Buda, Dante, e o segredo de Francisco

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01 Dezembro 2017

O Papa em Mianmar aproxima o santo de Assis ao Iluminado indiano: uma mensagem na esteira das antigas trocas entre Oriente e Ocidente. Por esse ângulo podem ser entendidos alguns versos misteriosos da "Divina Comédia"

O artigo é de Silvia Ronchey, historiadora e filóloga, professora na Universidade Roma Tre, publicado por Repubblica, 30-11-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Francisco e Buda. Um paralelo lógico para aqueles que também estão um pouco interessados pela história das espiritualidades e das religiões, embora incomum, pelo menos na aparência, é esse traçado pelo Papa Bergoglio durante a sua viagem para a Birmânia, diante do Supremo Conselho Sangha dos monges budistas em Rangum, entre as palavras de Buda e de São Francisco. Uma referência para o que, não por coincidência, Bergoglio chamou de "sabedoria" franciscana, indicando mais uma vez um profundo conhecimento do franciscanismo no Papa que primeiro escolheu o nome de Francisco, combinado com uma igualmente profunda adesão, neste que é o primeiro papa jesuíta, com a tradição da Companhia de Jesus.

Como sempre por trás de suas palavras, só na aparência simples, existe uma cultura sofisticada e uma camada múltipla de referências e significados destinados a serem desvendados - para usar uma expressão dos Evangelhos - por aqueles que têm ouvidos para ouvir.

Muitas vezes, e especialmente nos dias atuais, é traçado um paralelo entre Buda e Cristo. Uma combinação não só relacionada com a crescente expansão do budismo no Ocidente, mas conectada a um sincretismo antigo, que desde a pregação nestoriana e maniqueísta através do culto medieval, bizantino e depois ocidental de "São Buda" (Ioasaf, metamorfose cristã do bodhisattvas venerado no sinaxário constantinopolitano e mais tarde incluído por Barônio e Belarmino no Martirológio romano, na época da Contrarreforma) chegará a Tolstoi, Hesse e Thomas Merton. Porém nunca se tinha ouvido falar, pelo menos na cultura mais geral e muito menos vindo dos lábios de um papa, de um paralelo direto entre Buda e Francisco.

No entanto, essa comparação também é antiga, e pode ser encontrada - como a carta roubada de Poe – bem diante dos olhos de todos. Isso pode ser visto ao se olhar de perto o texto mais popular e conhecido da literatura italiana, a Divina Comédia de Dante.

No décimo primeiro canto do Paraíso, naquele que costuma ser chamado de Elogio de Francisco (v. 43 e seg.), onde Dante começa a narrar a sua história a partir de uma descrição geográfica minuciosa e visionária, quase aérea, do lugar de seu nascimento entre a "fértil encosta" que se inclina para o vale do Spoleto e para Perugia e o "duro jugo" da montanha Subasio iminente e esmagadora ("atrás padece") sobre Nócera e Gualdo Tadino, dois versos intrigantes pelo menos pela estranheza e sofisticação das rimas que precedem o surgimento, na toponímia da Úmbria, de um nome inesperado: o do Ganges. Da cordilheira de montanhas recém evocada ("desse lugar"), no ponto onde ela se torna menos íngreme ("onde o declive menos agro desce"), escreve Dante, "nasceu ao mundo um sol tão luminoso / como o que ao Ganges às vezes esclarece" (v. 48-51). A evocação repentina do rio indiano, fulgurante como a epifania de um novo sol, anunciada pelos termos "luminoso" e "esclarece", deu o que pensar aos estudiosos, que geralmente a interpretaram, não sem hesitação, como uma mera expressão de um ponto cardeal: o oriente, de onde precisamente o sol nasce. Não fosse que a palavra

Oriente aparece dois versos mais adiante, para identificar o local exato de nascimento de Francisco: Assis, que Dante denomina diretamente "Ascensi", mas que, acrescenta dramático, é limitado chamar por esse nome e não denominar logo de Oriente ("Desse lugar quem fale portentoso/ Não diga Assis, que pouco declarara:/ Chame Oriente o berço glorioso").

