Bispos e padres precisam de mais ''amplitude''

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12 Julho 2019

“Por mais dolorosa que seja a realidade, eu não me surpreendo ao ouvir as histórias de horror de padres e bispos que tentam moldar o mundo exterior ou as realidades vividas dos outros às limitações das suas próprias experiências ou compreensão.”

O comentário é do frei franciscano estadunidense Daniel P. Horan, professor assistente de Teologia Sistemática e Espiritualidade na Catholic Theological Union, em Chicago, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 10-09-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

No início deste ano, o jornalista David Epstein publicou seu segundo livro, intitulado “Range: Why Generalists Triumph in a Specialized World” [Amplitude: por que os generalistas triunfam em um mundo especializado]. O livro é uma resposta envolvente aos best-sellers anteriores que enfatizaram a especialização, a concentração e a repetição como o caminho universal para o sucesso.

Você pode se lembrar do livro de 2008 de Malcolm Gladwell intitulado “Fora de série – Outliers” (Ed. Sextante), que, indiscutivelmente, defendeu o princípio das “10.000 horas”, que pretendia que essa quantidade de horas de prática no esporte ou no treinamento musical, por exemplo, tornaria qualquer pessoa um campeão ou virtuoso.

Ou você pode se lembrar do polêmico livro de 2011 de Amy Chua, professor de Direito em Yale, intitulado “Grito de guerra da mãe-tigre” (Ed. Intrínseca), que defendia um “modo chinês” específico de educação infantil caracterizado pela construção de habilidades, pela disciplina rigorosa e pela especialização precoce em contraste com um “modo ocidental” geral, que prioriza e celebra de maneira estimulante todas as coisas particulares (leia-se: “especiais”) sobre a criança individual.

O conselho sobreposto que decorre das respectivas abordagens de Gladwell e Chua era de que, para se ter sucesso na vida, na carreira ou no hobby, é preciso se comprometer o mais cedo possível, dedicar o máximo de esforço e energia possível, e sacrificar todo o resto a fim de se destacar na própria especialidade.

Epstein discorda dessa abordagem. Embora algumas habilidades sejam, de fato, aprimoradas e aperfeiçoadas depois de milhares de horas de repetição – geralmente aquelas que são realizadas em ambientes controlados como certos esportes ou contextos limitados como o de um cirurgião – a maioria das pessoas vive e trabalha em campos que não se conformam com tal configuração. Isso é ainda mais verdadeiro, diz Epstein, dentro de áreas que medem o sucesso pela flexibilidade, inovação e a necessidade de respostas criativas. A amplitude, e não a extrema especialização, é o que parece beneficiar as pessoas em tais ambientes.

Mesmo assim, com a onipresença das abordagens da “mãe tigre” e das “10.000 horas” na nossa cultura norte-americana, Epstein diz: “O desafio que todos enfrentamos é como manter os benefícios da respiração, da experiência diversificada, do pensamento interdisciplinar e da concentração atrasada em um mundo que cada vez mais incentiva, e até demanda, a hiperespecialização”.

Sendo isso tão verdadeiro em outras partes da sociedade, isso também é verdade no campo da pastoral. À luz do livro de Epstein e como um professor que leciona para religiosos e leigos em preparação para o ministério na Igreja Católica, eu fiquei pensando sobre quais lições poderiam ser tiradas do argumento apresentado em “Range” para a Igreja hoje.

Eu quero focar a minha atenção aqui nos ministros ordenados (ou que serão ordenados) na Igreja, porque, como a minha experiência de trabalhar e de lecionar para ministros leigos na Igreja me ensinou, a maioria dos leigos já são mais generalistas na vida, tendo frequentemente experiência em uma ou mais carreiras e regularmente recorrendo à habilidade polimática necessária para criar uma família.

É o clero que tende a ser hiperespecialista. Quando o necessário sistema de seminários foi estabelecido para todos os clérigos no Concílio de Trento em 1563 (várias formas de studia e de escolas monásticas já existiam em ordens religiosas há séculos), isso criou um contexto de formação profissional que favoreceu um currículo estreito de filosofia e teologia. Depois da encíclica Aeterni Patris, do Papa Leão XIII, de 1879, que elevou São Tomás de Aquino a “doutor universal”, o currículo ficou ainda mais estreito, e a pedagogia, mais pobre com a ascensão da “tradição manualista”.

