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26 Julho 2019

O novo analfabetismo. Para educar novamente as crianças à escuta e à leitura, a escola deve readotar um modelo de aula mais tradicional.

O comentário é do psicanalista italiano Massimo Recalcati, professor das universidades de Pavia e de Verona, em artigo publicado por La Repubblica, 24-07-2019. A tradução é de Luisa Rabolini

Eis o artigo.

Nem eram necessários os resultados do último Invalsi (avaliação do sistema educacional) para determinar o estado de declínio no nível de aprendizagem dos nossos filhos. Os professores estão reclamando sobre isso já há algum tempo: eles não leem, não estudam, não participam, não escutam mais. Nossos filhos acham difícil disciplinar-se à lenta e rigorosa aplicação ao estudo. Eles preferem pensamentos twitter, a cultura das mídias sociais, o zapping contínuo, a conexão perpétua, o rolar rápido de uma informação para outra, de uma imagem para outra. Neste jornal, pouco tempo atrás, falava-se da justa causa em defesa da história como disciplina indispensável para entender o nosso tempo e treinar o pensamento crítico. O resultado dos exames Invalsi nos força, no entanto, a dar um drástico passo para trás. Antes do ensino da história, é essencial educar nossos filhos para se tornarem estudantes.

Esta é a passagem antropológica que hoje parece faltar. O status do estudante implica o esforço para aprender o que se ignora. Tal esforço é hoje rejeitado em nome do acesso despreocupado ao mundo. No entanto, enquanto escrevo, sinto que o risco de uma moral paternalista está à espreita aqui. Não deveríamos, ao contrário, ver nessas formas de descontentamento com o estudar uma espécie de apelo desesperado das novas gerações para a geração de adultos? Não deveríamos sempre tentar inverter a arrogância púbere da recusa em compartilhar a mesma língua em um pedido de acesso a outra língua, a uma língua mais viva do que a língua morta da Escola?

A incivilidade do discurso do capitalista alicerçada sobre a difusão de um prazer imediato e dissipativo parece dominar incontestada e tornar o longo tempo do aprendizado insensato. O ponto é que a educação à leitura que deveria estar na base de toda didática e que vem antes do juízo sobre a importância das disciplinas (inclusive a histórica) parece hoje um empreendimento titânico como aquele da, para citar uma famosa metáfora freudiana, recuperação holandesa das zonas alagadiças do Zuiderzee.

É outro tema bastante conhecido pelos professores: a recusa da prática da leitura. Na minha opinião, trata-se de um sintoma decisivo. Do que depende? É um dos problemas básicos desta nova geração. A presença sempre presente das conexões impede a experiência de ausência e do vazio que, ao contrário, é essencial para a gênese do pensamento. Bion relembra isso de forma clara: o pensamento só pode surgir no horizonte da ausência da Coisa, contra o pano de fundo da Não-Coisa. Tentem separar um garoto do seu celular ou outro de seus vários objetos tecnológicos. Esse distanciamento é experimentado como um desmame brutal que provoca uma profunda ansiedade de separação e, consequentemente, uma rejeição obstinada. No entanto, devemos forçar este difícil caminho para tornar possível a experiência da formação.

A leitura da educação do livro é a pedra angular de toda escola. Sua morte clínica, anunciada com alegria por certos arautos da cultura digital, não leva em conta que sem essa educação toda didática seria simplesmente impossível. Essa educação deveria ser o gesto fundador de uma boa escola. Isso implica a emancipação de critérios de avaliação rigidamente quantitativos nos quais recai fatalmente também o paradigma dos exames Invalsi.

De fato, a educação à leitura é a educação à singularização divergente do saber. É o fundamento humanista inalienável da nossa cultura que hoje corremos o risco de esquecer atraídos pelas ilusões cientificistas que, de fato, levaram a Escola rumo à empresa e ao negócio, desnaturando sua vocação autenticamente formativa.

A importação de termos econômicos (dívidas, créditos, assessment, etc.) unida à colonização da língua inglesa não são sintomas marginais, mas revelam a nossa subordinação a uma "neolíngua" que perdeu toda espessura enigmática. Em vez disso, os professores deveriam defender o caráter épico da palavra. Recusar-se a reduzir sua dimensão à troca comunicativa. A amplitude da minha linguagem, como Wittgenstein lembrava, coincide de fato com a amplitude do horizonte do meu mundo.

As palavras carregam consigo a Lei do homem; são luz, abertura, horizonte, casa. Se a escola não recuperar o poder da palavra e a sua Lei, resultara mutilada em seu fundamento. Empreendimento titânico, mas decisivo, em um mundo que sistematicamente despreza essa Lei, enterrando sua vocação profética. Eis porque eu sou - anacronicamente - entre aqueles que ainda acreditam no modelo tradicional da lectio ex-cathedra. É apenas o testemunho do professor e de sua palavra que pode despertar ou desligar o desejo de saber nos alunos.

Não existe educação à leitura, não existe, portanto, educação em sentido amplo, se não houver a palavra de um professor. Aqui está outra simples verdade que a atual hiper-cognitividade do saber remove. Nunca se deveria esquecer: "Um mestre, um mestre, meu reino por um mestre!"

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