“Reforma trabalhista é um projeto desumano”, diz senador Paulo Paim

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06 Julho 2017

Nas vésperas da possível votação da reforma trabalhista no plenário do Senado, é do oposicionista Paulo Paim (PT-RS) que vem um dos principais gritos de resistência em meio à avalanche de pautas liberais e conservadoras que hoje sacode o Congresso Nacional. Matéria legislativa prioritária para a base governista, a reforma parece ter tirado o sono do gaúcho, conhecido pela trajetória de atuação sindical e luta pelos direitos humanos. “No meu currículo, na minha história, não vai entrar uma covardia como essa”, vocifera, alfinetando os opositores.

Foto: Alessandro Dantas/Brasil de Fato

A reforma da Previdência, então, povoa seus piores pesadelos, assim como as desigualdades social, racial e tantas outras, que ele conheceu já na infância, quando o pouco discernimento ainda não lhe permitia traduzir as injustiças do mundo.

Parlamentar de longa trajetória – no Legislativo federal, já são mais de 30 anos –, o gaúcho é do tipo que preza pela diplomacia, o abre-portas por excelência da política. Com isso, conquistou o respeito de expoentes dos mais diferentes matizes, inclusive de adversários, sempre se equilibrando entre a voz suave e o pulso firme. É que Paim é político de estatura acima de qualquer aresta partidária. “É preciso saber ser duro sem perder a ternura da negociação”, poetiza, lembrando Che Guevara.

Defensor das causas, e não das coisas, como ele mesmo afirma, saiu da pequena Canoas, no interior do Rio Grande, para se projetar na história da política. Foi líder estudantil, metalúrgico, presidente de sindicato; liderou a primeira greve geral no estado; se engajou nas lutas contra a ditadura, pelo salário-mínimo, pelos Estatutos do Idoso, da Igualdade Racial, da Pessoa com Deficiência e por mais uma infinidade de pautas incapazes de serem acomodadas nestas linhas.

Vanguardista por natureza, ele foi o primeiro parlamentar – e único – a colocar o próprio cargo à disposição da sociedade, defendendo eleições gerais no país, já há um ano e meio, em meio à crise política. Permaneceu falando quase sozinho, diante de um Parlamento majoritariamente preocupado com interesses outros.

Entre outras coisas, o gaúcho pede mais capacidade de diálogo entre os extremos, teme a criminalização da política e aponta pros sonhos, dando conselho: “Nunca desista, nunca desista”, num discurso simples, mas capaz de marejar – por diversas vezes e sem piedade – os olhos de qualquer sujeito de alma amanteigada.

Foi com essa sensibilidade que Paim recebeu o Brasil de Fato nessa segunda-feira, 05-07-2017, entre um compromisso e outro da agenda parlamentar, e falou sobre uma multiplicidade de temas.

Eis a entrevista.

Estamos nas vésperas da possível votação da reforma trabalhista no plenário do Senado. O governo Temer tem se utilizado de algumas estratégias pra evitar a todo custo qualquer alteração no texto da proposta, inclusive para evitar que ela retorne à Câmara dos Deputados. Na semana passada, por exemplo, ele enviou uma carta aos senadores se comprometendo a fazer alterações na reforma depois, caso o Senado aprove agora do jeito que está. Essa urgência e essa conduta não sufocam o caráter bicameral do Parlamento brasileiro, uma vez que o Senado também tem obrigação institucional de legislar?

Fui um dos primeiros a fazerem essa denúncia e vou dizer por quê. Acho uma vergonha. Os senadores estão renunciando ao seu mandato, estão mostrando que não há razão de existir da Casa e, ao mesmo tempo, é uma postura covarde e irresponsável. É um desprestígio pro Senado ele ficar de quatro pro Executivo, se ajoelhando desse jeito, e para a Câmara. O que estamos discutindo aqui é praticamente um estatuto, é a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), são 200 mudanças, e o Senado está dando uma de Pôncio Pilatos, lavando as mãos.

