Bergman e os ''teólogos'' do cinema. Artigo de Gianfranco Ravasi

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07 Agosto 2018

“Crer é uma luta dura e inflexível: Bergman saiu dela, como outro patriarca judeu, Jacó, ferido no fêmur, mancando após sua luta com Deus (Gênesis 32). O diretor, porém, não quis confiar nas promessas daquela voz transcendente e divina. Na minha opinião, ele continua sendo companheiro de busca de outros autores que – em caminhos e com resultados diferentes – experimentaram o mesmo combate, diretores que eu também considero, a seu modo, como ‘teólogos’.”

A opinião é do cardeal italiano Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, em artigo publicado por Il Sole 24 Ore, 05-08-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Antonio Block, o Cavaleiro, está de joelhos, com os olhos fechados e a testa franzida, e reza, enquanto o sol da madrugada se assoma sobre um mar enevoado. No alto, um pássaro marinho dissemina voos lentos e lança um grito inquietante.

De repente, eis uma figura vestida de preto, com o rosto marcado por uma palidez impressionante. “Quem é você?”, pergunta o Cavaleiro. “Sou a Morte... já faz muito tempo que caminho ao seu lado”, responde aquela pessoa misteriosa.

Pois bem, ainda é assim diante dos meus olhos o início de “O Sétimo Selo” que eu vi como jovem estudante de liceu, há quase 50 anos. Uma cena e palavras que ficaram impressas na minha memória e eu acho que de muitos espectadores que assistiram ao jogo de xadrez em que o Cavaleiro desiludido, sobrevivente da Cruzada, tentará desafiar a Morte. Uma cena que abriria, logo depois, um horizonte repleto de presenças: o escudeiro semelhante ao Falstaff de Verdi, o ator, o ferreiro, o charlatão, a bruxa-menina e o casal festivo de malabaristas com seu filho, encarnação do amor que vence a Morte.

É, portanto, a história humana no espectro variado das suas iridescências gélidas e calorosas que é submetida ao juízo, dentro de daquele “silêncio de cerca de meia hora” que irrompe na abertura do sétimo selo do Apocalipse, o livro-eixo da inspiração daquele filme.

Essa foi a grande revelação para muitos, crentes e não crentes, e a primeira lição de um diretor que, muitas vezes, assumiria as vestes de um teólogo agnóstico. O seu ensinamento por imagens continuará durante anos, escalando os caminhos nas alturas das perguntas últimas em relação às quais a filosofia balbucia e a própria literatura se arrasta.

Em 14 de julho, ocorria o centenário do seu nascimento em Uppsala, filho de um rigoroso pastor luterano que deixaria uma marca indelével, embora dialética, na vida e na arte do filho. Sua figura e sua obra cinematográfica foram intensamente relembradas nestas páginas em 8 de julho passado por Roberto Escobar, sob o título sugestivo “O pescador de pérolas e ilusões”.

Agora, gostaríamos de nos dedicar à perspectiva teológica de Bergman, que foi uma espécie de contracanto em muitas das suas 171 obras cinematográficas, televisivas e radiofônicas. O pensamento corre rapidamente para o inesquecível de “Morangos Silvestres”, um verdadeiro itinerarium mentis em Deus e no homem, no sentido da vida e da morte, do saber e do ignorar, do amor e da solidão.

Ininterruptamente, quase em uma espécie de corpo a corpo, Bergman se defrontou com as verdades extremas que a superficialidade dos nossos dias tenta narcotizar.

E fazia isso de filme em filme, às vezes deixando-se surpreender pelas teofanias de luz, outras vezes e mais frequentemente precipitando no desconforto de uma derrota, porque o Além e o Outro se revelam muito resistentes à sua abordagem. Ou a falsificação da fé e a hipocrisia o levavam a um confronto duro e até sarcástico com a religião (como não pensar em “Fanny e Alexander”?).

