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26 Novembro 2018

Entrevista com a teóloga Letizia Tomassone por ocasião do Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres. No dia 25 de novembro se comemora Dia internacional para a eliminação da violência contra as mulheres, um evento criado há quase dez anos pela Assembleia Geral das Nações Unidas através da resolução 54/134. Para aprofundar como as igrejas protestantes estão trabalhando sobre esse tema, entrevistamos a pastora Letizia Tomassone, coordenadora dos cursos de Estudos feministas de gênero na Faculdade Valdense de Teologia em Roma e membro da Comissão para o Diálogo Inter-religioso da Federação das Igrejas Evangélicas na Itália (FCEI).

A entrevista foi publicada Riforma, 23-11-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Você ensina "estudos feministas e de gênero" na Universidade valdense de Roma. O que significa incluir tal matéria em um curso de estudos teológicos? 

A Faculdade valdense acolheu desde os anos 1990 essas temáticas que foram propostas pelas teólogas italianas e pastoras e há muitos anos vem organizado cursos pontuais de Women’s Studies. Em 2010, o Sínodo da União das igrejas metodistas e valdenses finalmente decidiu que esse ensino deveria tornar-se curricular, e, portanto, essencial para aqueles que se preparam para o ministério pastoral. A teologia cristã é um desses elementos através dos quais passou a dupla moral que obrigou as mulheres à submissão e ao silêncio e, portanto, estudar a teologia do ponto de vista das mulheres implica fazer uma sua crítica radical.

O título de seu curso deste ano é "# MeToo, # ChurchToo: estratégias para superar o sexismo nas comunidades de fé".

Nos Estados Unidos, após a disseminação do #MeToo, nasceu um movimento análogo da vertente eclesiástica, #ChurchToo, porque não poderia se imaginar que nas igrejas os abusos e as violências não existissem. Foram coletados testemunhos de mulheres e menores que sofreram assédio dentro das igrejas protestantes. Foi uma análise dolorosa, em linha com a Década das Igrejas em solidariedade com as mulheres, promovido pelo Conselho Mundial de Igrejas (CMI), que já havia destacado essa terrível realidade. Infelizmente, as práticas e as justificativas das violências contra as mulheres são generalizadas até mesmo dentro das igrejas protestantes, mas não as aceitamos mais hoje.

#ChurchToo quer enfatizar que as igrejas enfrentam essa questão de uma nova maneira, com franqueza e transparência.

Quais são os critérios com os quais #ChurchToo lida com o tema da violência contra as mulheres?

O primeiro nível é o do plano estritamente teológico. De fato, alguns temas teológicos têm sido utilizados para manter as mulheres em resignação e em silêncio. Penso no exemplo da vítima expiatória: Jesus na cruz foi por muito tempo indicado como modelo para suportar a violência. É obviamente inaceitável e, além disso, no mundo protestante não existe a ideia da repetição do sacrifício de Cristo. Há um segundo nível que é o do trabalho pastoral, ou seja, dos instrumentos que as igrejas possuem para apoiar as mulheres que sofreram abusos ou violências.

Existem alguns manuais ingleses, infelizmente ainda não traduzidos, nos quais um dos temas principais é o da reconciliação e do perdão, que não podem ser alcançados a menos que haja também uma justiça reparadora. As igrejas não podem pedir às mulheres que perdoem se não houver uma tomada de consciência sobre a violência. O terceiro nível diz respeito ao culto, e como fazer com que o tema da violência entre nas igrejas. É necessário indicar a violência sexual como um pecado, fazer isso no culto e fazer gestos de reparação em que também as igrejas peçam perdão por uma pregação que tem esmagado as mulheres.

Na assembleia Geral da FCEI, há poucos dias, foi votado um documento que reafirma o compromisso de se opor a toda discriminação baseada na identidade sexual, a violência em todas as suas formas, o feminicídio e a exploração do corpo feminino, e que pede para prosseguir no trabalho do Observatório.

Em 2015, a FCEI, a Conferência Episcopal Italiana (CEI) e os patriarcados ortodoxos assinaram um apelo às igrejas contra a violência contra as mulheres e, por meio do Secretariado atividades ecumênicas (SAE), decidiu-se criar um Observatório para entender como as igrejas estão participando e trabalhando nesse sentido. Um livro acaba de ser lançado, intitulado "Non solo reato anche peccato. Religioni e violenza sulle donne” (Não apenas crime, mas também pecado. Religiões e Violência contra as mulheres), editado por Paola Cavallari, que reúne as contribuições de mulheres e homens envolvidos no universo do diálogo inter-religioso (judaísmo, cristianismo e islamismo), mas também leigos sensíveis.

A Federação Mundial Luterana (FML) montou já há dez anos um projeto com documentos e práticas para as igrejas sobre questões de justiça de gênero. Isso está tendo ressonância também na Itália, tanto através das mulheres luteranas como pelo fato que a Federação das mulheres evangélicas (Fdei) e Federação feminina evangélica valdense e metodista estão retomando esse projeto como uma prática que também pode nos ajudar.

Os números da violência contra as mulheres são impressionantes. Existe uma guerra entre os gêneros?

Não há consciência ou aceitação por parte dos homens da liberdade e independência feminina. E, portanto, nesse sentido os feminicídios mostram uma situação dramática, que revela um conflito mortal entre a aspiração e a busca das mulheres pela liberdade e autorrealização de si mesmas e uma incapacidade masculina de aceitar isso. Nessa dialética, aflora uma violência inacreditável.

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