Poderíamos dizer que nessa elaborada evocação do manifestar-se ao mundo de um iluminado, que surge para a humanidade como "às vezes" o Ganges, em um lugar cujo nome já evoca a disciplina ascética dos antigos monges orientais, mas que na verdade é por si só um Oriente, ouve-se o eco da profecia da vinda de um novo Buda, cujo renascimento é esperado na literatura canônica de todas as escolas budistas? A questão é mais complexa.

O canto do Paraíso XI foi construído por Dante de maneira simétrica ao XII, aquele sobre São Domingos. A referência comum para o sol e o uso da expressão "às vezes" eliminam qualquer dúvida de que as duas passagens devem ser lidas em conjunto. Mas ao fazer isso, não se pode deixar de concluir que, dos dois pilares do cristianismo, um, Francesco, é considerado por Dante "oriental". Quanto ao Ganges, ocorre mais duas vezes na Comédia, em dois versos do Purgatório (II, 5 e XXVII, 4).

Comparando as três ocorrências, não se pode deixar de concluir que, para Dante a origem da especial iluminação trazida à humanidade pelo "sol" Francisco é o Oriente, e que com Francisco inicia-se um novo ciclo. Seria certamente muito dizer que a intenção de Dante é indicar em Francisco um Maitreya, um "rei do mundo", que através da iluminação completa multiplicará seus discípulos, unindo todas as escolas. Mas nos dois versos do XI Canto do Paraíso percebe-se pelo menos um eco daquela tradição oriental, pelo menos um conhecimento remoto da doutrina budista, o que não causaria surpresa em se tratar de Dante e se somaria ao seu surpreendente conhecimento do misticismo medieval global.

Uma vasta literatura foi dedicada por estudiosos de Dante sobre a sua relação com as tradições místicas orientais: às vezes em uma linha de estudo quase fantasy, como a do Dante de Guénon, precedido e seguido por uma infinidade de outros estudos e leituras esotéricas da Comédia; outras vezes, em ensaios rigorosamente acadêmicos, tais como, na Itália, os de Marco Ariani, ou em estudos específicos sobre a relação entre a Comédia, o budismo e o hinduísmo. Outra semelhante vasta literatura foi dedicada pelos francescanistas à relação privilegiada e intensa dos franciscanos com o oriente, próximo e extremo. Um fenômeno de magnitude colossal, do qual apenas um leve traço emerge nos maravilhosos fragmentos bizantinos de oração de Francisco aos pássaros da Kalenderhane Camii, agora no Museu Arqueológico de Istambul. Sabemos que já no século XIII os franciscanos retornaram do Oriente com repertórios precisos de orações budistas e listas dos bodhisattvas. Basta pensar em um personagem como João da Montecorvino, que viveu em Pequim de 1294 a 1328, nomeado pelo Papa Bispo de Khanbaliq. Os franciscanos do início do século XIV tinham provavelmente mais informações sobre o budismo do que os intelectuais de períodos sucessivos. A questão é saber o que fizeram dessas informações. Certamente, tal riqueza de materiais circulou por via oral, nos círculos intelectuais italianos e europeus. Mas não desencadeou qualquer orientalismo.

Foi preciso esperar, para isso, os jesuítas do século XVII. E eis que aqui o círculo se fecha.

Que um papa jesuíta, devoto de Francisco, a ponto de adotar o seu nome, sete séculos depois da escrita da Comedia e da divulgação na Itália e na Europa de uma visão que, se não comparava diretamente Francisco a Buda, certamente usava para descrever suas dimensões místicas categorias e imagens vividamente orientais, decide aproximar explicitamente os dois sábios, apresentá-los lado a lado, é um fato histórico. Aquele que tem ouvidos para ouvir, que ouça!

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