Por que não conseguimos acabar com o Alzheimer?

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15 Fevereiro 2019

As farmacêuticas se chocam uma vez mais contra a complexidade de uma enfermidade que não conta com nenhum tratamento eficaz.

A reportagem é de Daniel Mediavilla, publicada por El País, 13-02-2019. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Em 1986, no município colombiano de Belmira, o neurologista Francisco Lopera viu um paciente que chamou a sua atenção. Tinha 47 anos, mas apresentava sintomas próprios de uma pessoa com Alzheimer de mais de 60. Lopera não deixou por isso e estudou a sua família. O pai, o avô e sete parente mais haviam sofrido da mesma doença igualmente cedo. Estudos posteriores identificaram a origem genética desse Alzheimer precoce e determinaram que a região de Antioquia, onde se encontra a cidade de Medellin, era o principal foco mundial do transtorno. Anos depois, dessa particularidade tentaria aproveitar começar a derrotar o Alzheimer.

Essa doença, que consome regiões do cérebro até acabar com a memória, a identidade e, finalmente, a vida de uma pessoa, parece não tem cura. Segundo a Fundação Alzheimer Espanha, cada ano se diagnosticam 100 mil novos casos e se espera que essa cifra se triplique em 2050. A principal hipótese para explicar a procedência da enfermidade aponta a uma acumulação de placar de proteínas amiloides no cérebro em primeiro lugar, à aparição depois de ovos de outra proteína, tau, que destrói os neurônios, e a um processo posterior de inflamação que termina a catástrofe. Quando aparecem os sintomas e se diagnostica, os danos no sistema nervoso são irreversíveis e nenhum medicamento se mostrou eficaz para diminuí-los. Por isso, por uma das opções que planejam os cientistas consiste em começar o tratamento muito antes que a doença seja evidente. No entanto, não é simples predizer com 20 anos de antecedência que ela vai se desenvolver.

Os pacientes colombianos parecem uma boa opção para, ao menos, testar a hipótese de que, detectada a tempo, era possível frear o Alzheimer. “A ideia é que é preciso dar o remédio adequado no momento adequado”, aponta Jesús Ávila, diretor científico da Fundação CIEN (Centro de Investigación en Enfermedades Neurodegenerativas). Por isso, há importantes esperanças postas no ensaio desenvolvido na Colômbia para deter a enfermidade com o fármaco crenezumab. “Como conhecemos que a enfermidade tem uma origem genética e se dá no momento correto”, acrescenta o pesquisador. Porém, na semana passada, a farmacêutica Roche anunciou que detinha dois grandes testes mundiais com o crenezumab que não cumpriam as expectativas. No mesmo comunicado assegurava que o teste com a população de Antioquia continuava.

O fracasso de Roche se une ao de muitas outras companhias com suas moléculas contra o Alzheimer. Em 2018, Lilly anunciou que seu ensaio com um fármaco para limpar as placas de proteína amiloide no cérebro havia fracassado. Outras companhias como Merck, Biogen ou Prana Biotech tiveram que abandonar fármacos promissores e em janeiro do ano passado Pfizer anunciou que não investigaria mais fármacos contra o Alzheimer para centrar-se em doenças onde seus investimentos fossem mais produtivos.

Anos de contratempos incrementaram o interesse por interpretações alternativas sobre a origem da doença. Estudos recentes encontraram vínculos entre o Alzheimer e infecções por fungos, pelo vírus da herpes ou bactérias que causam infecções de gengiva. Não obstante, segundo explica José Luis Molinuevo, diretor da Barcelonaβeta Brain Research Center, o instituto de pesquisa da Fundação Pasqual Maragall, “a realidade por trás disso tudo é que [a origem] o Alzheimer é sumamente complexo e seu início pode se precipitar por diferentes situações e agentes de risco. Não é descartável que o equilíbrio que existe no cérebro, onde todos metabolizamos de forma normal a proteína precursora do amiloide se rompa, entre outros fatores, pelas infecções”, continua. “Porém seria um dos muitos fatores que começam a produzir a doença vinte anos antes de aparecerem os sintomas”, acrescenta.

Molinueva acredita que terá que estudar a doença por muitos pontos de vista e que para fazê-lo terá que melhora a forma em que se fazem os ensaios. “Em muitos casos, os testes têm resultados negativos porque o fármaco não funciona, porém em outros é porque o desenho do ensaio não é adequado”, explica. “Nós colaboramos com a EPAD (European Prevention of Alzheimer’s Dementia), um consórcio entre o setor acadêmico e o setor privado para desenhar ensaio na fase II mais eficiente”, aponta. Assim, poderão provar com mais rapidez distintos fármacos com distintas doses e saber quais merecem chegar à fase III, que requer um grande investimento. Ademais, Barcelonaβeta está desenvolvendo o estudo Alfa, uma pesquisa que vai acompanhar durante décadas cerca de 3 mil filhos de pessoas com Alzheimer em busca dos fatores de risco e os indicadores biológicos relacionados com a aparição da doença.

Faz mais de um século que Alois Alzheimer identificou pela primeira vez a doença e várias décadas desde que se começou a pesquisar uma cura, porém os tratamentos disponíveis são praticamente nulos. Os cientistas continuam buscando interpretações que ajudem a mudar a situação e já há quem relaciona sua aparição com as enfermidades cardiovasculares, imunológicas ou com a diabetes. Ramon Gomis, ex-diretor do Institut d’Investigacions Biomèdiques August Pi i Sunyer (IDIBAPS), comentava em uma entrevista ao El País, que há quem considera que essa demência pode ser uma diabetes de tipo 3 (acrescentada às duas que já se conhecem). “No Alzheimer se viu que também há uma resistência à insulina em áreas neuronais, algumas específicas que podem ter a ver com a memória. Esse fato levantou que poderia haver algo em comum na sinalização da insulina em tecidos periféricos de diabetes convencionais e no Alzheimer. O que é curioso é que já há ensaios com fármacos antidiabéticos para o tratamento do Alzheimer”, comenta.

Ávila reconhece que os resultados das últimas décadas não foram tão bons como gostariam os pesquisadores, mas acredita que o órgão afetado pela doença a converte em um problema maior que, inclusive, o câncer. “O cérebro como órgão é muitíssimo mais complicado, tem muito mais células, maior diversidade celular, uma expressão genética mais complexa, tem muitas variáveis mais”, recorda. “É difícil, mas eu espero que os que virão depois de nós se aproximem mais da prevenção ou da cura”, conclui.

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