"A violência de gênero é um dos fenômenos mais democráticos que existem". Entrevista especial com Marlene Strey

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Por: Vitor Necchi | 05 Julho 2017

Existem inúmeras definições de gênero, mas, de uma maneira geral, “pode ser conceituado como uma pressão social para correspondermos aos ideais que as culturas e as sociedades têm sobre o que é ser homem ou mulher, dicotomizando o mundo em masculino e feminino”, explica a psicóloga e professora Marlene Strey, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. As pessoas buscam corresponder ao que se espera delas, e esses processos são permeados “por questões de poder nem sempre visíveis, mas que atuam disfarçada e insistentemente empurrando as pessoas a tentarem se adequar às formas disponíveis”.

A maneira como a masculinidade é construída está na base da violência de gênero em que o homem é o agressor. “Historicamente os seres humanos do gênero masculino são educados, socializados e treinados para resolverem seus problemas por qualquer meio, a fim de preservarem sua virilidade”, ressalta Strey. Os homens procuram ser superiores às mulheres e, “além disso, também devem submeter outros homens, principalmente aqueles que não correspondem aos estereótipos de masculinidade vigentes”.

Strey lembra que muita gente critica a fragmentação do feminismo, pois isso poderia dificultar a formação de um corpo de teorias, estratégias e ações de enfrentamento das desigualdades e da opressão. No entanto, destaca que o feminismo foi concebido justamente para combater as ideias totalitárias que enquadram as pessoas de uma única e possível maneira. “Veio combater os estereótipos, os conceitos unitários e universais.” Considera que a diversidade é a riqueza humana. Por isso, “a diversidade é a riqueza do feminismo”.

Para se desconstruir a assimetria entre os gêneros e a violência que disso decorre, Strey defende que é preciso trazer o debate ao conhecimento geral e à participação geral. “A violência não é algo natural, é construído, por isso existe a possibilidade de ser desconstruída, mas isso exige uma enorme responsabilidade social.”


Marlene Strey | Foto: Bruno Todeschini

Marlene Neves Strey é graduada em Psicologia, especialista em Ciências da Educação e mestra em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS, doutora em Psicologia pela Universidad Autónoma de Madrid, com estágio pós-doutoral na Universitat de Barcelona. Leciona na PUCRS.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Gênero é uma construção social? Como isso se processa?

Marlene Neves Strey – Existem inúmeras definições de gênero. Depende da orientação teórica de quem define. De uma maneira geral, gênero pode ser conceituado como uma pressão social para correspondermos aos ideais que as culturas e as sociedades têm sobre o que é ser homem ou mulher, dicotomizando o mundo em masculino e feminino. Sob essas pressões, as pessoas treinam ativamente para corresponderem ao que se espera delas. Só que, inevitavelmente, dificilmente alguém conseguirá atingir e corresponder a esses modelos que são muitos, variados, temporários e, às vezes, contraditórios. O que fica escondido é que essas relações, modelos, comportamentos, papéis e identidades são permeados por questões de poder nem sempre visíveis, mas que atuam disfarçada e insistentemente empurrando as pessoas a tentarem se adequar às formas disponíveis. Só que a vida, como diria certo personagem de filme hollywoodiano, não está nem aí para as formas...

IHU On-Line – A Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher – Convenção de Belém do Pará define violência de gênero: ofensa à dignidade humana e manifestação das relações de poder historicamente desiguais entre mulheres e homens. O que mais pode ser dito para se compreender este tipo de violência?

Gênero pode ser conceituado como uma pressão social para correspondermos aos ideais que as culturas e as sociedades têm sobre o que é ser homem ou mulher, dicotomizando o mundo em masculino e feminino

Marlene Neves Strey – Violência de gênero acontece quando as pessoas são maltratadas de alguma maneira em função de serem mulheres ou homens. Isso quer dizer que homens e mulheres são potenciais vítimas e/ou agressores/as do gênero oposto. É importante salientar que os seres humanos são portadores de uma energia agressiva que contribui para a ação, construção, modificação ou destruição tanto de seres vivos quanto de objetos, ideias e movimentos. No entanto, não podemos confundir agressividade com violência. Existe violência quando existe intenção sistemática de causar dano ao outro ou à outra.