O projeto é monstruoso, irracional, desumano e só interessa ao grande capital. E os senadores da República, que são ex-presidentes, ex-prefeitos, ex-governadores, todos homens experientes, se prestarem a isso… E só dizer que perde o sentido de bicameral é muito pouco, porque você pode até ter uma visão de querer um Congresso unicameral, eu já tive, mas os motivos que fazem com que se aja dessa forma é que são piores ainda. Tenho dito que a Câmara, neste projeto, deu uma de Judas: traiu o povo. E o Senado está sendo pior porque, tomando essa posição de Pilatos, ele acumula [os papéis de] Pilatos e Judas, e isso desmerece a Casa. No meu currículo, na minha história, não vai entrar uma covardia como essa.

Como o senhor lembrou, a reforma altera muitos pontos da CLT. O que o senhor acha que ela tem de pior do ponto de vista da fragilização do trabalhador nas relações de trabalho?

São 200 mudanças, 117 artigos, e aí tem alguns que, de forma mentirosa, dizem que não leva à perda de nenhum direito. Posso citar os piores. Quando você aplica o tal do autônomo exclusivo, a empresa não tem compromisso nenhum com você. Onde é que fica o décimo terceiro, que eles [governistas] dizem que não se perde? Onde ficam as férias? As empresas vão começar a contratar autônomo exclusivo! Onde é que ficam as férias, a Previdência, o Fundo de Garantia? Pro autônomo? É ele que vai ter que contribuir. Não vão pagar mais nada, a não ser o salário-hora.

Vamos pegar o trabalho intermitente… O que é isso? A empresa te chama, te dá algumas horas, te manda embora e te chama quando ela bem entender de novo e te dá horas, e manda embora de novo. Quem vai controlar pra ver se esses caras estão pagando direitinho? Ora, até no contrato normal tem muitos que não pagam. Lá na CPI da Previdência tem o que eles deixam de pagar… Eles retiram do trabalhador e dizem: "Olha, nós vamos pagar minha parte e essa tua parte, que é uns 8%, 11%, a gente desconta da tua parte", mas sabe quanto eles embolsam por ano só aí? Vinte e cinco bilhões. Isso com a legislação… Calcule como vai ser sem ela. Quem vai controlar essa arrecadação para os cofres públicos no que tange aos direitos dos trabalhadores? Quero ver… O trabalhador fica totalmente desprotegido e só quem ganha é o empregador. Eles querem fechar o ano como se fosse uma rescisão de contrato, aí você assina um documento dizendo que não tem nada a receber. E, se ele não te pagou, como faz? E, se você entrar na Justiça e perder, você vai ter que pagar 50%. Isso daí é o fim do mundo.

Quando eu digo que lembra o tempo da escravidão, eles ficam "brabos", porque eles sabem que isso é verdade, e isso fere eles. Eu digo que estamos divididos aqui entre os escravocratas e os abolicionistas. No nome dos escravocratas foi mandado tocar fogo pelo próprio Rui Barbosa: os escravocratas sumiram [dos registros]. Poucos sabem o nome deles. Então, é neste mundo que estamos vivendo. A terceirização sem limites, por exemplo, das atividades-fim… Se aqui dentro da Casa nós temos empresas que simplesmente fecharam as portas e não pagaram [os funcionários]… Isso dentro do Parlamento. Calcule lá nas ruas como vai ser, porque é onde há mais acidentes. Em cada cinco mortes, quatro são em empresas terceirizadas; em cada 10 acidentes com sequelas, oito vêm de lá; e pagam 30% a menos; e a maioria não paga a Previdência nem o FGTS.

É possível perceber, na cobertura jornalística mais tradicional, uma espécie de suavização no que se refere aos pontos da reforma. Tem jornal, por exemplo, dizendo que o negociado sobre o legislado seria importante pra dar mais liberdade de negociação ao trabalhador. O que tem de armadilha nisso?

