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Por: Gisele Carneiro | 26 Junho 2019

“Ler o mundo, fazer a crítica à situação desumanizante, anunciar a libertação e dar passos em direção à utopia possível é a intencionalidade da educação popular”, relata Gisele Carneiro, educadora popular.

No dia 18 de junho, Gisele Carneiro, Fernanda Lima e Vanda de Assis, do Centro de Formação Urbano Rural Irmã Araújo CEFURIA, dinamizaram o terceiro encontro do Ciclo de estudos e debates Trabalhadoras(es) do Sistema Único da Assistência Social, com o tema A educação popular no fortalecimento dos participantes da assistência social. A iniciativa é promovida pelo CEPAT, com o apoio do IHU.

Eis o relato.

Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual. Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar. (Bertolt Brecht)

Nesta etapa, abordamos a educação popular crítica, que tem Paulo Freire como referência. Iniciamos nosso encontro com uma encenação na qual pessoas com os olhos vendados falavam frases que expressavam preconceitos, ou seja: inverdades que se irradiam e de tanto serem repetidas, se tornam como que verdadeiras.

Em seguida, foi feita a leitura da poesia de Bertolt Brecht: Elogio do aprendizado. Depois da leitura, as vendas foram retiradas e, no lugar das frases, apareceram questionamentos. Ou seja: por meio da leitura do mundo, conforme Paulo Freire, a realidade é problematizada.

A criticidade na educação está relacionada ao movimento das classes populares na busca por transformar as estruturas sociais injustas, e para tanto realizam o seguinte percurso: leitura crítica da realidade; denúncia à desumanização; vislumbre e anúncio do horizonte de justiça que se espera alcançar e, finalmente, ação transformadora da realidade. Este é o movimento de libertação. A educação, dizia Freire: não muda o mundo, mas muda as pessoas que, por sua vez, transformam o mundo. Por isso, ela é essencial. E que seja libertadora!

Em seguida, conversamos sobre a vida de Paulo Freire: sua trajetória, metodologia, experiências em sua vida. Freire é educador reconhecido mundialmente, em especial pela obra Pedagogia do Oprimido, traduzida para mais de 20 idiomas.

Afinal, quem são os oprimidos de que fala Freire, e quem são opressores? Com relação às classes populares, às famílias de baixa renda do Brasil, estas são mapeadas, conhecidas e pesquisadas à exaustão. Quanto às classes dominantes, pouco se conhece sobre elas. Por isso, apresentamos um pouco do trabalho do professor Ricardo Costa de Oliveira (UFPR), um pesquisador que se dedica a estudar sobre as elites brasileiras.

Oliveira escreveu vários livros, dentre eles, O silêncio dos vencedores: genealogia, classe dominante e Estado no Paraná (Moinho do Verbo), bem como organizou a obra Família importa e explica: Instituições políticas e parentesco no Brasil (LiberArs). Este autor afirma que as classes dominantes se perpetuam no poder há séculos, operam redes de apoio e acumulam riqueza.

Ler o mundo, fazer a crítica à situação desumanizante, anunciar a libertação e dar passos em direção à utopia possível é a intencionalidade da educação popular. Para tanto, Paulo Freire propõe a educação libertadora, que se contrapõe ao que ele denominou “educação bancária”, na qual são “depositados” conteúdos nos cérebros de educandos, como se eles fossem vazios. Freire propõe a escuta, o diálogo problematizador, a horizontalidade nas relações.

Após a reflexão sobre educação popular crítica, as(os) participantes do Ciclo de estudos e debates Trabalhadoras(es) do Sistema Único da Assistência Social foram desafiadas(os) a refletir sobre a possibilidade de a educação popular contribuir na sua ação profissional e como seria isso. Dentre as várias participações, destacamos as seguintes:

(a) valorizar os saberes do outro;
(b) estabelecer diálogo de saberes em horizontalidade nas relações;
(c) como educadores, construir rodas de conversa a partir de conteúdos que as pessoas trazem;
(d) encorajar o protagonismo popular;
(e) buscar romper com o capital, ou seja, perseguir uma mudança estrutural, por meio da mudança de consciência;
(f) promover processos reflexivos com usuários, do individual ao coletivo;
(g) importância do acolhimento;
(h) intervir levando em conta a realidade dos sujeitos;
(i) O usual é a competição e o individualismo, por isso “nadamos contra a maré”;
(j) problematizar o conformismo e o imediatismo, visando sua superação.

Finalizamos ressaltando a importância da educação popular hoje, em tempos de violação e perda de direitos arduamente conquistados pela classe trabalhadora na história.

Abaixo, apresentamos a poesia de Bertolt Brecht, lida na encenação inicial:

Elogio do aprendizado

Aprenda o mais simples!
Para aqueles
Cuja hora chegou
Nunca é tarde demais!
Aprenda o ABC; não basta, mas
Aprenda! Não desanime!
Comece! É preciso saber tudo!
Você tem que assumir o comando!

Aprenda, homem no asilo!
Aprenda, homem na prisão!
Aprenda, mulher na cozinha!
Aprenda, ancião!
Você tem que assumir o comando!
Frequente a escola, você que não tem casa!
Adquira conhecimento, você que sente frio!
Você que tem fome, agarre o livro: é uma arma.
Você tem que assumir o comando.

Não se envergonhe de perguntar, camarada!
Não se deixe convencer
Veja com seus olhos!
O que não sabe por conta própria
Não sabe.
Verifique a conta
É você que vai pagar.
Ponha o dedo sobre cada item
Pergunte: O que é isso?
Você tem que assumir o comando!

Confira trechos do encontro:

 

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