Mas ele sempre voltava para as alturas ventosas do espírito ou para as praias do mar lívido e infinito do bem e do mal, da fé e do ceticismo, do amor e do vício, da liberdade e do destino, da esperança e do desespero, da evidência e do absurdo, da luz e das trevas, de Deus e de Satanás.

A sua teologia era de pergunta ardente, instigada pelas suas raízes protestantes pietistas. Talvez ele nunca descobrisse uma resposta que se tornasse um selo para a sua interrogação insone; para o espectador, por sua vez – e não digo isso apenas como teólogo, mas dando voz a todos aqueles que se interrogam sobre as questões últimas – os lampejos de luz eram emocionantes, assim como eram fecundos os seus silêncios e as suas dúvidas. Uma referência particular mereceria uma extraordinária trilogia bergmaniana, totalmente dedicada ao silêncio de Deus e à crise da fé, isto é, “Luz de Inverno”, “Através de um Espelho” e “O Silêncio”.

Gostaria apenas de fazer referência ao primeiro dos três filmes, justamente porque tem em seu centro um eclesiástico, um dos não ratos pastores luteranos que se assomam nos roteiros do diretor de Uppsala.

O filme é a história de uma crise interior que, progressivamente, ramifica a sua mão mortal na alma de um homem da Igreja que se sente cada vez mais o arauto público de um produto religioso, e não mais a testemunha de uma fé. Uma sensação que transparece das palavras dos seus sermões, tanto que, lentamente, se alarga em torno dele o vazio da comunidade, capaz de intuir que ele já não é mais um anunciador, mas apenas um propagandista profissional. Mas, ao lado dele, permanece um dos “puros de coração” evangélicos, o sacristão, pessoa simples e luminosa.

É ele quem levanta a perspectiva do drama de Cristo no Getsêmani e na cruz. Por um lado, eis, precisamente, a incompreensão e o isolamento dos amigos, os discípulos, que “tendo-o abandonado, fugiram”, como observa o evangelista Mateus.

Mas, por outro lado, eis o momento bem mais trágico, o do silêncio do Pai que parece ignorar o grito angustiado do Filho crucificado: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”.

Em síntese, esta é a mensagem do sacristão: “Pense no Getsêmani, senhor pastor, pense na crucificação... Cristo foi tomado como o senhor por uma grande dúvida, a mais cruel de todos os sofrimentos, quero dizer, o silêncio de Deus”.

Poderíamos seguir por muito tempo a lição teológica de Bergman em torno desse nódulo obscuro que faz parte do próprio crer, tanto que percorre a história até do pai na fé das três religiões monoteístas, Abraão, enquanto subia a encosta íngreme do monte Moriá, acompanhado por aquela voz divina monstruosa que lhe impõe o sacrifício do filho (Gênesis 22).

Crer é uma luta dura e inflexível: Bergman saiu dela, como outro patriarca judeu, Jacó, ferido no fêmur, mancando após sua luta com Deus (Gênesis 32). O diretor, porém, não quis confiar nas promessas daquela voz transcendente e divina. Na minha opinião, ele continua sendo companheiro de busca de outros autores que – em caminhos e com resultados diferentes – experimentaram o mesmo combate, diretores que eu também considero, a seu modo, como “teólogos”.

Penso no católico “jansenista” Bresson, que, embora no deserto da ausência de Deus e do triunfo de Satanás, faz surgir o sol da graça. Penso em Buñuel e na sua disputa teológica na “Via Láctea”, mas também na “estátua” espiritual do sua “Simão do Deserto” e no incansável apelo a Deus para que tente existir, sendo terrível uma história entregue somente nas mãos humanas.

Penso em Tarkovskij, o diretor das extraordinárias epifanias conquistadas, como o seu Andrej Rublëv, através do martírio dilacerante de uma crise de fé. Penso, de modo provocador, também em Woody Allen, que, sob o manto leve da ironia e da secularidade estadunidense, conserva tantas perguntas radicais do espírito que atormentavam Bergman.

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