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10 Agosto 2018

O constante lembrete do Papa para a atualidade da heresia de Pelágio denuncia a inclinação dos crentes a uma preguiça cultural fruto de pouca abertura à graça divina.

É aquele que conta apenas com suas próprias forças esquecendo que "somos salvos juntos", como repetia teimosamente o poeta Charles Péguy; que segue rigidamente as regras e assim se sente superior; que em vez de anunciar o Evangelho começa a classificar os outros, sejam eles crentes ou não; que enfatiza apenas penitência e sacrifício esquecendo a alegria da fé; que se torna presa de um elitismo narcisista e autocomplacente; que confia apenas nas estruturas e nos planejamentos abstratos, ignorando a realidade da vida. Nessas várias tipologias pode se encaixar a definição de 'neopelagiano' a que tantas vezes se refere o Papa Francisco. Junto com o neognosticismo, é uma heresia que se apresenta hoje dentro do catolicismo, de acordo com Bergoglio, que no manifesto do seu pontificado, o Evangelii gaudium, mas também em muitas outras circunstâncias, insistiu sobre esses dois perigos.

O artigo é de Roberto Righetto, jornalista, publicado por Avvenire, 09-08-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

O neognosticismo expressa a ideologia da 'nenhuma carne', ou seja, a visão de um Deus que não se encarnou; o neopelagianesimo é mais do tipo 'nenhum Deus', a concepção do homem prometeico que dispõe da própria existência contando apenas com sua própria razão. Mas quem era Pelágio? Um monge nativo da Bretanha que viveu entre o IV e V séculos, que promovia o ideal de uma vida espiritual de absoluta perfeição, mas reduzia o cristianismo a uma doutrina moral, uma espécie de atualização do estoicismo. Para ele, o homem é dotado de uma "santidade natural" que o leva a fazer o bem sem a necessidade da intervenção divina. Em suma, a natureza não tem necessidade da graça. O pecado original é cancelado. A tudo isso se adiciona um rigor e uma disciplina absoluta, aplicando radicalmente os ideais de ascetismo e de renúncia próprios do cristão. A sua heresia, como se sabe, foi erradicada por Agostinho, que explicou como a liberdade humana sem a ajuda da graça não é capaz de optar pelo bem.

Mas o que tudo isso tem a ver com o estado atual da Igreja? Que o apelo do Papa não seja apenas um capricho digno de um exegeta ou de um historiador é atestado por um livro de Giuliano Zanchi, publicado pela Edizioni San Paolo com o título Il neopelagianesimo (126 páginas, 10 €). Diretor do Museu Bernareggi de Bergamo, bem como o Museu da Catedral, Zanchi tem em sua bagagem inúmeras obras no âmbito teológico e artístico, incluindo Il destino della bellezza (o destino de beleza, Ancora, 2008) e Prove tecniche di manutenzione umana. Sul futuro del cristinismo (Provas técnicas de manutenção humanos. Sobre o futuro do cristianismo, Vita e Pensiero, 2012).

No livro, o autor reconstrói perfeitamente tanto o contexto histórico em que se enraizou a heresia pelagiana, como as motivações que levaram o atual pontífice a recordar hoje o perigo para os crentes, mas a parte do livro que mais nos parece interessante ressaltar é aquela que se refere à situação da cultura católica hoje. Ele vê o risco de "uma Igreja que abandona o terreno da cultura comum" e que evita "familiarizar com o contínuo ruminar do homem", de um catolicismo de base envolvido por uma "inércia generalizada" e uma "preguiça intelectual já crônica". No entanto, diante da cultura dominante de "desencanto radical", que tende a reduzir o homem apenas a seus componentes biomecânicos, que premia o indivíduo em detrimento do senso de comunidade, que expressa um "conjunto de conhecimentos fortes" que acabam por liquidar a parte espiritual do homem, o cristianismo está longe de ter condições de ser destinado ao silêncio. Trata-se de reiterar que "a verdade não é ruim", o significado da existência não é apenas a casualidade de forma que a única modalidade torna-se a experiência do prazer e da diversão, que a felicidade pode ser um destino não só temporário, que o laço social precede a liberdade do indivíduo, que a misericórdia pode se tornar uma regra para impedir que a vida torne-se uma selva.

São todos desafios possíveis desde que a fé cristã não seja elitista, e que a própria Igreja não pense ser um baluarte contra a incivilidade considerando-se perfeita, a ilha feliz para a salvação de poucos: "O que em uma sociedade secular - escreve Zanchi - não é mais uma respiração mecânica, é justamente a correspondência entre a verdade evangélica do humano revelado em Jesus e aquele originário dinamismo de aproximação ao sentido do qual vive cada homem. Essa correspondência, embora real e decisiva, hoje não é mais evidente. Deve ser mostrada continuamente, argumentada, refletida. Mas esse trabalho não é viável sem entrar de forma competente no mérito dos paradigmas culturais que formam o aquário do sentido no qual cada um de nós nada junto a todos os demais com desinibido automatismo”.

Confrontado com um generalizado pelagianismo, aquele que Augusto Del Noce denunciava como hedonismo de massa, e de um vitalismo obrigatório (não sem a supervisão do aparato técnico-econômico do mercado global, ressalta Zanchi), é preciso reafirmar "uma ética da graça contra uma ética do desempenho". É o desafio do relançamento de uma presença cultural que emerge: "Temos de pensar aquele espiritual sem o qual não pode haver o humano. A questão é tanto o lugar da mais atual e vigorosa batalha cultural e do lado talvez mais ignorado de uma pronta e equipada cultura de crença”.

Árduo desafio, dadas as circunstâncias, mas a Igreja italiana em todas as suas componentes não pode deixar de se colocar diante da prova de reanimar a cultura religiosa do nosso país.

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