Primeiro, é um outro crime eles usarem o dinheiro público para pagar propaganda nos meios de comunicação, tanto que nós entramos com uma ação e, lá no Rio Grande do Sul, foi dada uma liminar proibindo, porque é mentira mesmo. O negociado sobre o legislado… Que liberdade é essa? Então, vamos dizer que não tem mais norma e, de agora em diante, vamos dar liberdade pra todo mundo. Se esse é o símbolo de liberdade, pra quê leis pra nortearem as relações humanas? Tudo tem normas. Por exemplo, para quê colocar pardal [radar] nas ruas? Se tudo é liberdade, eu tenho que ter a liberdade de andar onde eu quiser. "Se, no tráfego, eu vou matar ou morrer, não importa". Para quê tem uma lei que diz que, se eu ultrapassar o tráfego com tantos quilômetros por hora, vou ter que pagar tanto? Porque as coisas são normatizadas.

Tem liberdade, mas a minha liberdade termina quando começa o direito do outro. Se coloque no lugar do outro sempre. Aí você vai chegar numa empresa e o empregador vai dizer: "Olha, tem 15 milhões de desempregados nas ruas, mas, se você quiser, abre mão desses direitos aqui, que eu te emprego, senão volta pra rua". Essa é a liberdade que eles querem, a que favorece o empregador.

Os projetos que eles têm apresentado são uma desonestidade intelectual, social e política. E digo mais: na minha avaliação, quem defende o projeto como está ou não leu, porque o chefe está mandando defender, ou, se leu, está agindo de má-fé. Ele optou por ir pro lado mais truculento, mais selvagem das relações humanas. É tão grave que os próprios relatores são contra. Por exemplo, o Romero Jucá [senador pelo PMDB de Roraima e relator da reforma trabalhista na Comissão de Constituição e Justiça do Senado (CCJ)] apresentou oito mudanças, que pegam os pontos que falei aqui. Então, veja, até o Escorpião – eu costumo chamá-lo assim – é contra. O Ferraço [senador pelo PSDB do Espírito Santo e relator da reforma na Comissão de Assuntos Econômicos-CAE] apresentou seis mudanças, mas tem alguns que ainda defendem na íntegra. Isso é irracional.

Essa discussão sobre a reforma trabalhista também se conecta ao debate sobre a reforma previdenciária, e o senhor é um histórico defensor da Previdência pública. Há, no âmbito político, um conflito de narrativas sobre a situação da Previdência. Na sua avaliação, o que ainda sustenta o discurso governista de que há um déficit e de que seria necessário bancar uma reforma de caráter austero, mesmo com tantos especialistas dizendo o contrário?

A CPI da Previdência está mostrando isso. O problema da Previdência é gestão, fiscalização, combate à sonegação. É combater roubalheira, o desvio [de fundos] para outros fins. Se fizerem isso, conforme os próprios procuradores da Fazenda dizem, se derem estrutura pra eles, teria como arrecadar R$ 94,6 dos R$ 500 bi que os grandes devedores devem à Previdência. Mas o governo não sinaliza que vai dar estrutura pra eles. A dívida de impostos e tributos com a União chega a R$ 2 trilhões. É isso que está em xeque, é o que estamos discutindo. Mas por que o governo insiste nessas reformas? Ele é um governo que está denunciando como criminoso, ele e a quadrilha dele. Não escapa um dos que são mais próximos. Então, fazem as reformas serem o cavalo de Troia. Foi como o rei grego que arrasou a cidade de Troia dando um cavalo bonito, mas por dentro estavam os opressores, os gladiadores que eliminaram a cidade.

Segundo, o governo quer sinalizar para aqueles que o financiaram que vai atender o pedido deles, que é entregar a Previdência para o setor financeiro, para a cúpula do empresariado nacional, que tem os 5% mais ricos. Esses os financiaram e são os que estão segurando eles. O governo é impopular pra 95% da população. Não é mais questão de "coxinha" ou "PT não sei o quê", e agora eles conseguiram unificar o povo contra eles, aí ele [o Temer] se agarra nas duas reformas, mentindo e vendendo a imagem pro país de que, se fizer as duas, está tudo resolvido. Vai é aumentar a miséria, a pobreza, a violência, porque, se você arrebenta os direitos dos trabalhadores, isso significa menos rendimento, menos arrecadação pra Previdência, aí sim ela vai entrar no buraco e as pessoas vão começar a fortalecer a previdência privada, que é o que os banqueiros querem. Se você for atrás de ver, a previdência privada já aumentou em três vezes o seu lucro depois que eles inventaram essa vinculação das duas reformas. E o governo, que já é uma alma penada, não está percebendo que esses mesmos setores já rifaram ele também. Só querem que ele faça primeiro o serviço sujo e depois vão colocar ele no paredão também.

