“Na Venezuela vivemos em uma ditadura e precisamos de uma transição”. Artigo de Pedro Trigo

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10 Fevereiro 2019

“Os acontecimentos estão em pleno desenvolvimento e há atores-chave cuja atitude é imprevisível”, escreve o teólogo Pedro Trigo, sj, em artigo publicado por Religión Digital, 08-02-2019. A tradução é de Graziela Wolfart.

Eis o artigo.

Estamos diante de uma ditadura com métodos totalitários. Chávez quis implantar um totalitarismo, mas fracassou porque para ele o socialismo do século XXI, em nosso país, era um socialismo rentista: com a renda do petróleo, tendencialmente, não era preciso explorar ninguém. Concebeu, então, um país de entusiastas receptores da renda petroleira, não de produtores. Não se deu conta de que o trabalho não é só um meio de vida, mas, mais do que isso, é um modo de vida: um canal primário de humanização, convivência e solidariedade. Além disso, por ressentimento, quis acabar com a iniciativa privada. Não só por reação ao desemprego empresarial do ano de 2002, mas mais ainda porque as empresas que confiscou foram à bancarrota ou operam com perdas e não gostava que a iniciativa privada produzisse, por isso buscou sufocá-la.

Sequer a PDVSA (Petróleos de Venezuela) funciona, ela que quando Chávez tomou o poder era uma empresa muito sólida. O que se produz é por associação com transnacionais. Quando caíram os preços petroleiros, como não se produz nem há divisas para importar, tudo começou a se esgotar e hoje quase não há nada de nada. O governo enche o país de dinheiro inorgânico e por isso tudo custa cada dia mais e a imensa maioria não tem dinheiro para comprar; além disso, não haveria produtos para todos, nem sequer para a maioria.

Agora o governo tem como único objetivo continuar no poder. Não lhe importa a sorte dos cidadãos. Por isso, a repressão crescente. Mas nenhuma ditadura perdura só por repressão; necessita uma clientela. Chávez a teve por seu poder carismático, realmente monstruoso, capaz de deixar sem palavras inclusive os seus inimigos intelectuais. Este governo, como não tem o carisma, alimenta-se dos nostálgicos que vivem das orientações do "Comandante supremo", agora "Comandante Eterno", que já não chegam nem a 1 milhão, e dos dependentes por alimentos e bônus cada dia mais escassos, que estão desaparecendo. O mesmo ocorre com os funcionários do Estado, cada dia menos dispostos a ir embora, controlados por lista.

Porém, sim, é real e verdadeira essa guerra econômica do império, que era a desculpa imaginária do governo até agora para fugir das suas responsabilidades. Mas, diferente das medidas anteriores que afetavam os funcionários por acusações criminais, estas medidas, sim, afetam drasticamente a cidadania, que, de estar à beira da morte, pode passar à morte de fato.

(Foto: Religión Digital)

Nesta situação temos que ter em conta que não tem sentido apoiar nenhum diálogo com o governo que não seja para uma transição na qual Maduro saia do governo. O governo provou repetidamente que só quer ganhar tempo para se manter. Convocar eleições parlamentares tem menos sentido ainda: primeiro porque não cabe e segundo porque continua sendo uma maneira de ganhar tempo e seguir como está. As únicas eleições têm que ser para eleger Presidente com um conselho eleitoral renovado e em um prazo razoável.

No entanto, se o governo concorda em abrir caminho para uma transição, nós, os demais atores, temos que aceitar que é preciso postergar a execução da justiça. Não haverá impunidade, mas hoje temos que lhes conceder um tempo. É elementar: são maus, mas não tolos. Temos que pagar esse preço, mesmo que seja muito difícil para nós.

Além disso, se somos cristãos, não temos que buscar única e principalmente que "o que se faz, se paga". Temos que buscar sua reabilitação. Não só a dos rostos mais visíveis do governo, mas de todos os funcionários, inclusive dos policiais, que foram delinquentes roubando, maltratando e até matando, como a de tantos cidadãos que se aproveitaram da situação. Se não conseguimos que se reabilitem, o país não será viável. E se não queremos sua reabilitação, seremos parte do problema e não da solução.

