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Por: Ricardo Machado | 04 Setembro 2018

Nada mais falso que a ideia de senso comum que o Brasil e os brasileiros têm horror à política. A presença viva dessa noção atesta justamente o contrário, que o país está imerso em um contexto radicalmente político que se organiza, entre outras tendências, pelas categorias do ódio e da esperança. “Havia ódio na esperança, e esperança no ódio. São essas sutilezas que devemos tentar delinear”, pondera a professora e pesquisadora Rosana Pinheiro-Machado.

De outro lado, no âmbito acadêmico, é comum a repetição do preconceito de sustentar que não há uma certa cidadania política no consumo. “Claro que é político, mas de um jeito diferente. É óbvio que incluir pessoas no mercado consumidor em um país marcado pela pobreza, despossessão e de que pobre deve ser humilde é algo importante. Teve muito menino que era de gangue e passou a trabalhar e ter poder de compra. Esse era um momento de esperança”, avalia Rosana.

Rosana Pinheiro-Machado (Fotos: Ricardo Machado)

Isso tudo dá mostras à ambiguidade como traço inerente à política no Brasil. “A conciliação de classes é a fraqueza do projeto que não autonomiza a classe trabalhadora no país”, pondera Moysés Pinto Neto. “Há um excessivo enrijecimento das identidades políticas. No campo cultural a briga de identidades inclui pessoas excluídas, mas ainda é muito fechada em um discurso acadêmico que apresenta dificuldades de se conectar com a classe trabalhadora”, complementa.

Essa multiplicidade reflete-se, também, na fragmentação política à esquerda. “Há muitas disputas e os esquerdistas veem os pragmáticos como negociadores e os pragmáticos veem os esquerdistas como dogmáticos, mas dentro dessas estratégias há uma série de distinções práticas”, descreve Moysés. Isso tudo leva em conta distinções políticas que são, antes de tudo, concretas, não exatamente ideológicas. “A fragmentação não é só uma questão de vontade, existem diferenças reais no diagnóstico, no projeto e na estratégia de futuro que separam as esquerdas. É possível fazer uma composição em pontilhado, sem considerar uma unidade fechada, mas é preciso deixar claro: não são diferenças de ego, mas diferenças políticas”, observa.

Moysés Pinto Neto

Por uma democracia menos antropocêntrica

Henrique Parra durante sua fala chamou atenção para uma das dimensões das crises instauradas contemporaneamente: a dupla articulação entre ciência e política. “Há uma crise de legitimidade e credibilidade e a percepção de que precisamos de ‘mais ciência’ para resolver os problemas, mas tanto a ciência como a política são parte do problema", avalia. Isso não significa que não precisamos de ciência, mas que necessitamos desconfiar de sua forma hegemonizada para construir um campo científico capaz de apresentar novos paradigmas de vida. “Precisamos transpor o saber-poder governar e ir para o saber-fazer habitar”, propõe Henrique Parra.

“A maioria dos pesquisadores que falam de tecnologia tomam como premissa a não existência de outras possibilidades de vivência se não aquelas determinadas tecnologicamente”, critica Henrique. “Levar a sério de que todo o processo de produção de conhecimento é um ato de invenção do mundo, requer assumirmos a responsabilidade do que estamos produzindo, o que leva, desde uma postura crítica, à exigência de uma forma de desaceleração”, completa.

Henrique Parra

Meu partido é um coração partido

 

Na esteira deste debate, da reinvenção de nossos aparatos políticos, Roberto Andrés discute o papel dos partidos a partir da crítica de Simone Weil, relatadas em Pela supressão dos partidos políticos. “No texto escrito durante a Segunda Guerra, Simone Weil, sustenta que os partidos são máquinas de produzir paixões coletivas, organizações para exercer pressão em seus membros e que existem somente para o próprio crescimento, razão pela qual todos os partidos, por isso mesmo, são repressores”, relembra Roberto.

A atualidade da referência à Simone Weil tem a ver, não com negação total das siglas partidárias, mas com a necessidade de uma nova forma de pensar os partidos políticos. “A cada momento se deve ponderar qual é a melhor estratégia, razão pela qual não se pode considerar que uma dada estratégia pode ser feita previamente. Me sinto diante de um abismo e de uma vertigem ao ler a Simone, porque para nós é difícil pensar a democracia sem partido”, sustenta Roberto.

Roberto Andrés

A experiência do Mui*s foi lembrada por Roberto, explicando que o coletivo que acabou se organizando partidariamente a partir do Psol tem como propósito dar voz às multiplicidades e pensar um programa mais coletivo para a cidade, dado que se iniciou com as eleições municipais em Belo Horizonte. “A tentativa foi estabelecer pactos comuns, com eixos de mandatos abertos (assembleias em praças, plataforma cidadã na internet), chamadas públicas para cargos no mandato na contratação de assessores e a redução de privilégios (projetos de leis para reduzir salários e demais privilégios)”, explica Roberto Andres. “Há um processo de invisibilidade por parte da imprensa dessas renovações e são pessoas que vêm da luta de mobilidade urbana, indígenas, mulheres. Agora, no pleito de 2018, são 70 candidaturas deste perfil aos cargos legislativos”, ressalta.

