O presente sem sombras e o Alzheimer em 'Para sempre Alice'

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30 Março 2015

"A questão em jogo, no entanto, não é a morte que chega pela falência dos órgãos, mas a vida que se vai pela perda de sí própria, pela perda das referências, pelo fim da memória, por um presente que se torna uma espécie de corpo sem a sombra do passado." O texto é de Ricardo Machado, jornalista e mestrando no PPG em Ciências da Comunicação da Unisinos.

Eis o texto.

Imagine o seu cérebro como uma espécie de dicionário em que você diariamente consulta palavras e seus significados. Agora imagine que você está diante de uma cruzadinha, dessas que não há pistas, apenas o quadriculado com os números, e ao lado uma lista com enigmas que você deve decifrar, assim do zero, sem nenhuma referência, mas quando consulta seu dicionário mental descobre que ele se tornou um livro cheio de páginas em branco. Em linhas gerais, esta é a história de Para sempre Alice, filme dirigido por Richard Glatzer e Wash Westmoreland, que rendeu a Julianne Moore o Oscar (além de outros tantos prêmios) de Melhor Atriz em 2015.

Julianne Moore, que já havia sido indicada ao Oscar de Melhor Atriz, consquistou a estatueta aos 54 anos

Tendemos, por fanfarronice ou puro desespero, tratar dos nossos esquecimentos cotidianos de forma engraçada, inventamos diversos chistes para rirmos de nós mesmos e lidarmos com as falhas de nosso cérebro. Mas Alice Howland, a personagem interpretada por Julianne, não faz assim, desespera-se ao se dar conta que não sabe voltar para casa depois de uma corrida na universidade onde leciona. Alice é uma linguista reconhecida que descobre, durante uma conferência, sinais de esquecimento ao não se recordar, por exemplo, da palavra "léxico", o que neste caso não deixa de ser emblemático. A descoberta do Alzheimer precoce por parte da personagem ocorre em um momento paradoxal, justamente quando ela parece atingir o auge de sua carreira, sua mente começa a declinar à morte.

A questão em jogo, no entanto, não é a morte que chega pela falência dos órgãos, mas a vida que se vai pela perda de sí própria, pela perda das referências, pelo fim da memória, por um presente que se torna uma espécie de corpo sem a sombra do passado. O interessante das histórias, sejam elas cinematográficas ou literárias, é aquilo que teoricamente chamamos de "conflito", algo que está ali, que nos move a viver o drama dos personagens, mas que não se resolve, nem para nós, nem para eles. É nessa tensão, de quem percebe o passado escorrer por entre lugares (Alice não encontra o banheiro de casa) e pessoas (há um momento em que ela não reconhece a filha) que o drama se desdobra.

Para sempre Alice não é um exercício fílmico muito sofisticado. No entanto, há que se levar em conta que Richard Glatzer, um dos diretores da obra, descobriu em 2011, no começo das gravações, que sofria de esclerose lateral amiotrófica, doença que afeta os neurônios responsáveis pelos movimentos do corpo e causa a perda do controle muscular. Quando Julianne Moore recebeu a estatueta, em 22 de fevereiro, Glatzer estava internado e assistiu a cerimônia junto com seu marido e também diretor do filme Wash Westmoreland. No dia 11 de março, um dia antes da obra estrear no Brasil, Glatzer morreu.

A despeito da simplicidade estética em que o filme funciona, Julianne consegue traduzir de maneira competente e profunda as complexidades em torno da falta de memória, tema que insistimos em abordá-lo pela tangente, quase sempre em um riso amarelado de uma piada sem graça. Por outro lado Para sempre Alice é um filme sobre o Mal de Alzheimer em se que prefere tratar da questão de fundo sem analgésicos audiovisuais, e é tão duro e "desumanamente" humano quanto caminhar sob o sol de 40 graus e não ter diante dos pés a própria sombra, senão apenas o suor do presente sobre a testa.

 

Ficha Técnica

Título Original: Still Alice (2014)

Direção: Richard Glatzer, Wash Westmoreland

Roteiro: Lisa Genova (livro), Richard Glatzer, Wash Westmoreland

Elenco Principal: Julianne Moore, Kristen Stewart, Alec Baldwin, Kate Bosworth

 

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