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17 Agosto 2018

“Em tempos de tão grandes transformações, as Igrejas podem fazer muito se voltarem à fidelidade às mensagens. Mas nenhuma mensagem retomará seu valor se não se libertar dos vínculos de poder. O primeiro deles é a pertinácia de manter as mulheres subalternas a uma sugestão de força, provavelmente neutra em si mesma, mas conjugada perversamente no masculino e destrutiva do próprio princípio de igualdade cristã.”

A opinião é da jornalista e escritora italiana Giancarla Codrignani, ex-deputada italiana pela Esquerda Independente, em artigo publicado por revista Confronti, de julho-agosto de 2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Caro cardeal [...] Ferrer, fiquei por muito tempo perplexa antes de lhe endereçar uma carta. Sou uma velha senhora e não me iludo em converter ninguém, especialmente um homem, convencido, além disso, de que Jesus negou o sacerdócio às mulheres por serem, justamente, mulheres. [...]

Sou uma política e, tendo feito experiências parlamentares, estou ciente de que as instituições homologam uma ordem constituída sobre um “modelo único”, substancialmente ainda masculino e patriarcal, aquele pelo qual todos, homens e mulheres, fomos educados a dizer: “Deus criou o homem – e não o ser humano [...] – à sua imagem e semelhança”. [...]

De fato, não faltam contestações teológicas, também masculinas, à linha oficial, porque constatam a ausência de qualquer impedimento de princípio escritural, já que, se nos detivermos à vivência e à biologia, Jesus também era judeu [...].

Também não gostaria de me deixar contaminar por comparações inevitavelmente de poder e voltar ao primado de que não se orgulhou [...] Maria de Magdala, depois que o Ressuscitado a enviou formalmente aos discípulos, prudentemente ausentes, com o mandato: “Anuncie”.

Ninguém, de fato, que queira permanecer fiel à sua palavra deveria raciocinar, dentro da Igreja, sobre o poder, muito menos em uma comparação de valor entre “gêneros”. Não tenho dúvidas sobre a composição futura da Igreja, tendo saído uma vez do secular atraso denunciado anos atrás pelo cardeal Martini.

Mas sei que nem mesmo as Igrejas poderão sair das crises atuais sem a contribuição das mulheres. Para nós, católicas, possivelmente, não como sacristãs: um homem também pode imaginar o sentimento da mulher que, em regiões do mundo por onde o padre passa raramente, distribui uma Eucaristia “válida” por ter sido consagrada pelo outro gênero.

As mulheres buscam apenas (providencialmente?) inverter o papel que as quer como subalternas e, talvez, escolhendo a melhor parte – se conseguirem evitar que o seu pensamento também se torne hierárquico –, ajudarão a melhorar a vida, também da Igreja, que pode se beneficiar da aliança com a cultura delas. Por enquanto, a Igreja carece da nossa voz de mulheres. [...]

É precisamente o plano doutrinal que necessita do reconhecimento do direito das mulheres a ter “voz”, antes ainda de raciocinar sobre o sacramento da Ordem. A Comissão para o estudo sobre o diaconato das mulheres, instituída pelo papa em 2 de agosto de 2016 e formada por seis mulheres e seis homens (e que, se não me equivoco, o senhor preside), sem o reconhecimento da autonomia cultural e sem a vontade de partilha, pode não chegar sequer a corrigir o termo “diaconisa” por aquela que seria, segundo a correta morfologia do italiano, a “diácona”; por outro lado, se uma função que se rendeu após o século VI sem causar uma grande história pode valer quando usada como um passo para o sacerdócio, ela continua sendo, mesmo assim, excludente. Também são supérfluos, mas formalmente sobrevivem, o leitorado e o acolitado: na ignorância geral, eles representam os primeiros degrauzinhos da escada hierárquica. Se não são necessários, é bom suprimi-los. Mas, se são necessários, está ali o primeiro déficit de igualdade perante o altar.

Eu nunca tive a coragem de perguntar aos amigos dominicanos como é que a Ordo predicatorum pode ter uma Ordo predicatorum feminino que não pode fazer as homilias. Aconteceu-me de fazê-la e até mesmo de me pedirem para ler o Evangelho recém-interpretado: isso me fez sentir a sensação de uma pertença autêntica minha, de mulher que gasta os seus talentos na sua comunidade e percebe não a autoridade, mas sim o cuidado afetuoso e responsável da fé.

Uma premissa longa, espero que não inútil para os fins de um pedido. Em tempos de tão grandes transformações, as Igrejas podem fazer muito se voltarem à fidelidade às mensagens. Mas nenhuma mensagem retomará seu valor se não se libertar dos vínculos de poder. O primeiro deles é a pertinácia de manter as mulheres subalternas a uma sugestão de força, provavelmente neutra em si mesma, mas conjugada perversamente no masculino e destrutiva do próprio princípio de igualdade cristã.

De fato, não somos verdadeiramente iguais se nos relacionamos com um princípio de uniformidade abstrata e não com as tantas diversidades que caracterizam as condições humanas: a primeira, em ordem criatural, é aquela, justamente, entre homem e mulher.

As mulheres e os homens devem conhecer a responsabilidade dos dons batismais e interpretar os diversos carismas do fato de terem realeza, sacerdócio e profecia [...].

Pessoalmente, pediria a renúncia a acolitados e leitorados, independentemente do gênero; mas esperaria que o senhor também, ao valorizá-los, considere como obsoletas funções laicais que excluam a paridade no serviço do altar e da pregação. [...]

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