O senhor mencionou a questão da polarização… Há um entendimento de que o país vive um momento de avanço conservador, o que se dá também em outras partes do mundo. Mas, nessa segunda-feira (3), por exemplo, o Datafolha trouxe uma pesquisa segundo a qual vem crescendo, no Brasil, a adesão a ideias de esquerda. A que o senhor acha que se deve isso?

Só pode crescer… Veja, tivemos Lula e Dilma por 13 anos. Com essa lambança que o Temer está fazendo, ele sendo liderado pela direita, o povo quer de volta o seu pão, seu emprego, seu salário. Nos governos deles [Lula e Dilma], foram gerados 20 milhões de novos empregos. Depois que eles começaram a boicotar [o governo] de todas as formas possíveis é que entramos neste momento tão perigoso da economia nacional. Há quem diga que este governo é tão ruim, incompetente e desqualificado, inclusive na narrativa política, que ele mesmo está dizendo: “Olha, o melhor pra vocês é a esquerda mesmo, mas eu só não posso ser preso”. Ele está fazendo tanta porcaria, que o povo está com saudade do governo anterior. É natural, é isso que está acontecendo. Se eu fosse candidato a presidente, sabe o que eu faria? Minha bandeira número um seria revogar tudo que o Temer fez. Tenho certeza de que quem pegar essa bandeira se elege.

Outro dado estampado na pesquisa é que o contingente de brasileiros adeptos do centro-esquerdismo e do centro-direitismo é bem maior que o de simpatizantes da esquerda ou da direita propriamente ditas. Muitos atores ligados ao mundo da política dizem que, num momento de polarização como este que o país tem vivido, a tendência é que sobre pouco espaço para ideias de centro. Na sua opinião, por que, apesar disso, tem muito mais gente nesses grupos mais vinculados ao centrismo do que nas extremidades?

O povo quer uma alternativa. Como a coisa polarizou do jeito que está, você sai do campo da razoabilidade. Nós mesmos, senadores, tivemos alguns debates aqui quase irracionais, quase levando à agressão física. Quando radicaliza demais, o que o povo pensa? “Bom, eu fico na direita ou fico na esquerda”. Na minha avaliação, o certo é construir uma política de centro, como fez aquele jovem lá na França [Macron, eleito nas últimas eleições presidenciais]. Então, o momento da razoabilidade e do bom senso era você começar a avançar com responsabilidade social, com nenhuma radicalidade, nem da extrema direita nem da extrema esquerda. Pra mim, tem um espaço vazio enorme pra ser preenchido e, quando a população percebe que tem alguém que tem essa visão da responsabilidade social e não está sectarizando pra lado nenhum, ela se desloca pra essa área. A história da humanidade mostra isso. Os extremos nunca agradaram ao conjunto da população.

Se a gente vive um momento de crescimento da adesão à esquerda, diante de um governo que está desidratando, por que os parlamentares ainda estão conseguindo aprovar tantas medidas conservadoras e rejeitar matérias legislativas de caráter mais progressista? O Parlamento está de costas para o povo?

Com certeza absoluta. Estou aqui dentro há 32 anos, já enfrentei o centrão, que é mais inteligente do que esses que estão aqui. Cansei de conversar, por exemplo, com o Jarbas Passarinho [ex-senador da República]. Ele era tipo um líder do centrão, mas vinha pra conversa. Foram ele e o Mário Covas que defenderam o direito de greve, e nós estávamos junto com eles. Covas, por exemplo, era o grande líder da esquerda naquela época, era do PMDB e tal, e estávamos todos juntos com eles. Era muito respeitado. Mas o que acontece é que, naquela época, nós tínhamos homens de envergadura, de estatura política, com diplomacia e sabedoria.

