um processo de mal-estar, o que se está autorizando agora é a passagem à ação, como se diz na psicanálise. Ou seja, que você não somente pode odiar o outro ou desdizê-lo, como também pode passar ao ato do modo mais violento. Duas das primeiras decisões propostas por Bolsonaro, ao entrar como presidente, foram permitir ter armas em casa e dar permissão à polícia para matar. Não é que alguém mande você agir. Por desejo próprio, você age assim.

Então, em paralelo, enquanto isso acontece como se fosse uma espécie de momento “homem das cavernas” na sociedade, o capital pode manipular todos os estados, liberar totalmente o terreno para a especulação. Assim, o que eu inicialmente pensava que seria momentâneo, uma aliança para limpar o terreno, sem que fosse necessário que permanecesse no tempo, por fim, não se sabe até quando durará, nem para onde vai.

Você me fez pensar em duas autoras: em Naomi Klein, com sua doutrina do choque, semeando um campo de desconcerto e desamparo, onde o capital pode saquear tudo sem limite, e na pedagogia da crueldade mencionada por Rita Segato, apontando para uma fase do capitalismo na qual é necessário romper qualquer empatia, qualquer vínculo com as pessoas.

No Brasil, o choque foi quando começa o processo contra Lula e o PT, que foi em 2012, há muito tempo. Havia ocorrido uma identificação de grande parte da sociedade brasileira que está abaixo da classe média com o PT, porque com todas as críticas que possamos ter, foi a primeira vez em toda a história do Brasil que realmente as políticas sociais tiraram uma parte da população da miséria e isso é incontestável.

As pessoas viviam isso, não que tivessem ouvido uma ideologia sobre isso, viveram isso, algo que permitiu coisas extraordinárias como o acesso à educação, poder viver em uma casa, comer. Havia muita identificação com o PT e um certo conforto subjetivo: a vida encontrou um lugar melhor. Então, começam a demonizar Lula, com horas e horas da Globo falando de corrupção. Isso produz um choque. Fora da elite e a classe média, no restante da população, isto produziu uma crise subjetiva tão forte que, após um tempo, já não tinha capacidade de memória de sua própria experiência, do que foi, e se reorganizou a partir da narrativa da televisão, não reconhecia o que seu próprio corpo viveu.

Produz-se também a ideia – é o momento da crise econômica internacional – de que, de 2005 a 2016, tudo é atribuível ao PT. Na televisão, não há nenhuma notícia sobre a crise internacional, por toda a crise econômica, a culpa era do PT. Isso produz uma grande crise subjetiva, você perde totalmente seu chão, seus parâmetros.

Em relação a Segato, eu preferi não usar empatia, pensei em outra palavra e fiquei com ressonância que não é o ideal. Não é uma ressonância entre ideologias ou modos de pensar, mas, sim, uma ressonância entre experiências. Ressoar entre frequências de vibração, é algo que seria necessário conquistar, que não são experiências do sujeito. Mais que a empatia, falaria em reconhecer o efeito do outro em seu corpo, não como algo ruim, mas como algo essencial e se fazer responsável por isso, deixar que isso transforme você.

Você fala do saber do corpo. Como a micropolítica ativa se relaciona com isto do saber do corpo? Onde se localiza a ressonância?

Primeiro, saber do corpo. Eu dizia que a forma de conhecimento do sujeito é o que chamamos de cognição, a forma de conhecimento a partir de sua experiência fora do sujeito, isso que não tem palavra, não tem imagem, poderíamos chamar de intuição. Contudo, a palavra intuição está tão marcada pela inferioridade, como quando você disse: “ai, desculpa, li sua obra a partir da intuição”.

Sim, esse saber de fora do sujeito sempre está marcado pela inferioridade e ignorância, e é por isso também que as mulheres foram queimadas como bruxas, porque tinham isso mais desenvolvido - não biologicamente, mas culturalmente. Se eu digo intuição, os machos intelectuais dirão: essa mulherzinha disse pura bobagem, não sabe nada. Então, como denominar? Eu a chamei saber do vivo, saber do corpo ou saber etológico, porque a etologia, que é a ciência do comportamento humano e animal, nos ensina muito destas outras esferas de nossa experiência.