Ódio, mediador político

Ao mesmo tempo que o neoliberalismo, manifesto também no poder de compra como passaporte cidadão, é o projeto político mais efetivo de nossa república, por outro lado, ele está longe de ser democrático. “Segundo os dados coletados na pesquisa de campo (realizada na periferia de Porto Alegre), os entrevistados sempre falavam de consumo e classe juntos, ou seja, as pessoas se davam conta que pertenciam a um universo político. O problema é que o mercado nunca aceitou os pobres, não deixavam eles participarem dos shoppings (rolezinho), por exemplo”, sustenta Rosana Pinheiro-Machado. “O mercado, mesmo quando as pessoas podiam comprar, não aceitou as pessoas de classe baixa”, avalia.

Uma das tantas contradições do processo é um choque geracional que se apresenta na prática. Isso porque, segundo explica Rosana, parte da geração que participava dos rolezinhos hoje tem um discurso radicalmente conservador, mediado pelo afeto do ódio. “Os jovens que faziam rolezinho, chamavam os jovens das Ocupações Secundaristas de vagabundos, em 2015”, pontua Rosana. “O Bolsonaro se tornou um símbolo totêmico de admiração masculina, tal qual as marcas faziam anteriormente. Não houve transformação nas identidades, mas a transferência da admiração de uma marca para um ícone que não existia antes”, argumenta.

Esperança, um afeto alternativo

A experiência do Mui*s trazida por Roberto Andres aponta para a retomada de um protagonismo das mulheres, que, por suposto, encontra eco na pesquisa de Rosana. “As ocupações foram realizadas principalmente por meninas que se declaravam feministas. No morro há um aumento de meninas que se identificam com o feminismo, o que é um tema absolutamente revolucionário, o que é inédito na juventude desse país. As lideranças comunitárias passam a falar em uma gramática feminista, que coloca em causa o machismo. As mulheres estão falando da ‘grande política’, no sentido institucional”, frisa Rosana.

A geração pós-Junho de 2013 é um sopro de esperança na política nacional. “Os jovens acima de 23 anos são muito mais embrutecidos. Mas encaixar um jovem de 16 anos, em formação política, como um fascista é um processo de violência simbólica tremendo. Rotular é um processo redutor e de violência. Um futuro democrático depende dos investimentos nos jovens, porque os velhos vão morrer, como lembrava constantemente Darcy Ribeiro”, finaliza Rosana.

Conferencistas

Todas as falas que compõem a reportagem foram retiradas das conferências do 4º Ciclo de Estudos – A reinvenção da política no Brasil contemporâneo. Limites e perspectivas reuniu pesquisadores na terça-feira, 4-9-2018, na Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros – IHU, na Unisinos em São Leopoldo.

Rosana Pinheiro-Machado – UFSM

Rosana Pinheiro-Machado é graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS e doutora em Antropologia Social pela mesma universidade. Foi professora de Desenvolvimento Internacional na Universidade de Oxford de 2013 a 2016 e atualmente é Professora Titular Visitante da Universidade Federal de Santa Maria - UFSM no PPG de Ciências Sociais e coordenadora e co-fundadora da Escola de Governo Comum. A professora apresentou a conferência O cenário eleitoral brasileiro e a participação das juventudes. Possibilidades e Limites.


Moysés Pinto Neto – Ulbra

Moysés Pinto Neto é graduado em Ciências Jurídicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, mestre em Ciências Criminais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS e doutor em Filosofia nessa mesma instituição. Leciona no Programa de Pós-Graduação em Educação – ULBRA e no curso de Direito da Universidade Luterana do Brasil – ULBRA Canoas. É autor, entre outros, do artigo Identidade de Esquerda ou Pragmatismo Radical?, publicado na edição nº 259 dos Cadernos IHU ideias, e do artigo Esquecer o neoliberalismo: aceleracionismo como terceiro espírito do capitalismo, publicado na edição nº 245 dos Cadernos IHU ideias. O professor apresentou a conferência Os projetos políticos da eleição brasileira de 2018 e os papéis da esquerda. (Im)previsões e análises.

 


Henrique Z. Parra – Unifesp

Henrique Z. Parra é graduado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo - USP, mestre em Sociologia pela mesma universidade e doutor em Educação pela Universidade de Campinas – Unicamp. É professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Paulo - Unifesp e atualmente realiza pós-doutorado no Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia, no Rio de Janeiro, e no Instituto de História do Conselho Superior de Investigações Científicas – CSIC, em Madrid, Espanha. O professor apresentou a conferência A política do comum e do protótipo. Possíveis alternativas à captura da política e do Estado.

 


Roberto Rolim Andres – UFMG e Piseagrama

Roberto Andrés é professor na Escola de Arquitetura e Urbanismo da UFMG e doutorando em história das cidades na FAU USP. É editor da revista Piseagrama, pesquisador do grupo Cosmópolis e escreve quinzenalmente sobre cidades no jornal O Tempo. É revisor do Jounal of Public Spaces e membro da Rede de Inovação Política da América Latina. Foi pesquisador da Fundação Centro Tecnológico de Minas Gerais e sócio fundador do Instituto Maria Helena Andrés. Foi cofundador da plataforma bim.bon e da startup Hometeka, ambas voltadas para especificação e simplificação de processos em arquitetura e design. O professor apresentou a conferência A democracia sem partidos e a partir das muitas e dos muitos. (Re)Invenção política?.

 

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