É imprescindível um governo de transição com três objetivos: (1) resgatar o Estado, “engolido” pelo governo, colocando em todos os âmbitos da burocracia pessoas idôneas e com probidade moral; (2) resgatar as Forças Armadas e as polícias, tornando-as independentes do governo, com profissionalismo e solidez moral; (3) resgatar a economia, dando garantias e incentivos à iniciativa privada com a exigência de que cumpra com sua responsabilidade social. E as empresas básicas nas mãos do Estado, sobretudo as petroleiras, e as empresas básicas em geral, têm que ser independentes do governo com idoneidade profissional e sentido público. Isto requer um tempo mínimo de três anos, não para que se solucione, mas para que os processos tomem corpo.

(Foto: Religión Digital)

No entanto, temos que ser conscientes de que a maioria dos governos que exercem pressão, digam o que disserem, não atuam para o bem dos cidadãos, mas por duas razões: os governos latino-americanos, sobretudo Bolsonaro e Duque, para sair um vizinho esquerdista e para que o que venha se alinhe com eles. Essa razão vale também para o governo de Trump. Mas para ele, e para a maioria, a razão de fundo é o petróleo: apoiam para ser sócios em condições vantajosas.

Se o governo que suceder Maduro é, como eles, de ultradireita ou simplesmente de direita, nas segundas eleições presidenciais, vão retornar os chavistas, e com toda razão, porque o povo ficará pior do que agora, que já está ruim. Temos que ter em conta que Chávez não ganhou as eleições do fim do século: as pessoas votaram pela saída de um regime que já não tinha nada para dar. As eleições de dezembro de 2015 não foram ganhas pela oposição: as pessoas votaram pela saída de um regime que já não tinha nada para dar. Se o eleito depois do governo de concentração nacional for de direita, as eleições seguintes não serão ganhas pelo chavismo e seremos um país como um carro atolado na lama, que não avança mais e só afunda. É o que de mais triste pode acontecer e que temos que evitar.

A tarefa mais importante hoje, mais que a ajuda humanitária, é nos organizar e nos dirigirmos a uma alternativa superadora. É mais que a ajuda humanitária porque esta, por definição, tem que contar com o Estado e, além disso, é de curta duração: por emergência; e, além do mais, como está a situação, não é fácil que chegue a seus destinatários e não fique pelo caminho. Vamos precisar muita ajuda de organizações solidárias por bastante tempo. Essa, muito mais capilar e direcionada, chega completa aos que a necessitam. Mas o que mais precisamos é discernimento para nos dirigirmos a uma alternativa superadora. Temos que ter em conta que para isso os governos não nos ajudarão, somente pessoas e organizações conscientes e solidárias, que vivam já de um modo alternativo ao que está em vigência, que é o que está atrelado ao binômio produção-consumo.

Temos que reduzir drasticamente a compulsão em adquirir mercadorias, temos que nos restringir ao realmente conveniente e empregar todas as demais energias e recursos na convivência no corpo social de modo mais qualitativo possível, no sentido mais humano, horizontal, criativo, dinâmico, gratuito e simbiótico possível.

Em âmbito estrutural a alternativa consiste em superar a divisão atual, característica da modernidade, entre o privado e o público. Temos que manter obviamente a distinção, mas não a separação como se tem praticado, que reduz o público à eficiência dentro dos moldes estabelecidos e que relega o privado ao gosto de cada um, contanto que não colida com as leis. O que está ausente em ambos os níveis é o processo de constituição em pessoas com qualidade humana e de ambientes que propiciem a humanização. Temos que substituir este horizonte, tanto no público como no privado. E temos que aceitar que a política se ocupe dos mínimos de bem comum indispensáveis para que seja possível a convivência ordenada e humana e para o alento a quem, de outros âmbitos religiosos ou simplesmente humanistas, fomenta estes seres humanos consistentes e solidários, bem como as organizações que se encaminham em aspectos concretos, até os máximos de bem comum, que não são exigíveis por lei.

Um tema imprescindível para uma alternativa superadora é que a empresa cumpra com sua função social, de maneira que sua rentabilidade provenha de sua alta produtividade e não da negação de todos seus direitos ao trabalho, como em grande medida acontece hoje no mundo. Graças a Deus, assim como muita gente, sobretudo popular, aprendeu com este tempo miserável e está disposta a viver de modo mais consciente e responsável que como viveu antes de Chávez, também vários empresários aprenderam com esta dura experiência tão a contracorrente e, por isso, ao ver que seus trabalhadores estão de acordo, estão dispostos a seguir nesse tom, em outro cenário mais flexível.

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