Na macropolítica, as pessoas se juntam para cooperar. Partem de uma mesma posição na hierarquia social, uma questão de identidade de classe, ou de gênero, ou uma posição subalterna nas relações de poder. E já se juntam com palavras para descrever o que não está bem, com um programa para mudar algo, inclusive no marco do estado. Na micropolítica, quando alguém se junta com os outros, coopera diferente porque é a partir de uma ressonância, do saber do corpo, de uma ressonância entre os corpos, das subjetividades em resistência. O que está começando a germinar, diante do afogamento das forças, da vida.

Se digo ressonância, isto implica que se nos reunimos em um coletivo, não sabemos para onde vamos, mas sabemos que há algo muito genial que compartilhamos, o fato de ir juntas atualiza este movimento de resistência. O que eu estava tentando fazer saiu como texto, o que você estava tentando fazer saiu como um tipo de jornal, mas estamos juntas no mesmo coletivo. O texto que sai de minha boca vem da experiência de muitos povos. Não é uma experiência do eu, o que sai daí também não é meu, porque é minha maneira de dar corpo a algo que já são todos os corpos. E é transindividual, não é que seja intersubjetivo, é algo que atravessa a todas.

Por exemplo, se usamos meu livro e nada mais, não serve para nada. Mas, se estou usando este livro neste contexto, você o seu jornal, a Segato fala em pedagogia da crueldade, a outra de doutrina do choque, a coisa vai ganhando corpo. Estava muito em moda a palavra “comum”. Para mim, o comum se baseia neste plano que é muito diferente da ideia de comunismo (sorri). Não acontece em uma esfera macro. Mesmo quando a esfera macro é muito importante, trata-se de algo que acontece nesta esfera micro de um campo comum de germinação e que também tem sua experiência comum, que se torna possível na construção, para que a germinação se complete.

Você diz que os novos movimentos criam uma inovação promissora: a capacidade de integrar micropolítica e macropolítica em si mesmos.

Sim, e digo isso tendo em mente uma imagem muito precisa, uma experiência que me leva a pensar assim e que vem das periferias das grandes cidades do Brasil. Embora eu me refira especificamente a São Paulo, porque a conheço muito mais, é assim em todo o país. É protagonizada por jovens de 14 a 20 anos, principalmente mulheres, sobretudo envolvidas no movimento LGBTBIQ+ e negras. Aí, há um bom exemplo. Há dois ou três anos, houve um enorme movimento de ocupação de escolas públicas. Hoje, no Brasil, a escola pública é composta por pobres, total, a classe média vai para as escolas privadas. Antes, não era assim. Eu que venho de uma família de classe média, inicialmente baixa, estudei em escola pública e era uma excelente escola.

Fui várias vezes para estas escolas ocupadas, era chamada para conversar e era impressionante. Primeiro, porque há uma invenção do modo de existência, da sexualidade, da relação com o gênero, da relação com as pessoas, uma corrente de transformação radical, radical no sentido de ir até onde é possível, sem medo. Por outro lado, havia também uma forma de organização interna - e isso também tem a ver com o micro: com a forma como se estabelecem as relações, se distribuem as tarefas, se cuida do espaço - e uma inteligência no sentido macro mais tradicional de como provocar, como responder às ações do Estado, inclusive diante da polícia, em caso de tentativa de desocupação.

Desse modo, possuíam uma macroconsciência política muito clara, mas também possuíam uma inventividade para sair da coisa heteronormativa, patriarcal, familiarista, incrível. Eu me sentia como se estivesse diante de outra espécie humana. E vejo isso como invencível, mesmo quando em meio ao processo desistem e param, mesmo quando alguns morrem, existe algo aí que é irreversível.

Por que digo irreversível? Porque eu acredito que quando há uma verdadeira mudança nas ferramentas políticas já não funcionam como modelo único, por exemplo, a heteronormatividade, que é um exemplo bem simples. Então, o que é uma relação afetiva erótica? Como se constrói? Quando você afirma e vive de maneira muito múltipla, o que até então se limitava a um só modelo, no âmbito da subjetividade, não retrocede. A realidade pode demorar muito mais tempo para mudar, mas se a carne existencial de um regime passa por aí, e se algo se metamorfoseou totalmente, já não há retrocesso.