IHU On-Line – Quando se fala em violência de gênero, a associação imediata é a mulher como vítima e o homem como agressor, em razão da histórica opressão que elas sofrem. Quais são as outras formas de violência em que o gênero é determinante?

Marlene Neves Strey – O conceito violência de gênero engloba as muitas e diferentes formas em que a violência se manifesta, se mantém ou se desenvolve em função do gênero. Física, psicológica, patrimonial, sexual.

IHU On-Line – A maneira como a masculinidade é construída está na base da violência de gênero em que o homem é o agressor?

Marlene Neves Strey – Sim. Historicamente os seres humanos do gênero masculino são educados, socializados e treinados para resolverem seus problemas por qualquer meio, a fim de preservarem sua virilidade. Por meio da pedagogia da violência, aprendem, por intermédio da família, da escola, de amizades e dos meios de comunicação, e assim por diante, a estabelecerem primeiramente uma diferenciação com as mulheres e tudo o que diz respeito a elas. Nesse sentido, não poderia haver igualdade entre homens e mulheres, pois isso confundiria a hierarquia “desejável”, em que os homens devem ser, sempre, superiores às mulheres. Além disso, também devem submeter outros homens, principalmente aqueles que não correspondem aos estereótipos de masculinidade vigentes. Obviamente, junto a esses elementos de gênero, juntam-se outros, como raça/etnia, classe social, nível educacional, orientação sexual e outras classificações que são inventadas para diferenciar quem tem mais valor de quem tem menos valor. Um possível protótipo de superioridade seria ser homem, branco, rico, heterossexual, escolarizado, com poder político/cultural. Mas a superioridade pode variar dependendo da época e lugar, assim como dentro de grupos específicos.

IHU On-Line – No ambiente familiar, é comum que o patriarcado e a violência de gênero se reproduzam de geração a geração, e muitas mulheres acabam introjetando o papel submisso que lhes é atribuído. Nesse sentido, qual a importância das políticas públicas para combater a violência de gênero?

Marlene Neves Strey – As políticas públicas são fundamentais para romper com modelos estereotipados e tradicionais. No entanto, no nosso país, por exemplo, vemos algumas aparentemente excelentes políticas públicas, mas que na sua implementação (ou falta de implementação) não funcionam adequadamente, na medida em que existem atravessamentos de todos os tipos para impedir seu pleno funcionamento. Assim, às vezes fica bonito no papel, mas na prática não funcionam, são boicotadas por quem deveria dar vida e desenvolvimento às mesmas. Outra questão é que também na “letra miúda” das políticas existem questões contraditórias que “desafirmam” aquilo que dizem promover. As políticas são essenciais, mas não suficientes.

IHU On-Line – É comum mulheres suportarem agressões físicas do companheiro por períodos longos. Como romper com a permanência dessa fragilidade?

Marlene Neves Strey – Viver constantemente sob violência é capaz de tornar uma mulher incapaz de reagir, dado que sua autoestima e capacidade de superação podem ficar completamente abaladas. Além disso, dependendo do grupo de onde ela vem, talvez tenha sido inculcado nela que é dever da mulher aguentar qualquer tipo de violência em prol da manutenção da família. Muitas, por terem investido muito na relação, estão sempre avaliando se realmente fizeram tudo o que estava a seu alcance para mudar a situação. Quanto mais investem, mais dificuldade têm de abrir mão da relação. Muitas continuam por medo. Medo de serem mortas, medo de não conseguirem levar adiante a família sozinhas. Por vergonha, por apatia, acomodação à violência (que é um modo de vida para muita gente). Algumas sequer se dão conta de que sofrem violência. Pensam que assim é a vida para as mulheres, tal a naturalização da violência em seu ambiente. Do mesmo modo que os/as filhos/as podem ser o fator que pesa para a saída do ciclo da violência, para outras é justamente o contrário: são os/as filhos/as que exigem que a mãe continue com o pai (como tenho visto acontecer inúmeras vezes). Para não se afastarem dos/as filhos/as, elas se submetem.

