Em meio a escândalo de pornografia infantil, o Vaticano apoia pressão pela segurança infantil on-line

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04 Outubro 2017

Ao lidar com críticas a sua postura diante do caso de um diplomata papal levado de Washington a Roma devido a acusações de consumo de pornografia infantil tanto nos EUA quanto no Canadá, o Vaticano está organizando, esta semana, uma grande conferência na Universidade Gregoriana, localizada em Roma e coordenada por jesuítas, para enfrentar o crescente problema da vulnerabilidade infantil na era da internet.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 03-10-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Logo após seu próprio escândalo envolvendo pornografia infantil com o computador de um diplomata papal, o Vaticano está organizando, nesta semana, uma grande conferência na Universidade Gregoriana, localizada em Roma e coordenada por jesuítas, cujo tema geral é a segurança das crianças em uma era tomada pela internet.

Intitulada "Child Dignity in the Digital World" (Dignidade infantil no mundo digital), a conferência, que acontece de 3 a 6 de outubro, reúne grandes especialistas em proteção infantil, legisladores, empreendedores digitais e empresas de redes sociais, ONGs, entre outros, para discutir a promoção do bem-estar infantil on-line.

A ideia é que esses vários atores tracem um plano de ação, que será apresentado a Francisco na sexta-feira, quando os participantes da conferência encontrarão o papa em uma audiência.

"Acreditamos que será uma semana realmente especial e única, uma semana em que o mundo acorda para a realidade e para o problema de viver atrás das telas", disse a baronesa Joanna Shields, do Reino Unido, fundadora da WePROTECT, uma aliança global liderada pelo governo do Reino Unido e apoiada por mais de 70 países, 20 empresas de tecnologia e ONGs, a fim de deter o crime global de abuso e exploração sexual de menores on-line.

"Temos de olhar para os desafios emergentes, a escuridão emergente, que está lá fora", disse Shields. "A tecnologia não tem fronteiras, e o mal tem o mesmo acesso que o bem. A geração que está crescendo na frente das telas precisa ser protegida."
Ela deu uma conferência de imprensa na Universidade Gregoriana na segunda-feira para apresentar a conferência.

Ernesto Caffo, diretor científico do evento e fundador de uma linha telefônica antiabuso infantil na Itália, chamada "Telefono Azzuro", revelou que entre os especialistas que vão falar na conferência estão um epidemiologista de Harvard, o segundo principal oficial das forças de segurança da Interpol, um pesquisador que é referência mundial em abuso infantil e o diretor de segurança pública do Facebook.

De acordo com os organizadores, crianças e adolescentes compõem mais de um quarto dos mais de 3,2 bilhões de usuários da Internet em todo o mundo. Esta geração de mais de 800 milhões de jovens usuários corre o risco de se tornar vítima de sextortion (extorsão sexual), sexting (mensagens de cunho sexual), ciberbullying e assédio.

O evento ocorre no momento em que o Vaticano está enfrentando uma crescente pressão sobre o caso de um diplomata na embaixada papal em Washington, D.C., que foi convocado para retornar a Roma no final de agosto, depois que as autoridades estadunidenses o apontaram como possível alvo de uma investigação sobre pornografia infantil.

Desde então, as autoridades canadenses também emitiram um mandado de prisão para o Monsenhor Carlo Capella, acusado de "acessar, possuir e distribuir pornografia infantil", crimes supostamente cometidos enquanto visitava um local de culto em Windsor, Canadá.

Durante o fim de semana, o maior grupo dos Estados Unidos de defesa de vítimas de abuso sexual clerical, o SNAP, emitiu uma declaração observando que o cardeal italiano Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano e efetivamente a segunda principal autoridade depois de Francisco, fará um discurso de abertura na conferência gregoriana, que se promove como uma "oportunidade histórica".

"A primeira oportunidade histórica", declarou o SNAP, seria mostrar o Monsenhor Capella e seu computador a autoridades civis e o Papa Francisco cumprir suas simples promessas de transparência".

