"A minha liberdade não pode não derivar de um ato de liberdade" - "Esse é o núcleo do meu ser cristão''. Entrevista com Gianni Vattimo

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02 Agosto 2018

Até pouco tempo atrás, como um rockstar da filosofia, Gianni Vattimo também fazia 200 apresentações por ano, entre Europa, América do Sul, Estados Unidos, Austrália, China. Eram conferências, encontros, aulas.

A reportagem é de Candida Morvillo, publicada por Corriere della Sera, 29-07-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Hoje, ele ainda estaria em turnê perpétua, não fosse pelo fato de que, aos 82 anos de idade, os achaques o mantêm parado em casa, em Turim, onde há um mês recebeu um telefonema do Papa Francisco que o agradecia por ter lhe enviado seu último livro, Essere e dintorni [Ser e arredores, em tradução livre], publicado pela editora Nave di Teseo.

Vattimo me recebe sentado em uma poltrona, hierático, ereto, as mãos sobre os apoios. Ele sente falta das “apresentações”. E diz: “São estímulos a menos. Eu sempre fui também aos vilarejos remotos: acho que, se alguém quer me ouvir, me merece. A índole reconhecedora depende das origens proletárias: sou filho de um policial da Calábria e migrante, que morreu de pneumonia quando eu tinha 16 meses. Fui criado por uma mãe viúva e costureira. Tendo a me sentir mais em dívida do que em crédito”.

Eis a entrevista.

Por quais caminhos um proletário se torna filósofo?

Se você é socialmente desfavorecido, a pulsão para conseguir é mais intensa. E a educação católica teve um grande papel. Eu estava crescendo na rua, lendo romances de Jack London, cheios de marcas de marmelada, até que minha mãe me mandou ao oratório. Depois de receber muitas surras dos outros meninos, eu era um pequeno santo, ia à missa todas as manhãs.

O que encontrou na religião?

O plano de vida. Eu sabia que devia organizar as relações comigo mesmo, com os outros e com Deus. E que, a cada dia, devia fazer o exame de consciência.

O senhor é de 1936. O que recorda da guerra?

Os bombardeios e a nossa casa destruída. De Turim, evacuamos para a Calábria. No retorno, os coetâneos me batiam porque eu era “terrone” [apelido depreciativo para quem nasce no Sul da Itália]. Depois, aprendi o piemontês. Anos depois, quando encontrei Umberto Eco, contávamos piadas em piemontês.

O senhor o definiu como seu “último pai”.

Após a morte do meu mestre Luigi Pareyson, eu não tinha outras pessoas para perguntar se eu estava certo ou errado. Agora que ele não está mais, não sou mais filho. Não sou sequer, como me dizia Pier Paolo Pasolini, “um filho que nunca será pai”.

Homossexualidade e fé mal se conciliavam.

A minha adolescência foi uma luta contra os monstros. O meu diretor espiritual, Mons. Caramello, me fazia rezar o terço de joelhos. Quando ia buscar garotos no Valentino, era flagelado pela mortificação. Tive uma úlcera durante anos.

É verdade que o senhor chegou quase a se casar com Gianna Recchi, da dinastia dos construtores?

Eu queria me tornar normal. Mas seu pai não consentiu com as bodas. Depois, Julio, um bailarino peruano, me ensinou a conciliar sexualidade e sentimento. Mas a úlcera só passou quando me apaixonei por Gianpiero Cavaglià. Foi como um casamento.

O senhor “saiu do armário” apesar da sua vontade.

Era 1975, me colocaram, sem eu saber, em uma lista de Radicais nas cotas gays. Eu li isso no jornal e me senti afundando. Temia ser rotulado de homossexual e não de filósofo. Em vez disso, depois de pouco tempo, também fui eleito como decano da faculdade. Vê-se que os colegas não queriam se mostrar conformistas.

O senhor perdeu seus dois companheiros de vida, primeiro Gianpiero, depois Sergio Mamino. Sente-se um sobrevivente?

Eu me sinto triste, ao contrário. Tenho uma interioridade marcada pela viuvez e tenho medo de me tornar cínico: tendo sofrido tanto, corro o risco de ser duro com os outros.

Na autobiografia Non essere Dio, escrita com Piergiorgio Paterlini, o senhor disse que não tem medo da morte.

Não estou em perfeita saúde. Não tenho medo de estar morto, mas de morrer.

Como foi, nos anos 1980, ficar perto de Gianpiero, doente de Aids?

Eram os tempos do surgimento da doença, éramos os primeiros a experimentar o seu terror sem saber o que nos esperava.

Depois, o senhor perdeu Sergio, devido a um tumor. Realmente o acompanharia à eutanásia?

Ele queria ir a Amsterdã, e eu o acompanharia. Fizemos uma última viagem aos Estados Unidos. Eu o levei para ver a casa na cascata de Lloyd Wright. Ele morreu no voo de volta. O Pai Eterno poupou-o de Amsterdã.

Do que o senhor se arrepende?

De não ter deixado Gianpiero e Sergio livres para se divertirem mais.

Durante 15 anos, vocês três conviveram juntos, e o senhor amava os dois.

Talvez, provoquei dores, mas, para mim, era importante que eles se fizessem companhia quando eu estava fora durante meses, como professor visitante na New York University, em Yale, na Universidade da Califórnia. Eu os tinha como filhos.

