Equador. Correa deixa o Partido Aliança País

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18 Janeiro 2018

Sua aguardada saída do partido marca um ponto de não retorno na disputa com Lenin Moreno. Sem vínculos partidários, Rafael Correa certamente irá trabalhar na campanha contra um referendo que busca suprimir a reeleição indefinida.

A reportagem é publicada por Página/12, 17-01-2018. A tradução é de André Langer.

O ex-presidente Rafael Correa desfiliou-se ontem [16 de janeiro] do Aliança País (AP), partido que ele fundou e com o qual governou por uma década (2007-2017). Dessa maneira, ele consumou a divisão do partido no poder no Equador.

Sua aguardada desvinculação do partido marca um ponto de não retorno na luta de poder que ele trava com o seu sucessor na presidência e seu ex-vice-presidente, Lenin Moreno. "Eles podem ficar com o nome, com o patrimônio, com a sigla do Aliança País, mas as convicções, o povo, a Revolução e o futuro estão conosco", escreveu Correa em sua conta no Twitter.

Correa apresentou seu pedido por discordar da resolução do Tribunal Contencioso Eleitoral (TCE), que ignorou uma diretiva "correista" do Aliança País. O ex-governante qualificou a medida como um roubo e pediu para não esquecer as autoridades que tomaram essa decisão. "Caros colegas, nunca esqueçam esses nomes de uma suposta 'comissão de ética', que deu apoio a um 'litígio interno' para que o TCE faça o que agrada e nos roubem o Aliança País: Mery Verduga, Monica Guevara, José Tenesaca. Tudo foi ilegal, e eles sabem disso", postou no Twitter.

Os seguidores de Correa se juntaram ao ex-presidente e pediram a desfiliação. A parlamentar leal a Correa, Gabriela Rivadeneira, anunciou a criação do Movimento Revolução Cidadã (MRC), denominação do governo do ex-presidente. "Já se havia cogitado o fato de que se o governo conseguisse apropriar-se do Aliança País, nós continuaríamos através da organização de um novo partido", declarou Rivadeneira. E apontou que "o projeto de Correa tem que continuar" e que as desfiliações "devem continuar durante as próximas semanas em todo o país". "Agora, a nossa prioridade é ganhar as eleições de 04 de fevereiro".

Sem o vínculo partidário, Correa certamente irá trabalhar na campanha contra um referendo promovido por Moreno, que busca suprimir a reeleição indefinida. Caso o "Sim" ganhar na consulta, em teoria, Correa ficaria sem opções para retomar o poder.

"A ruptura é a crônica de uma morte anunciada", mas "não vai gerar problemas de governança" no Equador, disse o cientista político Santiago Basabe, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) de Quito. "O que, sim, poderia gerar instabilidade seria se Moreno não ganhasse com muita folga a consulta popular, especialmente na pergunta sobre a reeleição indefinida", acrescentou. Sobretudo depois que ele foi eleito presidente com uma margem apertada de votos.

Correa, que pôs fim a uma era de instabilidade política com um governo de confronto com grandes grupos econômicos e muito popular entre os pobres, apresentou sua desfiliação na cidade costeira de Babahoyo. Embora tudo aponte para que lidere um novo partido, seu retorno ao poder depende do destino do ex-presidente no referendo.

"Pode ser que Correa crie um novo partido, mas que esteja impossibilitado de concorrer nas eleições presidenciais de 2021", acrescentou o analista Basabe.

O Aliança País foi fundado em 2006 por Correa, Moreno e outros líderes socialistas e foi o principal grupo político equatoriano durante os 10 anos de gestão de Correa.

Correa e Moreno foram aliados até o último mês de maio, quando assumiu o novo governo e o atual presidente começou a distanciar-se de seu agora ex-companheiro de partido. Nas eleições de 2017, o Aliança País fez 74 das 137 cadeiras na Assembleia Nacional, mas com a divisão do partido no poder, a maioria do bloco passou a apoiar Moreno.

Em outubro, líderes do Aliança País afins a Correa destituíram Moreno da presidência do partido, mas o Conselho Eleitoral ignorou a decisão alegando que a mesma não foi tomada em uma convenção nacional do movimento.

O TCE legitimou a direção de Moreno no Aliança País ao rejeitar um recurso de Rivadeneira, que foi destituída da Secretaria do partido em novembro passado.

O mesmo movimento levou também ao poder Moreno em 2017, que imprimiu mudanças no estilo e na organização administrativa e provocou uma forte ruptura com seu antecessor.

A direção reconhecida do Movimento Aliança País é composta por Moreno como presidente, María Fernanda Espinosa como vice-presidente e Ricardo Zambrano como secretário executivo.

Correa encontra-se por esses dias no Equador para participar da campanha eleitoral pelo "Não" na consulta que o governo convocou para mudar questões constitucionais, econômicas e ambientais das quais dependerão em grande parte o futuro político do ex-presidente. Sua residência habitual está em Bruxelas, na Bélgica.

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