Perguntado sobre a coincidência de a conferência estar acontecendo ao mesmo tempo que o caso Capella, um dos organizadores da conferência, o jesuíta alemão Padre Hans Zollner, do Centro Gregoriano para a Proteção da Criança, disse que não há dúvidas sobre o comprometimento da Igreja contra os abusos.

"A partir de Papa Bento XVI e Papa Francisco, a Igreja Católica se comprometeu a proteger os menores", disse Zollner. "Muitas medidas foram adotadas, e a legislação mudou."

"Pessoalmente, vejo isso ao viajar para 50 países [representando a Pontifícia Comissão para a Tutela dos Menores, um órgão criado por Francisco para aconselhá-lo a respeito do compromisso antiabuso], este tema está sendo discutido em todas as partes do mundo - não com a mesma velocidade e consistência, mas estamos progredindo", disse.

"O papa, que encontramos há 10 dias, deixou bem claro que a comissão continuará, e sua missão será muito focada", afirmou.
"O Centro para a Proteção da Criança está dando voz a esse compromisso da Igreja Católica", disse Zollner, que acrescentou que os principais departamentos do Vaticano estão apoiando a conferência.

Também defendeu o tratamento que o Vaticano está dando ao caso de Capella até agora.

"A Santa Sé está em contato com as autoridades dos EUA, e tenho convicção de que segue o curso normal das relações diplomáticas e interestatais, o que os EUA ou outros países fariam em um caso como esse", disse ele.

Zollner também declarou que, se as acusações forem fundamentadas, haverá consequências.

"Se uma pessoa é considerada culpada, precisa ser punida e ponto final", disse.

Ernie Allen, um advogado que foi Presidente e CEO do Centro Nacional para Crianças Desaparecidas e Exploradas dos EUA por 23 anos até junho de 2012, e do Centro Internacional de Crianças Desaparecidas e Exploradas até 2014, classificou o encontro como "histórico".

"Consideramos o encontro como histórico, mais do que apenas uma conferência, é o início de uma verdadeira liderança global para enfrentar um problema que está se tornando cada vez pior", afirmou.

"É um exemplo extraordinário para aproveitar o momento e exercer a liderança", segundo Allen.

Para ilustrar os problemas que a conferência pretende abordar, os organizadores apontaram a "dark web", áreas da internet inacessíveis pelo Google ou outros motores de busca convencionais e projetadas para garantir o anonimato da atividade dos usuários.

Segundo Allen, ainda que sites de pornografia infantil representem apenas uma pequena porcentagem do conteúdo da dark web, provavelmente representam pelo menos 80% de todo o tráfego da dark web.

"A Internet forneceu um meio para as pessoas com interesse sexual por crianças interagirem com outras pessoas com os mesmo interesses no mundo todo", disse, descrevendo a situação como um desafio que "não pode ser tratado por uma única instituição, país ou agência."

Shields argumentou que, apesar da escala do problema, a experiência sugere que o progresso é possível.

Ela apontou para o fato de que especialistas em pornografia infantil já se encontraram com executivos do Google para discutir como garantir que esse material não continuasse acessível aos usuários e, por isso, "não temos o problema que tínhamos com a web aberta há quatro ou cinco anos".

Também apontou o exemplo de trabalhar com funcionários da Microsoft para usar a tecnologia "photo DNA" para tirar imagens pornográficas e abusivas de menores da Internet.

"Estamos construindo uma solução ao compartilharmos um problema com a indústria nesta parceria; sentamos com eles e dizemos: 'Precisamos que vocês resolvam isso'", disse. "A tecnologia está caminhando tão rapidamente, se transformando e se modificando, que realmente precisamos que todos cooperem para resolver esse problema."

Em uma recente entrevista ao Crux, Zollner disse que um dos objetivos da conferência não é apenas ouvir discursos, mas que especialistas de diferentes campos conversem sobre o que fazer.

A característica única é que, além de ouvirmos as pessoas mais bem informadas em todo o mundo, também queremos que essas pessoas possam conversar entre si e criar algo - não apenas uma declaração de intenção de fazer algo melhor, mas algumas etapas concretas e propostas para governos, empresas digitais, todos que são responsáveis por aquilo que está on-line e pelo que pode acontecer aos jovens e aos adultos vulneráveis.

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