Hoje o pessoal aqui só segue a ordem do chefe. E por que eles votam assim? Primeiro, vão ter dificuldade enorme em 2018. Eles sabem que não é correto, sabem que esse projeto é ruim, tanto que eles mesmos admitem que tem que fazer mudanças, mas o chefe de lá mandou, dizendo: “Eu vou garantir o financiamento da campanha de vocês”. Só pode ser isso. Tem que ter alguma coisa do submundo que não aparece, alguém que vai patrociná-los. E quem está patrocinando as reformas? É o grande poder econômico. Mas fico muito triste de ver que, em um Parlamento que eu sempre defendi e continuo defendendo, haja homens e mulheres que defendem coisas, e não causas. As causas é que têm que nortear as nossas vidas, que dão energia pro bom combate, e não você virar um instrumento de manipulação do poder econômico, porque perde a razão de existir. É melhor ir pra casa, então, abandonar isso.

Falando nisso, o senhor foi o primeiro parlamentar a defender eleições gerais, argumentando que seria preciso renovar os representantes do povo também no Parlamento, não só na Presidência da República. Como é a aceitação, a penetração dessa bandeira entre os seus pares aqui na Casa? Há resistência mesmo de senadores que são ou que se dizem de oposição?

Eu percebi que o impeachment era inevitável… Eu conheço esta Casa aqui. Já conheço mais do que eles imaginam – e todos, de centro, esquerda e direita. Quando percebi que o impeachment ia passar, comecei a apostar na ideia das eleições diretas. Não fui entendido na época. Começamos com seis pessoas, depois chegamos a 32 ou 33 assinaturas para as eleições diretas, para apresentar uma emenda das diretas, mas era para as “diretas já” [para presidente da República], mas eu defendia eram eleições gerais. Só tinha uma saída pra unir a população contra aquela podridão que estava vindo, que ia ganhar via impeachment: chamar as eleições gerais, em todos os níveis. A Dilma viu com simpatia, mas, quando ela se posicionou aqui dizendo que era favorável, já não tinha mais configuração política porque a direitona já percebia que estava sentada na cadeira. Pra uma eleição geral num país como o nosso, teria que ter grandeza política dos agentes, dos sujeitos do processo. Quando percebemos que as gerais não teriam espaço, nós migramos para a ideia de presidente somente, por isso que chegamos a 32 assinaturas, mas assim mesmo eles não quiseram discutir muito o assunto, aí deu no que deu, e estamos com essa quadrilha aí no poder. Eu acho que quem votou pelo impeachment deveria pedir desculpas ao povo brasileiro. Não é feio isso. Ela foi traída, né… E aí, hoje, muita gente, quando perguntam por que votou, responde que “foi por uma tal de pedalada”, que ninguém sabe o que é.

Mudando um pouco o rumo da conversa, o senhor é filho de metalúrgico e também atuou nessa profissão antes de ingressar no mundo da política. O que aguçou esse seu interesse?

Essa é uma história bonita até… [voz embargada]. Quando eu era moleque ainda, vivia numa família bem pobre, pai e mãe ganhando um salário-mínimo, com dez filhos. Com 8 ou 9 anos, eu já trabalhava na fábrica de vaso. Eu amassava aqueles bolinhos de vaso e ele fazia o vaso. Por que eu comecei com a bandeira do salário-mínimo? Porque via que era difícil pro trabalhador sustentar a família. E, ao mesmo tempo, eu via o preconceito com os mais pobres, com os negros, e, com isso, eu dizia na minha cabeça que, quando crescesse, ia ser advogado pra defender os mais pobres. Aí eu era sempre presidente de sala de aula. Com 14 anos, virei presidente do ginásio noturno para trabalhadores. Me formei no Senai, fui trabalhar com 14 anos, e assumi a presidência. Aí veio o golpe de 1964, e eles me tiraram, porque eu estava na rua contra o golpe. As Forças Armadas mandaram me tirar. Aí me mandaram pro ginásio noturno de Santa Catarina, com o compromisso de eu não me meter mais nesses rolos. Com dois meses lá, virei presidente do grêmio, aí me tiraram de lá. Depois parei e fui só para as fábricas, mas sempre com esse espírito de tentar ajudar os que mais precisam. É isso que marca muito minha atuação aqui.

