Emaranhado de emoções e medos. As origens do mal e do sofrimento

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12 Julho 2019

Sempre achei que Edoardo Boncinelli, o mais importante geneticista italiano, poderia fazer inclusive em algumas de nossas igrejas tantas vezes em ruínas - esplêndidas homilias. Do pregador, como se entendia antigamente, Boncinelli tem as qualidades necessárias para enlaçar qualquer plateia e impor o silêncio absoluto: conhece muito bem aquilo de que fala; fala, bem como escreve, movido por um profundo impulso, por um amor sincero pelo assunto que está tratando; transfere esse amor a quem o escuta (ou o lê) com as intenções que podem advir de um pai ou de um irmão mais velho; finalmente, quando está no auge de suas certezas, sugere, ou honestamente afirma, quantas são as dúvidas, quantas são as outras verdades que, ao lado dessas certezas límpidas e incontestáveis, deixam um espaço menos límpido, se não mesmo obscuro.

O artigo é do escritor e crítico literário italiano Giorgio Montefoschi, publicado por Corriere della Sera, 08-07-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Il male.
Storia naturale e sociale della sofferenza
Reprodução da capa do livro

A leitura de Il male. Storia naturale e sociale della sofferenza (O mal. História natural e social do sofrimento, em tradução livre, Il Saggiatore), que é um de seus livros capitais revisado e completado depois de muitos anos, me convenceu ainda mais disso. Existe o Mal? E, se existir, em que consiste? Na natureza, o Bem e o Mal têm alguma razão de existir ou não? O Mal nasce com o homem? Por que, se Deus existe, permite o Mal? A estas perguntas, Boncinelli - que não acredita em Deus e nem mesmo em uma transcendência - responde partindo da dor: "Mais cedo ou mais tarde - escreve ele - qualquer adversidade acaba nos causando dor e da experiência da dor parte toda consideração do mal no mundo". A dor pode ser uma dor física vinda de fora ou de dentro do nosso corpo, aguda ou persistente; ou pode ser uma dor psíquica, isto é, uma dor que pertence ao grande capítulo das emoções. Nosso corpo é exposto a feridas externas, se deteriora e adoece; nós vivemos em um contínuo banho emocional devido às infinitas solicitações do mundo; somos, em resumo, um emaranhado de sensações físicas, de dores físicas e de dores psíquicas, de emoções, de medos; somos uma guirlanda de sentimentos desesperados ou estupendos, amamos as pessoas ou as coisas: mas tudo isso, até o que algumas pessoas chamam de Inconsciente, afirma Boncinelli, com a ênfase persuasiva e pacificadora do cientista, fora do corpo não existe. Acontece dentro do corpo, e é o indivíduo. O seu dominus é no cérebro: o córtex cerebral, ou seja, o terminal dos circuitos nervosos, o lugar da cognição, aquele da memória e da ordem. Portanto, o nosso Eu.

É perturbadora e ao mesmo tempo de alguma forma grandiosa, dentro dos limites de sua precária perfeição, a visão que o cientista tem do homem, a quem, enquanto dotado de razão, ele confia o próprio destino e a quem, enquanto homem livre na maioria das circunstâncias, encarrega do Bem e do Mal feito, bem como das escolhas que pode fazer em plena responsabilidade, no âmbito da vida coletiva ou da bioética, por exemplo. E é extremamente interessante o discurso que, a esse respeito, o moralista Boncinelli, sim isso mesmo: o moralista Boncinelli, faz a respeito as diferenças que existem entre os vários indivíduos (que existem e seria tolo não reconhecer, mas é preciso aceitar), sobre a detestável "normalidade" (que existe, é um fato estatístico), assim como sobre todas as idiotices que nos são oferecidas pelos cultores da raça (já que as raças não existem, nascemos e somos todos iguais: só cultura e educação produzem aquelas diversidades que devemos aceitar).

Mas o que acontece quando nos encontramos diante da ideia de perda e da morte? Aqui, os tons do cientista Boncinelli, que também não recua um milímetro em relação à sua posição laica, se tornam de sofrimento. Lembram, por intensidade, aqueles do Sermão XXVI no Cântico dos Cânticos de São Bernardo, traído ao limite da dor pelo desaparecimento de um coirmão, Gerard. "Algo dentro de nós - escreve Boncinelli - se rebela contra a ideia de que com a nossa morte tudo acabe. A riqueza da vida não pode ceder ao nada eterno. Toda perda deixa um rastro profundo em nosso coração! A sensação que a acompanha é tão viva e devastadora que coloca an dura prova a convicção que alguns, como eu, têm de que toda a vida emocional seja reconduzível à comunicação entre células nervosas pertencentes a circuitos neurais específicos e, em última análise, a um jogo bem orquestrada de moléculas”. E, no entanto, para ele, não há escapatória: "depois" não existe nada. Deus, como a vida futura, os homens o inventaram para se rebelar contra as "aflições da dor" que seguem a morte, o sentimento de que a cada hora de cada dia nos acompanha de "cerceamento, de paraíso perdido, de falta de disposição, de sinfonia interrompida".

O que é isso? O que é esse sentimento de vazio, de distância intransponível, em última instância de "privação" que às vezes nos surpreende? O que é esse Mal original e absoluto? Grande admirador de Santo Agostinho, Boninelli assume por um momento - como Agostinho - que Deus exista e seja um Deus criador. Como criaturas, nós não podemos, por definição, ser idênticos ao Criador, algo nos falta. Em suma, temos uma privatio boni, um defeito do Bem que é o Bem infinito sem especificações: a marca de origem do Pecado original. Se, em vez disso, um momento depois, pensamos que inventamos para nós a ideia de Deus (e é isso que Boncinelli pensa), o argumento cai. Nós estamos sozinhos E, na terra. "A vida humana é um escândalo", escreve Boncinelli nesse fascinante livro, cheio de sugestões e recomendações. Talvez pudéssemos acrescentar, talvez, que um segundo escândalo é a encarnação de Deus (para aqueles que acreditam nele) no homem. Vale dizer, ter preenchido o Mal absoluto, aquele defeito do Bem, no Filho. E, portanto, em uma figura humana: Deus, em um ser reconhecível. Nos homens. Nos outros. Que devemos amar e respeitar, como o Bem absoluto.

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