São Domingos: dinamismo apostólico contemplativo

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Por: Jonas | 03 Mai 2016

Em Domingos de Gusmão (1170-1221) encontramos a docilidade, a determinação e a fidelidade ao Evangelho, que não fecha, mas abre portas. Que não encerra, mas inicia novos processos que conduzem ao aprofundamento de nossa capacidade de buscar a verdade, respeitando os valores e a cultura dos povos. Domingos é o homem da misericórdia e do diálogo. Foi com esta inspiração, em um dia frio curitibano, que nos reunimos para um encontro com este grande místico cristão, contando com a assessoria do frei dominicano André Boccato, professor de teologia moral no Mosteiro de São Bento, em São Paulo. Esta iniciativa, promovida pelo CJCIAS/CEPAT, com o apoio do IHU, ocorreu na Casa do Trabalhador, no último sábado, 30 de abril.

 
Fonte: CJCIAS/CEPAT  

O relato é de Jonas Jorge da Silva, da equipe do CJCIAS/CEPAT.

A atividade ocorreu em concordância com o ano em que a família dominicana comemora os 800 anos da confirmação da Ordem Dominicana (Ordem dos Pregadores), dada pela Bula do Papa Honório III, publicada em 22 de dezembro de 1216.

São Domingos de Gusmão (1170-1221) foi um dos grandes inovadores da vida religiosa no século XIII, consumindo sua vida empenhado em socializar a Palavra de Deus, a partir de uma vida pobre e fiel ao Evangelho. Em Domingos, vemos a necessidade de uma formação humana que associe preparação intelectual e espiritualidade contemplativa, em favor do compromisso com os deserdados.

Frei André Boccato lamentou o fato de muitos alimentarem ideias muito vagas a respeito do legado dominicano e, muitas vezes, restritas ao processo histórico da Inquisição. Na verdade, a marca de Domingos e sua inspiração primeira em ir ao encontro com o próximo é a misericórdia. Foi o desejo profundo de que a o Evangelho fosse integrado e assumido, em sua mensagem genuína, por aqueles que estavam abandonados por uma Igreja clericalista e acostumada aos privilégios.

Neste sentido, Domingos é um homem que soube ler o seu contexto histórico. Compreendeu as significativas mudanças ocorridas em seu tempo. De fato, como destacou o assessor, nos séculos XII e XIII, vemos ascender grandes transformações na Europa, com o surgimento de cidades e da universidade. Tais mudanças também favoreceram o estabelecimento de uma economia de mercado que impulsionou novos intercâmbios, favorecendo uma nova cultura, que exigiu novas formas de comunicação e também fazendo surgir uma nova intelectualidade. Tudo isto gerou uma crise no projeto de Cristandade e no Papado, diante de uma Igreja alheia às necessidades dos mais pobres, que ficavam à margem da sociedade.

A viagem de Domingos pela Europa (de Castela a Dinamarca), junto com o bispo de Osma, no ano de 1203, foi determinante para que passasse a enxergar a distância entre a Hierarquia Católica e os povos da Europa. Do seu modo, muitos cultivavam a fé baseados em princípios que não estavam de acordo com a sã doutrina. Sendo assim, Domingos se depara com heresias, principalmente a dos Cátaros ou Albigenses, que se diziam cristãos, apesar das distorções a respeito da Revelação. Frente ao fechamento em si própria, a Igreja Católica era vista por tais povos como a “Babilônia” ou a “Prostituta”. Em contrapartida, mesmo cultivando heresias, os Cátaros tinham uma vida pobre, sem nenhum luxo ou ostentação (o que era diferente dos altos prelados da cristandade católica), conforme enfatizou frei André Boccato.

O encontro de Domingos com tal realidade muda a sua vida, impelindo-o a promover uma Igreja em saída. Sendo um homem da escuta, sua forma de se comunicar é mediada pela misericórdia. Então, coloca-se a caminho, junto com os que passam a acompanhá-lo, ajudando as pessoas a reinventar o Evangelho, pois mesmo diante das imprecisões no conteúdo da fé de muitos heréticos, via nesta procura por Deus sementes do Evangelho.

Neste sentido, frei André Boccato considera que reconhecer os valores cultivados por aqueles a quem nos dirigimos, conforme São Domingos, é extremamente atual. Para o anúncio do Evangelho, é imprescindível compreender a linguagem do mundo em que se vive, pois só assim a Palavra de Deus poderá ser acolhida e vivenciada.

 
   

Domingos, diferente de muitos outros religiosos acostumados ao luxo e a riqueza, dá testemunho do que prega, pois cultiva um apostolado contemplativo, valorizando um caminho de simplicidade e de interiorização dos mistérios da vida de Jesus. Por essa razão, desperta para a necessidade de que se congregue na vida apostólica a vida ativa e a contemplativa.

Assim o definiu seu sucessor, Beato Jordão da Saxônia: “Domingos acolhia todos os homens no vasto seio da sua caridade (...). Durante o dia, ninguém era mais sociável com os irmãos, ou com os companheiros de viagem, ninguém era mais alegre do que ele (...), considerava ser um dever seu alegrar-se com os que se alegram e chorar com os que choram: transbordante de afeição religiosa, consagrava-se a servir o próximo e a compadecer-se com os que estavam na miséria (...). Mas nas horas da noite, ninguém era mais ardente a vigiar, a orar e a suplicar de todas as maneiras. Partilhava o dia com o próximo; a noite, com Deus”.

Conforme ressaltou frei André Boccato, Domingos viveu um verdadeiro dinamismo apostólico contemplativo, valorizando a dimensão comunitária de sua missão e os estudos como fundamentais para elucidar a realidade e tornar a mensagem do Evangelho conhecida e acessível a todos. Neste sentido, em Domingos, oração, estudo e itinerância se complementam, sempre, é claro, cercado por todos aqueles que buscam viver e pregar a Palavra de Deus, incendiando o mundo com a tocha da verdade.

Por fim, frei André compartilhou com todos os presentes o que se considera as nove maneiras de rezar de São Domingos: inclinação profunda, a vênia (prostração total), disciplina, genuflexão, em pé e em contemplação, de braços abertos, de mãos levantadas para o céu, pela meditação e em viagem. Para São Domingos, todo o corpo participa da oração (homem medieval), envolvendo desejos, sentimentos, emoções, intelecto e a mortificação, algo muito difícil para nós que, contemporaneamente, vivemos sob o imperativo da vida moderna, agitada e turbulenta.  

Certamente, o encontro com o legado de São Domingos nos ajuda a se colocar à disposição de Deus, aumentando em todos o sentido do que o Papa Francisco considera uma Igreja em saída, capaz de ouvir, acolher e praticar a misericórdia, sobretudo, começando pela própria disposição pessoal de viver a mensagem do Evangelho, antes de ousar a pregá-la.

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