Recordo justamente que na Ingovernable [atividade da qual participou] perguntaram a você sobre como defendê-la, e você respondeu que, na realidade, aquilo era um momento, que a Ingovernable certamente acabaria de alguma forma, mas que haveria uma continuidade, que algo ficaria para se materializar em outra coisa, como sempre. Era triste e esperançosa como resposta. No entanto, como suportar o que em nada nos parece sólido, nesta época de incerteza?

Dias atrás, conheci uma garota, após uma palestra que conferi em uma universidade. Quando terminei, veio falar comigo e me disse: “preciso lhe perguntar algo muito íntimo, posso?”. Falou-me de suicídio. “Você me pergunta se tentei me suicidar?”, disse-lhe. Eu tentei me suicidar uma vez, e é porque não morri que estou aqui, da maneira como estou vivendo agora. Porque desenvolvi uma crença na vida. “Fé?”, perguntou-me. Sim, fé na vida. A vida é muito mais experiente do que eu.

A partir do momento em que tive a certeza de que a vida persevera e por isso sempre encontra uma forma de continuar, também fui desenvolvendo esta confiança, e esta paciência quando a vida está em perigo. Temos que nos deslocar de uma confiança em uma certa ideologia, uma certa maneira de explicar as coisas ou uma confiança no eu, - também no eu coletivo – e passar para uma confiança na vida.

Você fala em bússola ética da vida (ou vital) e bússola moral. Quais são as suas diferenças e em que contribuem estas abordagens?

O sujeito se conduz a partir de uma bússola moral. A bússola tem a agulha que aponta o caminho, e esse caminho é formado por um certo repertório cultural com o qual nos identificamos e que escolhemos para nos guiar. Por exemplo, nós temos a bússola moral do pensamento de esquerda e feminista. Moral não no mau sentido de moralista. É um sistema de valores, preciso dele, me guia em certas esferas da vida, na tomada de decisões.

Contudo, fora do sujeito, a bússola não é moral, não é composta por um sistema de valores, palavras, ideias. A bússola é vital no sentido de que é a vida que alerta você até que ponto está sufocada, violentada. Ou até que ponto, ao contrário, está florescendo, podendo respirar.

Esse é um critério de avaliação das situações diferente do critério do sistema de valores em que vivemos. Os dois são muito importantes. Eu, na África, só fui a Senegal e falei com muita gente. Eles viveram uma experiência socialista, mas em sua cultura, o fora do sujeito está muito presente. Disseram-me que para eles a bússola ética é a primeira, e depois a outra. Se tivesse sido assim na URSS, o stalinismo nunca teria ocorrido, porque a partir da bússola ética nunca teria sido possível assumir isso. Bye, bye, Stalin.

Como politizar a vida sufocada, o mal-estar?

Ai! Que linda ideia, politizar o mal-estar! Podemos dizer que de um lado está politizar o mal-estar, do outro lado, está patologizar o mal-estar. Podemos politizar o mal-estar para o mal, conforme vimos falando. É necessário politizar para o bem. Sabemos que o mal-estar não é sinal de algo ruim no sentido de falta de algo, mas, ao contrário, é um sinal de uma saúde vital que está reconhecendo o mal-estar para que tenhamos a possibilidade de tomar consciência de que é necessário se colocar em luta, porque a vida está gritando que está sendo sufocada.

A partir do eu, do sujeito, entende-se isso como falta de algo, mas a verdade é que é um excesso da vida que está sendo sufocada na forma do presente. Que pode ser a forma de sua própria subjetividade, a forma de sua relação amorosa, não é só uma situação social ampla.

Um exemplo: do ponto de vista da bússola moral, o feminismo consiste em lutar contra a desigualdade de direitos, a violência machista. Do ponto de vista de uma bússola ética, micropolítico, a resistência a esta relação de gênero é perceber que existe um mal-estar, e é porque esta forma de expressão da feminidade é mortífera. Essa imagem da noiva sobre o bolo, é completamente sufocante, então, qual será minha ação – é diferente da luta pela igualdade –, minha ação será abandonar este personagem, me esforçar para produzir outro personagem, porque este já não é possível.

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