Acolher, ouvir, partilhar: uma jornada de fé para pessoas gays

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10 Julho 2019

De janeiro a junho: sigamos juntos a iniciativa de um pequeno grupo de padres e leigos que reuniu mulheres e homens gays em torno de questões sobre a fé. Os encontros ocorreram em Paris.

O relato é de Anne-Bénédicte Hoffner, publicado por La Croix International, 05-07-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

19 de janeiro: Acolher indo para as periferias

O convite circulou recentemente, e cerca de 15 pessoas – a maioria homens – passaram pela porta da cervejaria Au Trappiste. Alguns deles se conheciam. Outros, não. O café ajudou a uni-los.

O Ir. Gabriel Laguarigue, dos Irmãos de São João, teve a ideia junto com outros dessa “Jornada Alpha-Le Marais” depois de uma peregrinação a Medjugorje na Bósnia e Herzegovina com Gaël (todos os nomes foram mudados para proteger as identidades), que sabia que estava doente e queria ir lá com amigos e católicos gays. O Marais é uma parte histórica de Paris.

“Graças a eles, eu tomei consciência da energia de que eles precisam para superar a sua sensação de exclusão”, disse o irmão.

Como podemos levar a Igreja para fora das suas paróquias, saciar a sede espiritual e responder ao chamado do Papa Francisco para evangelizar “as periferias”?, perguntou ele.

Depois de uma reflexão, o pequeno grupo organizador escolheu um Curso Alpha para introduzir os fundamentos da fé cristã através de uma série de palestras e discussões no sábado de manhã em um café no Marais, para que “a abordagem fosse a mais leve possível”, disse o Ir. Laguarigue.

Ele vê esse programa, criado por um movimento cristão de origem britânica, como “um portal, um meio muito simples de implementar e, depois, eventualmente, se estender”.

Nenhum dos homens que foi naquela manhã, sozinho ou em pares, faz parte de uma comunidade.

“Eu odeio ser tratado como gay: eu não sou a minha sexualidade”, insistiu Timothée.

Acolher e ouvir, incondicionalmente”, partilhar “em uma atmosfera benevolente e fraterna” e permitir que todos “recebam a luz do Evangelho em suas vidas” – o projeto lhes diz muito respeito.

Os participantes esperam encontrar aqui um lugar para alimentar a sua fé, para além da sensação de exclusão que muitos deles compartilham.

Jean é o único que tem responsabilidades na sua paróquia, embora seu pároco saiba que ele vive com seu parceiro gay como casal: “Quando eu fui vê-lo para lhe perguntar se ele não tinha medo das reações, porque eu posso ser suspeito de pedofilia, ele me respondeu: ‘Tudo bem. Eu também sou’”.

“Há pessoas na Igreja que nos odeiam, e mesmo assim eu me sinto chamados à fé: eu gostaria de conciliar as duas coisas... Na verdade, não, desculpa, eu não me importo com a Igreja. A minha fé e o meu desejo de comunhão são mais fortes do que qualquer sentimento de exclusão que eu possa ter.”

9 de fevereiro: reconciliados com o cristianismo

Este é o quarto encontro. Depois do café introdutório, as trocas ocorrem em uma sala da paróquia vizinha de Saint-Merry.

O tema do dia é tão simples quanto complicado: “Como eu sei se tenho fé?”.

Ser cristão – lembrou Nathalie de Williencourt, que regularmente reúne pais confrontados com a descoberta da homossexualidade de seus filhos – “não é uma manifestação política, muito menos uma identidade”, mas sim estar “unido a Cristo”, disse ela.

Isso é bom, porque, para Bruno, essas experiências de encontro com Deus sempre ocorreram “onde ele não as esperava” e, em todo caso, “não graças à Igreja”.

“Os católicos não sabem aproveitar a vida e estão convencidos de que o mundo lá fora é mau.” O sorriso com que esse “jovem de 50 anos” fala mal esconde o sofrimento que ele expressa.

“Mas precisamente o que eu ouvi esta manhã é bom para mim: a relação com Cristo é linda e me faz crescer.”

Como eles têm pessoas gays entre seus parentes e estão acostumados com essas trocas, os companheiros parecem ser capazes de ouvir tudo. Ouvi-los sem julgar pode ser o começo de um efeito calmante.

Duas jovens parisienses vieram como casal: Salomé, que recebeu “uma formação muito católica”, e Jasmine, uma não crente. Em palavras simples, a primeira falou sobre como a sua fé se tornou pessoal após a morte da sua madrinha.

“Se ela não se desintegrou, é porque eu sempre coloquei a fé antes do lado social da religião. Durante meses, eu repeti para mim mesma: ‘O que importa é Cristo’.”

