Migrantes centro-americanos. Entre barracas e abrigos aguardam diante do muro

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21 Novembro 2018

A incerteza é sentida em todo o acampamento improvisado em Tijuana. São homens, mulheres e crianças guatemaltecos, hondurenhos e salvadorenhos que atravessaram territórios com o único anseio de cruzar o país do Norte

A reportagem é de Paula Mónaco Felipe, publicada por Página/12, 20-11-2018. A tradução é do Cepat.

Os chuveiros soltam um fio de água suficiente apenas para se enxaguar. Não há teto e nem paredes e o piso de terra já é uma grande poça. Atrás, vê-se uma avenida e depois dos carros, a uns 20 metros, como pano de fundo, o muro que separa o México dos Estados Unidos.

Centenas de imigrantes centro-americanos se lavam com calções nestes chuveiros ao ar livre, em Tijuana, junto à quadra de beisebol do esportivo Benito Juárez, que se transformou em abrigo temporário. É isto ou nada, não há opções para cerca de 2.000 pessoas que chegaram a esta cidade nas últimas horas, segundo os cálculos de autoridades e imprensa.

“Agora vou dar banho em você”, diz Charol a seu filho Dylan, de 4 anos, enquanto segura nos braços o menorzinho, Froylán, de 4 meses.

_ Como estão? – pergunto-lhe.

_ Indecisos. Não sabemos o que faremos – responde. Viaja com seu esposo, seus dois filhos, sua mãe e quatro irmãos. Saíram da Guatemala há vários meses. Iam encima do trem La Bestia, mas tiveram que ficar um tempo no México quando ela, assustada, deu à luz Froylán, que nasceu prematuro. No dia 12 de outubro, saiu a primeira Caravana Migrante de Honduras e esta família se somou a ela, como outros milhares que não saíram juntos desde o início.

A incerteza é sentida em todo o acampamento improvisado em Tijuana. São homens, mulheres e crianças guatemaltecos, hondurenhos e salvadorenhos que atravessaram vários países e agora o território completo do México para chegar até a fronteira com os Estados Unidos. Agora que já estão aqui, se depararam com um muro que parece intransponível e as opções não são vistas com clareza.

Buscar asilo? Era o anseio de todos, mas ao chegar a esta cidade ficaram sabendo que teriam que esperar mais de dois meses para receberem uma solicitação. Com poucas probabilidades de ser aceita, pois o presidente estadunidense Donald Trump disse muitas vezes que os imigrantes centro-americanos não são bem-vindos no outro lado da fronteira.

Para muitos, também não parece opção segura cruzar [a fronteira] de forma ilegal. Porque não têm dinheiro para pagar um coiote – traficante pago – ou porque seriam facilmente presos: não é apenas o muro de ferro, também há vigilância permanente, patrulhas, quadrimotos, agentes a cavalo, câmeras, arames farpados e helicópteros que sobrevoam a região. Menos viável ainda resulta para as famílias que levam crianças e bebês, tantas que jornalistas chamaram a esta de Marcha dos carrinhos.

Entre barracas e abrigos montados com paus, mantas e lonas, escutam-se os debates de cada grupo. Escutam-se em voz baixa e os rostos luzem tensos – mais que antes – porque esta cidade não foi hospitaleira com eles. No caminho, haviam encontrado mais solidariedade que rejeição, mas em Tijuana brotou a xenofobia. Assim que chegaram, um grupo de vizinhos os recebeu com gritos e, no domingo, cerca de 300 pessoas realizaram uma manifestação anti-imigrantes centro-americanos.

Repetiram slogans como “Não mais hondurenhos!”, “Migrantes sim, invasores não!”.

Lucio Aguayo, 69 anos, um homem idoso que usa um andador para caminhar e leva uma grande cruz de prata no peito, esteve no protesto. “Não queremos delinquentes - explicou seu repúdio -. Vi que estão agredindo gente, fazendo cocô na rua, isso não vale”. Repudia aqueles que chegam, mas ele também não é tijuanense: nasceu no estado de Zacatecas e migrou aqui quando tinha 14 anos.