A memorização e a repetição mecânica bastavam para uma educação passageira, e, embora os seminaristas fossem encorajados às vezes a se tornarem admiradores da finesse cultural (pense-se na ópera e na literatura), até a exortação Pastores dabo vobis, do Papa João Paulo II, de 1992, com a sua ênfase na formação “humana, espiritual, intelectual e pastoral” dos seminaristas, pouca atenção foi dada à ampla gama de buscas humanas em conhecimento, ciência e arte.

Padres e bispos, então, tornaram-se especialistas em teologia manualista, capazes talvez de recitar proposições catequéticas e cânones jurídicos, mas despreparados para as realidades mutantes de um mundo em rápida mudança ao qual eles eram enviados para ministrar. Tão recentemente quanto em 2006, quando foi promulgada a atual quinta edição do “Programa de Formação Sacerdotal”, que delineia o processo de formação e educação dos seminaristas católicos, uma das mudanças mais notáveis foi o aumento dos requisitos de estudo filosófico para 30 horas/aula em comparação com as 18 anteriores. Pedia-se mais do mesmo.

Epstein argumenta que um benefício para a amplitude em experiência, conhecimento e habilidade é a capacidade de analogizar e de obter sabedoria de áreas aparentemente não relacionadas para ajudar a forjar a inovação. Aqueles que são especialistas em uma área – e às vezes especialistas excepcionais – são contraintuitivamente inibidos de responder criativamente a situações para as quais eles estão despreparados; suas milhares de horas de repetição, prática ou memorização não os prepararam para esse ou aquele cenário imprevisto.

Seria uma surpresa imaginar por que houve tantos padres e bispos que inadvertidamente causaram danos àqueles cujas circunstâncias eles não compreendiam? Se tudo o que você tem à disposição é uma forma de treinamento manualista ou catequético, então o que você deve dizer aos pais de uma criança transexual? Ou como você elabora uma maneira autêntica e criativa de ir ao encontro de uma nova geração se a linguagem deles, o modo de se relacionar e a visão de mundo deles são totalmente estranhos aos seus?

Por mais dolorosa que seja a realidade, eu não me surpreendo ao ouvir as histórias de horror de padres e bispos que tentam moldar o mundo exterior ou as realidades vividas dos outros às limitações das suas próprias experiências ou compreensão. É difícil ver como quatro cursos de filosofia mais antigos ou medievais ajudariam os futuros ministros a pensar em novos caminhos.

A ideia de uma amplitude maior significa que você tem outros recursos e ferramentas para moldar a sua perspectiva, para recorrer ao elaborar uma abordagem analógica para novas situações além da sua experiência e para ajudá-lo a se tornar mais relacionável e empático ao se encontrar com alguém diferente de você ou com alguma ideia diferente da sua.

Como Igreja, nós geralmente recompensamos a especialização na formação dos nossos ministros ordenados e desencorajamos a amplitude e o alcance que possam permitir respostas pastorais mais abertas e criativas. Foi o que ocorreu quando os padres burocratas que atuavam em grande parte como empregados em Cúrias ou dicastério eram mais propensos do que outros a serem nomeados bispos nas décadas anteriores.

Com isso em mente, não é de se admirar que as lideranças da Igreja lutem para responder ousadamente a muitas das questões sociais mais prementes de hoje, como a justiça racial e as questões LGBT.

Para ser claro, eu não sou contra a formação e a especialização profissionais (e nem Epstein). O doutorado em Teologia é o equivalente ministerial do doutorado em Medicina e em Direito. Cada profissional precisa de uma base de conhecimento especializada adequada. O que me interessa pensar é como vislumbramos a formação e a orientação dos futuros ministros fora do status quo da formação isolada do seminário.

O recente “white paper” publicado por um seminário teológico do Boston College sobre a formação dos padres diocesanos [disponível aqui, em inglês] oferece algumas orientações construtivas ao longo dessas linhas.

Enquanto a Conferência dos Bispos dos Estados Unidos continua seu trabalho de redigir a sexta edição do “Programa de Formação Sacerdotal”, que pode ser votado já em novembro de 2019, parece uma boa ideia ler não apenas o artigo do Boston College, mas também o bom livro de Epstein.

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