Os 90 anos de Jürgen Habermas

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25 Junho 2019

Jürgen Habermas, filósofo e sociólogo, é provavelmente o mais famoso pensador vivo. Ele completou 90 anos no dia 18 de junho. Mas, apesar de sua idade avançada, está prestes a publicar um consistente trabalho de 1.700 páginas e continua a aprofundar a relação entre religião e filosofia. Para a ocasião, o site katholisch.de traçou este perfil.

A reportagem é de Fabian Brand, publicada por Settimana News, 20-06-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

"Auch eine Geschichte der Philosophie"
Jürgen Habermas
Foto: Editora Suhrkamp/Divulgação

Enquanto outros, em sua idade, já estão há anos aposentados e estão aproveitando essa fase de vida retirada e tranquila, Habermas apresenta para o seu jubileu um novo fruto de sua atividade. A editora Suhrkamp divulgou recentemente que seu novo livro será publicado no segundo semestre: 1.700 páginas, em dois volumes, intitulado "Auch eine Geschichte der Philosophie" (Também uma História da Filosofia, em tradução livre). Já este fato, por si só, mostra que é preciso acertar as contas com Jürgen Habermas: mesmo em idade avançada, ele acompanha atentamente e comenta os desdobramentos da sociedade, pelo menos é isso o que se pode esperar dessa nova obra.

Mas quem é esse homem que oferece um contributo tão impressionante?

Notas biográficas

Jürgen Habermas nasceu em Düsseldorf em 1929. Sua juventude foi marcada pela tomada do poder pelos nazistas e pela Segunda Guerra Mundial. Após o fim do conflito, ele começou seus estudos em Göttingen, Zurique e Bonn, mas não se concentrou em um único tema, ele tratou de uma gama muito ampla de interesses que vão da filosofia à história, da psicologia à literatura.

Particularmente importante foi seu encontro com Karl-Otto Apel, idealizador e representante mais conceituado do conceito chamado "ética do discurso" (Diskursethik) que, na época, fez seu doutorado sobre Heidegger, em Bonn.

Quando Martin Heidegger no início dos anos 1950 publicou a sua Introdução à Metafísica - foi em 1953 - no Frankfurter Allgemeine Zeitung (FAZ) apareceu uma revisão feita por um certo Jürgen Habermas. O fato de que Habermas já se expressasse na época de maneira muito crítica sobre Heidegger traça uma espécie de fio vermelho que percorre todo o seu currículo. Jürgen Habermas jamais completou uma leitura completa e um discurso crítico sobre Heidegger.

Em 1954 terminou seu doutorado na Universidade de Bonn com uma tese sobre Schelling, depois dedicou-se ao campo jornalístico e trabalhou entre outras coisas também para o Frankfurter Allgemeine Zeitung - FAZ e o Merkur como correspondente.

Depois de alguns anos como assistente científico em Frankfurt am Main, onde realizou pesquisas com Max Horkheimer e Theodor W. Adorno, em 1964, foi chamado para suceder Horkheimer na cadeira de filosofia e sociologia. No entanto, ele não permaneceu muito tempo em Frankfurt, e em 1971 deixou a universidade para liderar com Carl Friedrich von Weizsäcker em Starnberg o "Max-Planck-Institut para a pesquisa das condições de vida do mundo técnico científico".

Mas também o cargo de diretor do instituto foi de curta duração e, em 1983, mudou-se novamente para Frankfurt, onde ocupou a cadeira de filosofia até sua aposentadoria em 1994. Mas também depois de sua despedida da vida acadêmica ativa não foi interrompida: continuamente se manifestava sobre os eventos políticos e sociais atuais, comentando-os muitas vezes de maneira crítica.

A atividade científica de Jürgen Habermas foi recompensada com numerosos prêmios: entre outros, em 2001 recebeu o "prêmio da paz" do comércio literário alemão, em 2004 foi agraciado com o "Prêmio Kyoto" por toda sua obra e recentemente foi homenageado pelo "grande prêmio das mídias franco-alemãs" (2018). Tudo isso indica que Habermas é um dos filósofos mais conhecidos e discutidos do nosso tempo.

