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11 Fevereiro 2019

“Desta vez, as mudanças foram mais rápidas do que o pensamento. O nosso entendimento do mundo não está “em pane”; está atrasado. As disciplinas do conhecimento, como a sociologia ou a filosofia, não tiveram tempo, por assim dizer, para forjar os conceitos que possibilitariam compreender essas mudanças. E para esconjurar a ansiedade que elas inspiram”, escreve Jean-Claude Guillebaud, jornalista, escritor e ensaísta, em artigo publicado por La Vie, 04-02-2019. A tradução é de André Langer.

Eis o artigo.

Devemos nos lembrar que a inesperada vitória da macronia (referência a Emmanuel Macron, presidente da França) e a repetida raiva dos “coletes amarelos” procedem de um mesmo “acidente” político: a implosão dos partidos tradicionais, pelo lado de Emmanuel Macron; a crise duradoura dos sindicatos, pelo lado dos “coletes amarelos”. Os dois campos são emergentes e estruturalmente rivais. São irmãos inimigos. Essa paradoxal dualidade provoca inúmeras conversações, na maioria das vezes contraditórias.

Eles nos impedem de tomar pé de uma nova realidade. A que segue: nosso tempo vive uma inquietude específica. Ela não se reduz a esse medo de mudança que os comentaristas, periodicamente, acreditam detectar em nossos contemporâneos. Ela não é política, nem psiquiatricamente trivial. Ela também não se confunde com os diversos receios – terrorismo internacional, mudanças climáticas, fragilidade ecológica, criminalidade ou falta de civismo ordinário – apresentados, com justa razão, pelas notícias.

Ela está enraizada em outra profundidade. Os medos cotidianamente midiatizados alimentam-se de uma angústia mais essencial, mas que não encontra realmente suas palavras. Cada um de nós pressente, nas profundezas de si mesmo, a radicalidade das mudanças antropológicas para as quais as nossas sociedades humanas são arrastadas. Um mundo comum, com suas representações coletivas, suas narrativas fundadoras, sua ordem simbólica, seus regulamentos e suas crenças, está sendo engolido. O mundo novo em que nos faz entrar permanece incompreensível. É essa obscuridade que trabalha o imaginário coletivo. E o inflama.

A ideia do apocalipse afeta a cada um de nós. Vivemos – às apalpadelas – uma das grandes rupturas históricas que, como o colapso do Império Romano, o Renascimento, o Iluminismo ou as duas Revoluções Industriais, deram origem a outro mundo. Mas nós ainda temos dificuldades, por enquanto, para ler este turbilhão planetário.

Às palavras crise ou mutação, se banalizadas, eu prefiro o conceito de bifurcação. Ele vem das ciências matemáticas e foi popularizado pelo Prêmio Nobel de Química belga Ilya Prigogine (falecido em 2003). Ele designa, no sentido próprio, uma mudança de estado, um salto qualitativo. Esse que nós vivemos nos últimos trinta anos, pela sua amplitude e, especialmente, pela sua velocidade, foi suficiente para deixar todo o mundo atordoado. É o menor.

Desta vez, as mudanças foram mais rápidas do que o pensamento. O nosso entendimento do mundo não está “em pane”; está atrasado. As disciplinas do conhecimento, como a sociologia ou a filosofia, não tiveram tempo, por assim dizer, para forjar os conceitos que possibilitariam compreender essas mudanças. E para esconjurar a ansiedade que elas inspiram.

Vivemos, pela força das circunstâncias, num universo impensado, o que não significa que seja impensável. Essa opacidade faz nascer em nós mais terrores obscuros do que esperanças, mais medos instintivos do que confiança, e mais perguntas do que – no momento – a nossa inteligência é capaz de apreender. Este realmente não é o momento para ceder a esta fraqueza que os Padres do deserto chamavam de “acedia” (akédia em grego), isto é, o desânimo, o esgotamento da esperança. E ceder seria a nossa derrota em tudo.

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