Humanismo hoje: ''O Evangelho continua falando e produzindo sentido.'' Entrevista com Jean-Claude Guillebaud

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29 Janeiro 2018

“O essencial é que a fonte evangélica produziu valores como liberdade, igualdade, estado de direito, mesmo que tenham sido laicizados”, afirma o jornalista francês Jean-Claude Guillebaud, ex-correspondente do jornal Le Monde e colunista da revista francesa La Vie desde 2001.

A reportagem é de Samuel Lieven, publicada por La Croix, 26-01-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Existe um humanismo especificamente cristão?

Não é essa a minha preocupação. O essencial é que a fonte evangélica – de que fala magnificamente o dominicano Claude Geffré no seu último livro (O cristianismo como religião do Evangelho, Ed. Cerf, 2012) – produziu valores como liberdade, igualdade, estado de direito... Embora esses valores não pertencem há muito tempo aos cristãos, porque foram laicizados.

Por que se diz que o humanismo está em crise?

Vivemos grandes mudanças que trazem um grande desânimo aos nossos contemporâneos. Mudanças geopolíticas, desde que o Ocidente não é mais o centro do mundo. Mudanças econômicas, com uma globalização que mudou o estado das coisas e um mercado que se livrou das fronteiras nacionais. Mudanças digitais, com a irrupção do imaterial nas nossas vidas e a mudança radical que isso implica na nossa relação com os outros, com o saber, com a cultura... Mudanças genéticas, com a nossa capacidade de intervir já na reprodução da espécie e a necessidade, portanto, de refundar o parentesco. Mudanças espirituais, enfim, porque a religião não desapareceu entre os detritos da história. A principal diferença entre o ser humano e o gorila, tão próximos geneticamente, é que o gorila não distingue entre a água e a água benta. Mas, no fim, estou convencido de uma coisa: cada uma dessas mudanças pode trazer tanto o pior quanto o melhor.

O Evangelho ainda pode agir no meio dessas mudanças?

A mensagem do Evangelho dividiu a história do mundo! Um dia, o pensador cristão René Girard me aconselhou a ler Nietzsche, o filósofo da morte de Deus. “Por quê?”, perguntei-lhe, um pouco surpreso. “Porque Nietzsche tem um ponto em comum conosco: ele leva o Evangelho muito a sério. Para ele, é uma catástrofe, e, para nós, é uma boa notícia.” Ainda hoje, o Evangelho continua falando e produzindo sentido, até mesmo para pessoas que não são cristãs, mas aderem, sem necessariamente se darem conta, a valores que vêm do Evangelho ou do judaísmo.

Quais são os valores que nós devemos ao Evangelho?

Tomemos a igualdade, que está no coração do lema da República francesa. Antes, nenhuma outra civilização havia defendido esse princípio. No Oriente, não se acredita nele. Nem mesmo os gregos acreditavam nele. A controvérsia de Valladolid em 1550 foi uma virada na nossa história. Tratava-se de saber se os indígenas da América reduzidos à escravidão eram ou não homens dotados de uma alma. Sepulveda, um especialista em Aristóteles, defendia que eles não eram homens. Las Casas, um religioso dominicano, defendia o contrário: todos nós somos as mesmas criaturas sob o olhar de Deus. Ele se referia à epístola de São Paulo aos Gálatas: “Não há mais judeu nem grego; não há mais escravo nem livre; não há mais homem e mulher” (Gl 3, 28). Se a igualdade se tornou um valor francês, são precisamente os valores evangélicos que constituem o humanismo e que o ajudam quando está em crise.

Quem encarna esses valores hoje?

Por ocasião da cúpula de Davos, o grande encontro neoliberal dos donos do mundo, o Papa Francisco denunciou “os modos de vida egoísta marcados por uma opulência que não é mais sustentável e é indiferente ao destino dos mais pobres”. Através dessas palavras fortes, é o próprio papa que sai em socorro do humanismo! O que ele disse naquela ocasião era compartilhado por pessoas que, há 30 anos, não tinham nada a ver com o cristianismo.

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