A sua história é a de praticamente todos. Esta cidade é composta por migrantes, sua população começou a crescer exponencialmente pela chegada de pessoas a partir da década de 1940-1950 e continuou crescendo sem pausa, desde então, pela chegada de pessoas provenientes de outros estados e países. Em 1960, tinha 162.000 habitantes, em 1980, já eram quase o triplo – 429.000 – e, em 2010, atingiu 1,3 milhão de pessoas, segundo dados oficiais.

Neste domingo, o protesto anti-centro-americanos chegou às portas do abrigo da Caravana Migrante. “Vamos expulsar estes hondurenhos”, gritavam manifestantes enfurecidos, enquanto balançavam bandeiras mexicanas. “Nem sequer gostam de nossa comida. Não gostam de feijões!”, argumentava um senhor de uns 60 anos.

A polícia lhes impediu a continuidade. Os imigrantes ficaram fechados dentro do centro esportivo, por precaução. Dormiram, escutaram músicas, jogaram futebol. Outros passaram horas ao lado das grandes, escutando de longe o protesto que pretendia expulsá-los da cidade.

“Nós estamos tranquilos porque sabemos que não fizemos nada de mau”, disse Pedro Flores, de 23 anos, nascido na Guatemala. “Vi a caravana pela televisão e disse: ‘quero me somar porque também quero perseguir um sonho’”. Em seu país de origem, trabalhava como cozinheiro em um pequeno negócio, “mas o salário não era o suficiente para o aluguel e alimentos. Tenho família, uma filha de 6 anos”. Sua realidade é a de muitos: a Guatemala tem entre 60 e 76% de sua população sobrevivendo na pobreza, número que varia segundo regiões, informou as Nações Unidas.

Pedro imaginava que a viagem seria mais fácil, ficou pesada para ele. Contudo, após percorrer mais de 4.000 km, não tem dúvidas: “não há volta. Vou para os Estados Unidos ou fico aqui. Quem não arrisca, não progride”.

Também grudado na grade está Emanuel García, hondurenho. Disse que fugiu “porque lá já não se pode viver. Se você incomoda o governo ou o crime organizado, tiram você de casa. Se não sai, matam você com tudo e família. Tampouco é possível abrir um negócio porque não deixam você trabalhar”. Os números de Honduras não têm proporção: pobreza que supera os 60% da população e violência sem limite. “Apesar de ter reduzido os homicídios em 2017, San Pedro (Sula) ainda tem uma taxa de 51,18% de assassinatos para cada 100.000 habitantes. Segundo as Nações Unidas, quando a taxa ultrapassa os dez, falamos de uma “epidemia de homicídios”, resume o jornalista Óscar Martínez, que conhece a fundo a problemática da migração centro-americana e suas origens.

Emanuel García, com olhar triste e com um pingente no peito que reza os direitos dos refugiados, completa: “Esta não é uma caravana, isto é um êxodo. Ao nos dizer caravana, dão um golpe em nossa dignidade, isso é o que o mundo deve entender. Nós precisamos de abrigo, proteção”.

E são milhares. Cerca de 2.000 pessoas chegaram a Tijuana, mas se espera a chegada de ao menos mais 2.000 que estão próximas, na cidade de Mexicali. Outros tantos viriam de Sonora, em ônibus e milhares seguem atravessando estados como Querétaro e Jalisco. Já não há uma, mas muitas caravanas, inclusive se reportam algumas saindo nestes dias de Honduras e Guatemala. Já não há sequer estimativas: não se sabe quantas pessoas, nem que grupos caminham. Planejam chegar até aqui, mas ninguém sabe por onde seguirá o caminho.

O México se debate entre aqueles que apoiam os imigrantes centro-americanos e aqueles que os rejeitam. Há expressões racistas em redes sociais, mas também milhares que lhes dão roupa e comida. Enquanto isso ocorre, no abrigo improvisado de Tijuana, um grupo de garotos coloca nas grades uma bandeira que pintaram. Diz: “Obrigado México por sua ajuda e carinho”.

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