IHU On-Line – Os mecanismos de dominação são tão eficientes que, por vezes, o oprimido assume o discurso do opressor. Por que isso ocorre? Pela força da violência simbólica?

Marlene Neves Strey – Aliar-se com o agressor é um potente mecanismo de defesa para poder encarar a violência e toda a gama de desqualificações que ela propicia à pessoa oprimida. Dentro disso está a justificação dos atos violentos, principalmente porque a violência costuma ser intermitente e não constante. Isto é, nem sempre o agressor é um agressor. Pode ser também uma pessoa que chega a ser encantadora. Pode haver a desculpa de que o problema é a bebida, a droga, o desemprego.

IHU On-Line – A violência motivada por gênero independe de classe social, etnia ou de qualquer outra categoria que se elencar?

Marlene Neves Strey – A violência de gênero é um dos fenômenos mais democráticos que existem. Às vezes pode ficar parecendo que é um problema apenas de pessoas socialmente vulneráveis, mas isso não é verdade. As pessoas de maior poder aquisitivo, com nível educacional mais elevado, encontram maneiras mais discretas de lidar com a violência, como o consultório psiquiátrico ou psicológico, o escritório do advogado ou uma rede mais potente de ajuda. A questão não fica sendo conhecida pela vizinhança, não vai para a delegacia ou aos meios de comunicação. A violência de gênero está em todos os lugares onde existirem homens e mulheres, por isso não é algo que possa ser encarado apenas individualmente.

IHU On-Line – No governo Michel Temer, houve uma diminuição da importância da área de direitos humanos, em particular das ações voltadas a mulheres e negros. Qual o impacto desse retrocesso?

Marlene Neves Strey – Na minha opinião, esse é um dos piores retrocessos na história do Brasil. Ainda bem que, talvez, a violência contida nisso tenha servido para sacudir a apatia imperante. Nada como um inimigo concreto e reconhecido para produzir coesão em certos grupos. Pena que isso não aconteça a toda a população que, provavelmente, em muitos casos, até aplaudindo essas medidas. É compreensível que isso se passe nos grupos que irão ser beneficiados, mas muita gente que perderá ganhos históricos (que não são muitos) não consegue se dar conta da importância negativa que isso tem. Há uma certa mobilização para tentar diminuir as perdas. Eu, pessoalmente, me sinto impotente, pois vejo que todas as instâncias que governam este país estão contribuindo para a decadência do Brasil em termos de direitos humanos.

IHU On-Line – A judicialização do feminicídio é determinante para o combate à violência de gênero?

Marlene Neves Strey – Esse é um assunto polêmico. Acho que o feminicídio tem que ser punido. No entanto, demonizar os homens que matam não resolve o problema. É necessário um amplo investimento em todas as áreas de atuação humana para refrear a matança de mulheres. Enquanto houver complacência social, os matadores de mulheres continuarão a agir, por mais que as penas endureçam. Isso fica claro na resposta que um homem jovem deu em relação à pergunta “por que os homens matam as mulheres?”. Ele deu de ombros e disse: porque podemos.

IHU On-Line – A Lei Maria da Penha (Lei 11.340/06, de 7 de agosto de 2006) é clara quanto à sua aplicação. Ela não se refere a qualquer violência contra mulher, mas àquelas em que o gênero é determinante na motivação do agressor e que ocorra em contexto doméstico, familiar ou de uma relação íntima de afeto. Que análise pode ser feita da concepção dessa lei?

Marlene Neves Strey – O espírito dessa lei está embasado na ideia de romper com um tipo de violência histórica que sempre viu as mulheres como objetos possuídos pelos homens, que podem fazer o que quiserem com a sua posse. Sempre houve complacência social para com a violência contra as mulheres. Além do mais, quando ela ocorre dentro do “lar”, costuma ficar mais ou menos invisível. Daí que temos que ir para dentro da casa e desvelar essa violência. Esse deveria ser o primeiro passo para coibir esse tipo de violência, pois é o mais invisível de todos. Mas, obviamente, as mulheres são violentadas de todas as formas possíveis, não apenas no contexto doméstico, familiar ou de relações íntimas de afeto. Mas já é um começo.