Aos 69 anos, o senhor contou que amava um cubista de 20 anos.

Falei disso porque sou livre, assim como, como eurodeputado pelos Democratas de Esquerda (DS, na sigla em italiano), me senti livre para dizer que Massimo D’Alema devia ser demolido. A liberdade é algo que eu finalmente prezo, sem mais medos. Falar do cubista causou um escândalo, mas muitos não quiseram compreender que aquele rapaz era toda a família que me restava.

Hoje, que família lhe resta?

As minhas cuidadoras, o meu assistente, a filha de uma querida amiga que já se foi, velhos amigos que ainda estão aqui.

Em 1983, com Pier Aldo Rovatti, o senhor cunhou o pensamento fraco. O que ele era e em que ainda é útil?

Era a ideia de um pensamento capaz de se articular à meia luz. Era a emancipação através da inflação: se você tem apenas um televisor, aquilo que ele diz parece uma religião para você; se você tem 20, você é mais livre. Os problemas de que sofremos estão ligados à dogmatização. O que nos obriga à austeridade? O fato de que se toma como válida uma certa análise. Você conhece o princípio de Thaski?

Denuncio a minha ignorância.

Thaski dizia: “está chovendo” é verdade se, e somente se, estiver chovendo. E nós, hermeneutas, respondemos: mas quem diz isso? Porque quem diz sempre tem interesses pessoais, sociais e econômicos. A metafísica é a pretensão de que existem causas e que, conhecidas as causas, podemos nos emancipar. Em vez disso, não há causas, mas apenas interpretações.

O pensamento fraco entrou na linguagem comum, muitas vezes despropositadamente.

A popularidade de uma expressão depende dos seus inimigos, e eu tive tantos inimigos que Luciana Littizzetto pôde intitular com o pensamento fraco uma coluna dela em um jornal.

Quem eram seus inimigos?

Carlo Simi, Massimo Cacciari, mas eu nunca entendi grande parte do que Cacciari diz. No exterior, porém, me traduziam para dezenas de línguas. São coisas que muitos não engolem. Mario Perniola, embora meu amigo, chegou até a cunhar o “pensamento forte”, que, digo eu, está a serviço dos poderes fortes, enquanto o meu pensamento é cada vez mais um pensamento dos fracos. Acredito que isso esteja bem explicado no meu novo livro, que reúne os meus últimos ensaios, alguns inéditos.

Resenhando-o para o caderno La Lettura, Donatella Di Cesare escreveu que, “no futuro, será preciso se perguntar como salvar Vattimo depois de ter salvado Heidegger”.

Isso me desagradou. Três quartos do artigo são uma boa exposição, depois há um salto e se tira das minhas palavras uma pertença à cultura antissemita que não existe. O livro tem a ideia de salvar Martin Heidegger dos equívocos nascidos dos “Cadernos Negros” sobre nazismo e judeus, que eu acredito que devem ser deixados de lado. O meu pensamento é que só se pode dialogar com Heidegger tendo um interesse religioso. E é possível ser antissionista sem ser antissemita.

Em 2014, o senhor também disse que queria “armar o Hamas contra os nazistas israelenses”.

Eu não repetiria isso, mas o tema continua sendo a desigualdade da luta. As vítimas palestinas são superiores demais às israelenses.

O senhor foi eurodeputado por cerca de uma década. Sente falta da política?

Sinto falta de estar nos fatos dia a dia.

Como foi ser eurodeputado?

Quase me arruinei. Tinha o remorso de ganhar tanto para não fazer nada e deixava gorjetas enormes.

O senhor gosta de Luigi Di Maio e Matteo Salvini?

Não confio neles. Os de Di Maio são sem raízes, e Salvini concorda com Viktor Orbán, que eu tenho a ideia de que é fascista. Acabarão me convencendo a votar novamente no Partido Democrático.

Por que essa onda de populismo?

Porque o sistema democrático provoca expectativas não cumpridas nas massas.

O senhor escreveu, em “Sociedade transparente”, que saber tudo sobre todos equivale a não saber nada e que, no desaparecimento de toda verdade, finalmente se tornava possível amar o próximo. Mas a nossa sociedade parece ser a do ódio.

A raiva tomou conta, que não é um produto natural da sociedade transparente, mas sim das injustiças.

Para quem irá a sua herança?

O meu arquivo já está na Biblioteca da Catalunha, porque ninguém me pediu na Itália. São cartas, anotações, primeiras redações de livros e, talvez, surgirá algo ainda para publicar.

Ainda há algo que o senhor gostaria de escrever?

Um livro sobre o cristianismo e Heidegger. As suas páginas sobre a oração são uma referência de como viver Cristo não metafisicamente, sem crer que Deus existe em algum lugar.

É possível ser cristão sem crer que Deus existe?

Eu também comungo, mas ninguém pode me desmentir se eu digo que não sei se Deus existe. A liberdade não deriva de um ato lógico: “A minha liberdade não pode não derivar de um ato de liberdade”, ensinou-me Pareyson, e esse é o núcleo do meu ser cristão.

O que o senhor pensa quando vai para a cama?

Que agora que temos o Papa Francisco, já não me envergonho mais de rezar as Completas à noite.

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