Alguns confundem minha firmeza e minha convicção, como se eu tivesse alguma coisa contra alguém. Mas não tenho nada contra ninguém, inclusive respeito muito o empresariado. Fiquei na fábrica muitos anos e sabe com quantas ações eu entrei na Justiça contra os empresários? Nenhuma. Sempre busquei o que era meu na base do argumento, mesmo naquela época difícil. Muitos amigos meus entraram, mas percebi que eu tinha outros meios. Fui presidente do sindicato e quantas vezes eu instalei dissídio coletivo? Nenhuma vez. Sempre arranquei na pressão, com greve e negociação. É preciso saber ser duro sem perder a ternura da negociação. Aqui mesmo no Parlamento…

Então, essa coisa foi pegando… Vi a vida dos quilombolas, etc. Quando cheguei na fábrica, tinha aquela tal de Cipa, a Comissão Interna de Prevenção de Acidente, aí o dono me chamou e disse que eu ia ser presidente e o vice eles [os trabalhadores] iriam escolher quem quisessem. Eu disse que tudo bem, mas aceitava ser presidente se eles votassem, porque a lei até hoje é uma vergonha: o presidente é indicado pelo patrão e o vice é eleito. Virei presidente eleito e, depois, presidente do sindicato. Dali a um tempo, fomos pra um congresso e de lá saíram dois nomes [para a eleição], e um era eu. Naquela época, o nosso número era com papel de pão [voz embargada]. Recortava e ali fazia meu número [voz embargada]. Isso são coisas que estou lembrando agora, porque nem lembro mais… Começamos a entregar os papéis e mandaram eu escolher o partido que eu quisesse, e daí o Lula foi fazer um comício lá, ele é bom de argumento que é danado, foi me visitar e eu acabei me filiando ao PT. (…)

A campanha era num fusca amarelo. A gente viajava tudo e comia fruta só, dormia nos postos, porque não tinha dinheiro [voz embargada]. Emociona, mas é bonito até lembrar… Quando chegávamos em paróquias, isso tem que ser dito, os padres nos davam o almoço e janta [voz embargada]. Nunca nego, nunca posso negar isso. E aí fomos fazendo história. Eu sou muito fiel a isso. Eu não consigo saber que o povo lá embaixo continua igual e eu estou aqui – tenho um bom carro, filhos formados, moro bem –, mas eu sei onde eles estão. Então, quando eu vou ali na tribuna – eles não sabem, talvez –, não estou olhando pro plenário, e sim pra fora. Trabalho escravo, que eles [os opositores] pensam que é modernidade, na verdade, é tudo igual. Está todo mundo lá sofrendo, com fome, em condições de trabalho desumanas.

Procuro sempre olhar de onde eu vim, por que vim e me colocando no lugar do outro. Se alguém que veio de lá traí-los aqui, é um ato criminoso, é banditismo. Pra concluir, quando eu era candidato a deputado, teve um episódio… Como nasci assim, no combate do dia a dia, pra mim, não tinha negro nem branco. Eu queria mesmo era fazer o combate junto, e liderei a primeira greve geral contra a ditadura Rio Grande do Sul – com os parceiros todos juntos, claro. Lembro que, quando fui indicado, o movimento negro me procurou e disse o seguinte: “Paim, tu nunca levantou essa bandeira do movimento”. Disse que não levantei porque queria unificar todos, mas sei, sim, da discriminação, porque eu mesmo passei muitas vezes… Até de ser barrado em porta de clube. No dia da minha formatura no Senai – nunca me esqueço, era o clube Palermo –, fomos todos pra lá, e eu não puder entrar. Disseram: “Olha, não dá, porque você é negro” [voz embargada]. Mas olha a solidariedade dos meninos: nenhum entrou, e nós saímos e fomos pra praça, com o diploma na mão [voz embargada]. Esse é o mundo real lá fora, que alguns não conhecem. Isso que eles estão fazendo aqui é esse povo que eles estão massacrando, por isso que eles não me entendem. Eu entendo eles: é que nunca estiveram nesse mundo real, viveram sempre na ilha da fantasia.