IHU On-Line – E quanto à sua aplicação? O Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher considerou a Maria da Penha uma das três legislações mais avançadas do mundo, mas o Brasil ocupa o quinto lugar entre os países que mais assassinam mulheres (4,8 homicídios por 100 mil mulheres), em uma lista de 83.

Marlene Neves Strey – Fazemos ótimas leis. Somos criativos/as no papel. No entanto, o ranço da tradição patriarcal é ainda tão forte que está disseminado em todos os lugares, até em quem deveria aplicar e proteger a lei. Falo novamente de complacência social...

IHU On-Line – Feminismo é um movimento constituído de muitas vertentes e perspectivas. Isso gera divisão e disputa ou, pelo contrário, fortalece a causa?

Seres humanos do gênero masculino são educados, socializados e treinados para resolverem seus problemas por qualquer meio, a fim de preservarem sua virilidade

Marlene Neves Strey – Para muita gente, isso é fragmentação que dificulta a formação de um corpo de teorias, estratégias e ações de enfrentamento das desigualdades e da opressão. No entanto, o feminismo veio justamente combater as ideias totalitárias que enquadram as pessoas de uma única e possível maneira. Veio combater os estereótipos, os conceitos unitários e universais. Enfim, como alcançar uma única perspectiva se sempre haverá alguém que não corresponderá ao cânone, à norma estabelecida pelo conceito, às necessidades individuais e grupais? Eu considero que a diversidade é a riqueza humana. Então, a diversidade é a riqueza do feminismo.

IHU On-Line – Em manifestações e passeatas realizadas nos últimos anos, algumas pessoas carregavam faixas enunciando que o corpo é laico. Por que este enunciado? As religiões costumam reproduzir o machismo e o patriarcado?

Marlene Neves Strey – O corpo é o sustentáculo de tudo o que é gerado pela mente e pela ação humana. Historicamente as religiões têm sido os algozes de quem desafia as doutrinas religiosas. Basta a gente lembrar a queima de bruxas, tanto pela inquisição católica quanto pelas perseguições de religiões protestantes. O corpo poderia ser fonte de prazer, amor e bondade, mas costuma ser visto como perdição e pecado, principalmente pelas religiões. No entanto, alguns setores religiosos tentam, às vezes em vão, moderar o ataque e o cerceamento ao corpo. Enfim, não podemos colocar os sentimentos religiosos todos dentro do mesmo conceito.

IHU On-Line – Que fatores contribuem para a perpetuação do patriarcado?

Marlene Neves Strey – O patriarcado tem múltiplas raízes e tentáculos. É um conceito muito criticado por várias correntes de pensamento. No entanto, se recusa a morrer porque, apesar de todas as tentativas de estabelecer igualdade entre homens e mulheres, as resistências de muitos setores da sociedade e da cultura atuam de forma a manter o status quo. Podemos verificar que, a cada conquista alcançada na direção de relações mais justas, existem várias resistências e ações concretas ou subterfúgios para manter aquilo que encarcera e oprime.

IHU On-Line – Qual o caminho para se desconstruir a assimetria entre os gêneros e a violência que disso decorre?

Marlene Neves Strey – De alguma maneira temos que trazer o debate ao conhecimento geral e à participação geral. A violência não é algo natural, é construído, por isso existe a possibilidade de ser desconstruída, mas isso exige uma enorme responsabilidade social. Cada pessoa, cada grupo, cada instituição deve se responsabilizar de discutir a questão, com mente aberta e aceitação das diferenças. Claro que podemos pensar o mal como diferente do bem e, então, devemos aceitá-lo? Não. Os direitos humanos deveriam ser servidos aos bebês junto com o leite que alimenta seu corpo. As escolas não podem escamotear esse debate. As famílias devem ser atingidas por esse debate. As instituições devem ser atingidas por esse debate. A academia, as teorias, as religiões e os meios de comunicação são centrais na disseminação do debate.

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