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09 Novembro 2018

"Tudo indica, porém, que o novo Governo irá combater somente o comportamento corrupto de alguns políticos da oposição, sobretudo dos Governos anteriores, para “parecer” (não “ser”) honesto, mas estará total e covardemente a serviço (como mero fantoche) do sistema capitalista neoliberal - estruturalmente corrupto", escreve Marcos Sassatelli, frade dominicano, doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP), professor aposentado de Filosofia da UFG.

Eis o artigo.

No Brasil - como em muitos outros países - vivemos numa democracia formal, que - na realidade - é uma “elitecracia”. A elite capitalista neoliberal, com seus meios de comunicação, manipula a seu bel-prazer a consciência do povo. Os detentores do poder econômico - que são os opressores do povo - com sua esperteza demoníaca, conseguem a façanha de serem “hospedados agradavelmente” na consciência dos oprimidos. É a ditadura do “deus dinheiro” e de seus adoradores, na qual o cidadão - dominado ideologicamente - torna-se um joguete de seus meios de comunicação.

“Os donos da ‘elitecracia’ querem sempre garantir a sua impunidade. Daí a existência do foro privilegiado (por prerrogativa de função) para mais de 20 mil autoridades no Brasil. Isso é resquício dos tempos aristocráticos, que previam privilégios para os monarcas e para os ‘nobres’ (ou seja, para as castas)”. (Conferir: Poderosos estão sendo investigados há mais de 10 anos no STF. Fim do foro privilegiado. Por que não pensar num Brasil diferente?).

“Os filhos deste mundo são mais expertos que os filhos da luz” (Lc 16,8). Um Brasil diferente é possível! Por que não pensar nisso?!

O presidente eleito, Jair Bolsonaro - que é fruto da façanha da “elitecracia” brasileira - apresenta-se como um homem “honesto”, que “foi eleito por Deus”, que “tem Deus no coração”; que coloca o “Brasil acima de tudo” e “Deus acima de todos”; que chama o seu superministro Sérgio Moro de “soldado que está indo à guerra, sem medo de morrer”.

O importante não é falar o nome de Deus a todo momento para agradar a sensibilidade religiosa do povo e, ao mesmo tempo, enganá-lo. O importante é saber qual é a representação que Jair Bolsonaro tem de Deus. Com certeza, o Deus dele não é o Deus de Jesus de Nazaré, que é Amor e que não pede a ninguém de “ir à guerra”. Jesus - que é o Emanuel, o Deus conosco, que caminha conosco - diz “Felizes os que promovem a Paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9). Pela lei dos opostos, podemos dizer: “Infelizes os que vão à guerra, porque serão chamados filhos do demônio”.

Bolsonaro afirma que a luta por um Brasil novo e a busca de parcerias nas relações internacionais devem acontecer sem “viés ideológico”. Essa afirmação já é com viés ideológico. O ser humano é um ser histórico, situado (num lugar) e datado (num tempo). Portanto, tudo o que o ser humano pensa, diz e faz é com viés ideológico (é ideológico). No comportamento humano não existe neutralidade. Ora, o problema não é pensar e agir com viés ideológico (sendo ideológico), mas é saber se a nossa ideologia promove a libertação e a vida ou produz a opressão e a morte.

Para sermos humanos, éticos e, sobretudo, cristãos (radicalmente humanos) - devemos combater e lutar contra toda corrupção. Precisamos lembrar, porém, que existem dois tipos de corrupção: a pessoal e a estrutural. A primeira é o comportamento corrupto de pessoas (governantes, políticos e outras); a segunda, que é muito mais grave e cria as condições favoráveis à prática da corrupção pessoal, é a corrupção sistêmica, institucionalizada e legalizada, que é considerada natural e normal (até em nome de Deus).

Combater somente o comportamento corrupto das pessoas, sem combater a corrupção estrutural, ou seja, sem lutar para mudar as estruturas injustas, é uma atitude hipócrita, que serve para legitimar e fortalecer o “sistema econômico iníquo” (Documento de Aparecida, 385) dominante.

Um exemplo dessa corrupção estrutural é a  desigualdade gritante que existe no Brasil. “Quase 30% da renda do Brasil está nas mãos de apenas 1% dos habitantes do país, a maior concentração do tipo no mundo. É o que indica a Pesquisa Desigualdade Mundial 2018, coordenada, entre outros, pelo economista francês Thomas Piketty. O grupo, composto por centenas de estudiosos, disponibilizou banco de dados que permite comparar a evolução da desigualdade de renda no mundo nos últimos anos” (Conferir: Ranking aponta o Brasil como o país mais desigual do mundo).

Jesus adverte: “Ai de vocês, os ricos, porque já têm a sua consolação! Ai de vocês, que agora têm fartura, porque vão passar fome! Ai de vocês, que agora riem, porque vão ficar aflitos e irão chorar! Ai de vocês, se todos os elogiam, porque era assim que os antepassados deles tratavam os falsos profetas!” (Lc 6,24-26).

No 2ª Encontro Mundial dos Movimentos Populares, o Papa Francisco - com toda clareza - afirma: “Os seres humanos e a natureza não devem estar a serviço do dinheiro. Digamos não a uma economia de exclusão e desigualdade, na qual o dinheiro reina em vez de servir. Esta economia mata. Esta economia exclui. Esta economia destrói a Mãe Terra”.

Continua Francisco: “A casa comum de todos nós está sendo saqueada, devastada, arrasada impunemente. A covardia em defendê-la é um pecado grave. Vemos com crescente decepção sucederem-se uma após outras Conferências Internacionais, sem qualquer resultado importante. Peço-vos em nome de Deus que defendais a Mãe Terra”.

Conclui dizendo: “Queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança de estruturas. Este sistema é insuportável: não o suportam os camponeses, não o suportam os trabalhadores, não o suportam as comunidades, não o suportam os povos.... E nem sequer o suporta a Terra, a irmã Mãe Terra, como dizia São Francisco”.

Por fim, o Papa confia plenamente nos Movimentos Populares (que na “elitecracia” do Brasil muitas vezes são criminalizados) para mudar o sistema: “Atrevo-me a dizer que o futuro da humanidade está, em grande medida, nas mãos de vocês, na capacidade de vocês se organizarem e promoverem alternativas criativas na busca diária dos ‘3 T’ (trabalho, teto, terra), e também na participação de vocês como protagonistas nos grandes processos de mudança nacionais, regionais e mundiais. Não se acanhem!”. (Santa Cruz de la Sierra - Bolívia, 09/07/15).

É essa corrupção estrutural, que - juntamente com a corrupção pessoal - precisamos combater. É esse “sistema econômico iníquo” que precisamos mudar.

Tudo indica, porém, que o novo Governo irá combater somente o comportamento corrupto de alguns políticos da oposição, sobretudo dos Governos anteriores, para “parecer” (não “ser”) honesto, mas estará total e covardemente a serviço (como mero fantoche) do sistema capitalista neoliberal - estruturalmente corrupto - para fortalece-lo, usando para isso - todas as vezes que for necessário e com a conivência hipócrita de líderes religiosos - o nome de Deus: uma verdadeira blasfêmia.

Acorda povo! “De olho aberto para não virar escravo”! (CPT). “Justiça e Paz se abraçarão” (Sl 85). Unidos e organizados, vamos à luta! “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos”! (Mt 9,37).

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