Jasmine não esconde sua admiração pela fé da sua parceira, a quem ela convida para “ir à missa em certas manhãs de domingo, mesmo quando você quer ficar debaixo do cobertor”.

“Ela me reconciliou com o cristianismo. Antes, era um dogma para mim. Eu não o via como uma forma de amor entre as pessoas”, admitiu a jovem da etnia Métis.

23 de março: como eu sei que isso vem d’Ele?

A conversa começa com a Quaresma e como eles a praticam. Para introduzir o tema do dia – “Como Deus me guia?” – o Ir. Laguarigue brinca, como sempre, com o seu reservatório de piadas católicas que parecem inesgotáveis.

Ele também cita um verso que ele “ama muito” do livro do profeta Jeremias: “Bem conheço os meus desígnios sobre vocês, desígnios de felicidade e não de sofrimento, para dar-lhes um futuro e uma esperança”.

Qual é o plano de Deus para cada um? A discussão que se seguiu sugere a dificuldade de responder a essa pergunta quando você é gay.

Emmanuel foi casado com uma mulher, e ambos, apesar de uma vida complicada como casal, tinham filhos.

“Durante 20 anos, eu fiquei imaginando o que Deus esperava de mim”, confidenciou ele, antes de relatar como, em uma certa manhã, a ideia da separação veio até ele.

“No dia seguinte, eu acordei com uma sensação de grande paz. Como sabemos se isso vem d’Ele? Qual era a vontade d’Ele em relação ao meu casamento? Isso continua sendo uma questão”, disse ele.

A questão dificilmente é mais simples para Julien, em cuja vida de fé ela entrou “um pouco por acaso” e um pouco sob a influência do seu melhor amigo da escola, que se tornou padre em uma comunidade tradicionalista. Ambos estavam “perdidos um para o outro” quando este último ficou sabendo que Julien era gay.

Mas, recentemente, eles se encararam na rua, e Julien teve que apresentar sua futura esposa. “Será esse o sinal de que precisamos nos reconectar?”, ele se perguntou.

13 de abril: sair de uma luta interior pode levar à cura

Por que, nos Evangelhos, Deus cura alguns doentes e outros não? Existem “critérios” ou é questão de “loteria”? Nesta manhã, as perguntas são aquelas que todo cristão enfrenta: as histórias de milagres espalhadas pelos Evangelhos.

“Sair de uma luta interior também pode curar a alma e o corpo”, disse o Ir. Laguarigue.

Lá fora, o tempo está terrível. As trocas continuam em um bistrô local com aqueles que podem participar. Salomé falou sobre como ela percebeu, por volta dos 20 anos, durante um intercâmbio universitário no exterior, que se sentia “atraída por garotas”.

“Durante cinco anos, eu fiquei me perguntando se isso estava errado, se eu era normal. Eu continuei indo à missa e senti que estava vivendo uma vida dupla”, admitiu ela.

Um amigo padre, o primeiro com quem ela falou pessoalmente, disse a ela, em nome dessa amizade, que “essa escolha não a fará feliz”.

“No fim, foram meus amigos católicos que me ajudaram a entender quem eu sou. Eu percebi que a fé está no meu DNA, e que eu não tenho escolha.”

11 de maio: como falar sobre a fé?

Estamos nos encaminhando para o fim da jornada. Julien se pergunta por que alguns deles só participaram de um encontro. Ele pessoalmente apreciou muito as trocas entre os participantes que “dizem por que estamos aqui em um sábado de manhã: porque algo nos conecta”.

Eles se perguntam sobre como falam e/ou testemunham a sua fé externamente: “Através de um sentimento de acolhida”, como Julien; tentando “amar o melhor que eu posso”, como Mary, uma enfermeira, a quem essa jornada permitiu “sair da sua solidão” e “não abandonar a fé em um período difícil para a Igreja”.

David tem sorte, nesse sentido. Enquanto ele passava por “tribulações terríveis” e se sentia descendo “até o fundo do poço”, Gaël – através de quem ele chegou a essa jornada Alpha-Le Marais – assegurou-lhe uma coisa: “Lá no fundo, está a mão de Cristo para te levantar”.

Receber o batismo não fez desaparecer “suas neuroses e tensões”, mas isso não o impediu de testemunhar a sua fé aos amigos da sua mãe no sul da França, assim como ele fez no coração do Marais.

“Um domingo, no café aonde eu vou depois da missa, Magali me perguntou por que eu parecia tão feliz. ‘Bem, porque eu tenho fé’, eu respondi.”

Hoje, ela também tem fé e me agradece por isso.

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