A análise de seu pensamento pode ser reconstruída apenas fragmentariamente. Suas intervenções das últimas décadas são muito complexas e múltiplas. Habermas não é alguém que se concentre em um tema e se limite a este apenas. Ao longo de sua carreira científica, sempre manteve um olhar muito amplo; por seu pensamento, são características as atenções colaterais a outras disciplinas e, em particular, à estreita relação entre filosofia e sociologia. Se nos perguntamos qual seria o ponto de partida de seu trabalho de pesquisa, pode-se dizer que foi sobretudo a experiência do nacional-socialismo que deixou nele uma marca duradoura desde a juventude.

Habermas queria tirar o medo das pessoas

Na introdução de seu Discurso Filosófico, ele escreve: "Para nós era impossível não tomar posição sobre as revelações dos crimes do regime nazista, ou de maneira defensiva ou autocrítica. (...) Para nós, a discussão política sobre o fato do vasto consenso de nossa população ao regime nazista permaneceu até hoje mais do que um argumento entre outros. A primeira República Federal foi caracterizada por uma divisão entre instituições democráticas frágeis e mentalidades autoritárias dificilmente abaláveis. Como em quase todas os ambientes operacionais, mesmo no mundo universitário, a continuidade pessoal permaneceu intacta. Os pioneiros intelectuais do antigo regime - com raras exceções - sobreviveram impassíveis à desnazificação. Eles se sentiam ao abrigo das críticas e não viam motivos algum para fazer uma autocrítica. A continuidade pessoal e espiritual que mantiveram sob o manto de um anticomunismo imperturbável conservaram vivo o medo de recair sob um modelo de comportamento autoritário e de hábitos elitistas de pensamento da Alemanha pré-democrática – pelo que me consta, até o início dos anos 1980”.

Mas Habermas não estava interessado em se perder nesse pessimismo decorrente dessas experiências. Muito mais importante para ele era o pensamento de remover o medo das pessoas e consolidar nelas a esperança de um futuro melhor. Como sucessor de Horkheimer e Adorno na "Escola de Frankfurt", era seu desejo fortalecer o vínculo entre a filosofia e as ciências sociais, trabalhando desse modo para uma sociedade mais democrática e humana.

Mesmo as questões relativas à religião e ao cristianismo, pelo menos nos últimos tempos, sempre estiveram presentes em suas obras. Até 1981, em sua Theorie des komunikativen Handels (Teoria da ação comunicativa), compartilhou a antiga tese da secularização segundo a qual a religião gradualmente desapareceria. Mas anos depois falou de uma era "pós-secular", qualificando a si mesmo (em referência a Max Weber) como um "religioso não musical", embora reconhecendo muitos aspectos positivos no sistema religioso, especialmente nos problemas morais e éticos. Ao contrário do pressuposto medieval de que a filosofia fosse uma simples "serva" da teologia, ele mudou essa antiga determinação de relação ao se pronunciar a favor do uso das tradições religiosas nos discursos filosóficos-sociais.

Ratzinger e Habermas: mais próximos do que se possa pensar

Em uma conversa com card. Joseph Ratzinger, em janeiro de 2004, na Academia Católica de Munique, Habermas declarou: "Os cidadãos secularizados, na medida em que agem em seu papel de cidadãos, não podem negar em princípio um potencial de verdade à visão do mundo religioso, nem contestar a seus concidadãos crentes o direito de oferecer sua contribuição ao debate público com uma linguagem religiosa. Uma cultura política liberal também pode esperar que os cidadãos secularizados participem dos esforços para traduzir as contribuições relevantes do campo religioso em uma linguagem acessível ao público".

O fato de que, no final, Habermas e Ratzinger não estivessem assim tão distantes entre si, demonstra o quanto o filósofo estimasse a influência da religião no sistema social e político.

Deve-se agora esperar que Habermas se expresse a esse respeito em seu novo livro, no qual - escreve o editor na apresentação - pretende responder por que "a filosofia foi gradualmente se secularizando e separando de sua simbiose com a religião".

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