Boaventura de Sousa Santos destrincha o assédio neoliberal às universidades

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16 Junho 2018

“A ideia de que o único valor do conhecimento é o valor de mercado é o que irá matar a universidade. Uma universidade que é ‘sustentável’ porque financia a si mesma é uma universidade insustentável como bem comum, porque se transformou em uma empresa”, advertiu o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, em uma das exposições centrais da Conferência Regional de Educação Superior da América Latina e o Caribe (CRES 2018), que terminou hoje, em Córdoba. Doutor em Sociologia do Direito, professor das universidades de Coimbra e de Wisconsin-Madison, De Sousa Santos é – como ele mesmo se define – “um ativista da universidade” e já dedicou ao tema vários textos, o primeiro em meados dos anos 1990, o último publicado este ano.

A reportagem é de Javier Lorca, publicada por Página/12, 15-06-2018. A tradução é do Cepat.

“Se os estudantes de 1918 estivessem aqui hoje - começou -, se nós fôssemos esses estudantes, quais seriam as reformas necessárias?” Em um cativante castelhano de cadência portuguesa, De Sousa Santos traçou inicialmente um paralelo com o Maio Francês, especificou as conquistas progressistas e caracterizou o presente como uma época plena de perigos para a universidade pública: “Estamos passando um ciclo global conservador e reacionário, controlado pelo neoliberalismo, que não é senão o domínio total do capital financeiro”. Trata-se de um cenário mais complexo que o enfrentado pelas rebeliões de 1918 e 1968, por uma razão: “Então, o contexto global permitia pensar que havia alternativa ao capitalismo. Hoje, parece que o capitalismo venceu seus adversários, é um capitalismo sem medo”.

O projeto neoliberal, explicou, almeja a construção de um “capitalismo universitário”: “Começou com a ideia de que a universidade deveria ser relevante para criar as competências que o mercado exige”, seguiu com as propostas de tributação e privatização. “A fase final é a ideia de que a universidade dever ser ela mesma um mercado, a universidade como empresa”. Se a universidade é uma mercadoria a mais, precisa ser medida: daí os rankings globais.

A ideologia neoliberal colide assim com a ideia de “universidade como um bem comum”, filha das conquistas obtidas a partir da Reforma. “É um momento difícil por várias razões, e uma delas é que não há um ataque político, mas, sim, um ataque despolitizado. É um ataque que tem duas dimensões: cortes orçamentários e a luta contra a suposta ineficiência ou corrupção, uma luta muito seletiva, porque se sabe que as universidades públicas são em geral muito bem gerenciadas em comparação com outras instituições”.

Boaventura de Sousa Santos identificou três razões pelas quais a universidade é um alvo desejado pelo regime neoliberal.

- Sua produção de conhecimento independente e crítico questiona “a ausência de alternativas que o neoliberalismo tenta produzir em nossas cabeças todos os dias. Se não há alternativas, não há política, porque a política é só alternativas. É por isso que muitas das medidas contra a universidade não parecem políticas, mas, sim, econômicas, os cortes financeiros, ou jurídicos, a luta contra a corrupção. O que está por trás é a ideia de que a universidade pode ser um fermento de alternativas e resistência”.

- O pensamento neoliberal busca um presente eterno, quer evitar toda tensão entre passado, presente e futuro. E a universidade sempre foi, com todas as limitações, a possibilidade de criticar o presente em relação ao passado e com vistas a um futuro diferente”.

- “A universidade ajudou a criar projetos nacionais (obviamente, excludentes dos povos originários) e o neoliberalismo não quer projetos nacionais. Por sua vez, a universidade sempre foi internacionalmente solidária, com base na ideia de um bem comum. Mas, o capitalismo universitário quer outro tipo de internacionalismo: a franquia, que as universidades possam comprar produtos acadêmicos em todo o mundo”.

Pluriversidade

A segunda parte da conferência resumiu uma série de propostas para refundar a universidade, sobre a base da Reforma de 18, mas rompendo com suas limitações e radicalizando seu espírito democratizador.

“A dominação hoje tem três cabeças: capitalismo, colonialismo e hétero-patriarcado”, postulou De Sousa Santos. “Nosso dilema é que esta dominação é integrada. O capitalismo atua junto com o colonialismo e o patriarcado. Mas, a resistência está fragmentada. A universidade pode ser um campo onde pensar como articular a resistência. Também por isso a universidade é um alvo do neoliberalismo”.

Como atuar? O primeiro passo, disse, é uma ruptura epistemológica. “Há uma pluralidade enorme de conhecimentos fora da universidade: conhecimentos rurais, urbanos, populares, das mulheres. Por que a universidade nunca os levou em conta? Porque a universidade não se descolonizou. Seus conteúdos, suas ciências sociais, sua história, são colonialistas. Para se defender como bem público, a universidade deve fazer uma autocrítica profunda, contra si mesma. Deve deixar a ideia arrogante de que é a única fonte de conhecimento, abrir-se para dialogar com outros saberes. Necessitamos criar Epistemologias do Sul”.

Nesse sentido, a segunda ruptura a respeito da Reforma radica na aliança social que a universidade deve buscar, não somente com as classes urbanas burguesas, mas com “as classes populares e empobrecidas, as vítimas do colonialismo e do patriarcado, os corpos racializados e sexualizados”. Por isso, explicou, “a extensão nunca foi tão importante como hoje. Por influência do neoliberalismo, a extensão foi desviada para obter fundos. Isto é perverso, isso não é extensão, é prostituição. A verdadeira extensão é a que se dirige a populações que não são solventes”. A proposta do português consiste em inverter a extensão, “não é levar a universidade para fora, é trazer o conhecimento não universitário para dentro”. E, por sua vez, “articular os diferentes saberes populares, porque também costuma haver preconceitos entre os diferentes movimentos” (operários, feministas, camponeses, LGBT).

A universidade, concluiu entre aplausos, deve se restituir, fazer um uso contra-hegemônico de sua autonomia e “transformar-se em uma pluriversidade. Mas, o ataque do neoliberalismo é tão grande que talvez também deva se converter em uma subversidade”.

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