Isto não era pra contar, mas, no tempo do colégio, eu tinha uma namoradinha que era branca, e os pais dela fizeram de tudo pra ela se afastar. Ela era apaixonada, e eu também. Acabei virando senador – não vou dizer o nome dela, naturalmente –, ela sumiu no tempo e no vento, apanhando de marido e tudo. Pra você ver como a vida é, né, a energia da vida… Por causa de um preconceito só foi que aconteceu isso. Mas, enfim, o preconceito existe também contra o branco pobre, o índio, o cigano, as mulheres. Todo mundo sabe. Eu via lá embaixo, via como as mulheres são tratadas, por isso que entrei nesse mundo. Estatuto da Pessoa com Deficiência, por exemplo: eu tive uma irmã cega e via o que era ser cega. Estatutos do Idoso, da Igualdade Racial; política do salário-mínimo… Sempre briguei, briguei, briguei.

São coisas que, se você olhar pra trás, vai ver que chegam na minha infância. O que eu vivi eu não queria que os outros vivessem, e passei a trabalhar nesse sentido. A política de cotas nas universidades, por exemplo, pra mim, foi uma coisa tão importante… Tem um brilho, porque eu fui defender no Supremo Tribunal Federal. O que defendeu contra chegou uma hora e disse: “Paim, esse pessoal… Eles não sabem que as negras bem que gostavam de serem estupradas e violentadas pelos senhores brancos”. Aquilo me deu… [voz embargada] Fui pra tribuna e pedi que todo tipo de deus, Zumbi, que a energia do universo me iluminassem, e disse: “Não acredito no que ouvi aqui. Tenho mãe negra, irmã negra, filha negra. Você gostaria de saber que a tua filha foi violentada? Que tua mãe foi violentada? Que tua irmã foi violentada?”. Ele baixou a cabeça, o plenário todo bateu palma. Foi mais ou menos assim o que eu disse: “Tu sabe o que é ser violentado? O povo negro sabe”. Ganhamos por dez a zero, e as cotas foram aprovadas. Mas é experiência de vida, né? Aqui pra você eu mais falei da minha vida do que outra coisa…

Por fim, com toda essa sua trajetória, com sua sabedoria e sua experiência, se pudesse deixar um recado pro povo brasileiro sobre este momento que o Parlamento e o país estão vivendo, o que o senhor diria?

Primeiro, eu noto que há quase que uma lavagem cerebral contra a política, então, não deixem que eles façam isso porque, quando fazem, os mais corruptos dizem isso via poder econômico pra fazer a lavagem que eles querem fazer, mas, por outro lado, estão colocando os filhos deles na política, pra continuar com essa roubalheira. Mais que isso, acho que o povo brasileiro deveria olhar pra História, olhar pro presente e projetar o futuro. Tenho umas frases que uso sempre, e eu digo: “Faça o bem sem olhar a quem”. Sempre se coloque no lugar do outro antes de fazer o julgamento.

E vale a pena a gente insistir sempre. Eu sou muito teimoso, por isso cheguei aqui. Nunca desista dos seus sonhos. Eu nunca desisti. Sonhava em chegar, e cheguei, e continuo fiel às minhas origens. Seja sempre fiel ao teu passado, da onde você veio, aonde chegou, que acho que dá pra conseguir um mundo melhor para todos. Nunca esqueço que, quando fui pra África do Sul pedir a libertação do Nelson Mandela, fui com esse sentido do que eu tinha que fazer na África do Sul. Disseram que nós seríamos mortos quando chegássemos lá. Mortos coisa nenhuma porque, quando a causa é justa, a energia do universo conspira a seu favor. Se você fizer o bem, pode crer que a energia do universo vai te amparar e você vai chegar lá. Nunca desista, nunca desista.

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