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Por: João Vitor Santos | 15 Junho 2017

Mario Mantovani é um camarada agitado, se mexe a todo instante, ri, fala alto, faz piada e enquanto faz sua palestra caminha entre os espectadores, olhando nos olhos dos interlocutores. Com mais de 30 anos de experiência na luta pela causa ambiental, brinca ao se considerar “o primeiro a se aposentar como ongueiro [integrante de ONG]”. O sujeito, que é um dos fundadores do SOS Mata Atlântica, organização não governamental criada em 1986, e que desde 1973 está no ativismo ambiental, na verdade está muito longe de vestir o pijama de aposentado. Ele quer é desacomodar as pessoas, provocar e fazer pensar sobre a emergência de se discutir questões ambientais, ainda mais nos dias de hoje, tendo o desenvolvimento tecnológico, a chamada revolução 4.0, como aliado.

Mario Mantovani provocava os espectadores a se engajarem para muito além do "ativismo de sofá"  (Foto: João Vitor Santos/IHU)

Foi esse o tom da sua palestra, na noite de terça-feira, 13-06, quando falou sobre a Mata Atlântica, dentro do ciclo Os Biomas Brasileiros e a Teia da Vida, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU. “Precisamos fazer a Mata Atlântica acontecer nos seus municípios”, provoca o ambientalista. O ciclo de palestras encerrou-se nesta semana, mas é possível acessar as temáticas sobre as diversas conferências que trataram dos biomas brasileiros e  suas conexões através de um Medium preparado pelo IHU.

Mantovani fala de Mata Atlântica e da experiência da SOS, mas destaca que quando se fala em um bioma se fala na vida e nas suas inúmeras conexões e implicações. “É mesmo uma teia da vida, onde o desaparecimento de cada animal ou planta tem inúmeras complicações”, destaca. Segundo ele, quando “um grupo de malucos” quis se reunir para defender a Mata Atlântica nem sabiam bem ao certo o que era o bioma. “Fomos conhecendo depois. Na década de 1980, sabíamos menos da Mata Atlântica no Brasil do que qualquer botânico em Nova Iorque”, recorda. A única certeza que tinham era de que desde que a primeira nave europeia atracou em terras brasileiras a Mata Atlântica começou a ser degradada. “Desde 1500, tivemos como grande problema a concentração de terras. O maior problema ambiental do Brasil, desde então, é fundiário, a existência do latifúndio”, analisa.

Para o ativista, o resultado dessa concentração é a constituição de um grupo hegemônico que passa a operar as leis do país em prol de seus interesses. “E quem paga, com isso, é a Mata, que vem sendo degradada ao longo dos diversos ciclos econômicos que o Brasil vem passando”. Ele lembra que o país tem cerca de cinco milhões e meio de propriedades rurais, mas que apenas 20% dos proprietários detêm 80% das terras. Mantovani explica que é assim que se constitui a chamada bancada ruralista, os representantes desse grupo hegemônico que quer mudar as regras para assegurar a sua vitória no jogo. “É preciso que entendamos que esse pessoal é o mesmo que resistiu em acabar com a escravatura no Brasil”, provoca. “Esse pensamento acabou com a Mata Atlântica e agora vai avançar sobre o Cerrado e a Amazônia. Erramos no passado, mas não precisamos cometer o mesmo erro”, completa, ao destacar a ofensiva do agronegócio sobre outros biomas.

Frente de resistência



É para fazer frente a bancadas como a ruralista que SOS Mata Atlântica e diversas ONGs fazem de Brasília um dos fronts de batalha. Depois de 14 anos de luta, o país tem aprovada a chamada Lei da Mata Atlântica. “É uma importante conquista. E temos outras, como o capítulo da Constituição que trata do meio ambiente”, destaca. Porém, Mantovani se mostra preocupado com essas conquistas. “Vivemos um tempo de regressão à década de 1970. Todas as nossas conquistas da década de 1980 estão ameaçadas”, alerta. Ele se refere às travas legais de proteção ao meio ambiente que vem sistematicamente tentando ser removidas em nome do agronegócio e da ideia de desenvolvimentismo. Um exemplo é o Código Florestal (para saber mais sobre o Código, assista o filme A Lei da Água, destacado acima), objeto de pressões. “E para que querem retirar essas travas? Para comprar seus interesses. O resultado a gente sabe qual é e está vendo nesses escândalos com as grandes construtoras e empresas como a JBS”, dispara.

Mantovani demonstra que a Mata Atlântica é devastada ao longo dos ciclos econômicos que passam pelo Brasil (Foto: João Vitor Santos/IHU)


Mas como lutar e fazer frente a essa lógica desenvolvimentista que vê os dispositivos legais de preservação ambiental como entrave? Para Mantovani, um caminho é discutir esse tema e saber da importância de conhecer os biomas e assim protegê-los. “Recordo que quando começamos nem sabíamos o que era bioma. Agora, temos esse assunto pautado numa Campanha da Fraternidade, por exemplo. Precisamos nos apropriar dessas discussões e trazer para perto da gente. A Mata Atlântica não é algo distante, lá longe. É algo que está bem perto de mim [confira vídeo abaixo]. Tem a ver com a água do rio da minha cidade, as árvores do meu bairro. Afinal, a Lei da Mata Atlântica foi pensada para ser adaptada e implementada em cada lugar”, explica.

Ativismo e a revolução 4.0

Mario lembra com muito bom humor do tempo em que para fazer manifestações e ações em prol do meio ambiente era necessário varar a noite “girando panfletos no mimeógrafo”. “Quando acabávamos, estávamos tão cansados que nem conseguíamos caminhar muito para distribuir”, brinca. “Felizmente no tempo de hoje temos uma comunicação muito rápida. Isso nos dá uma capacidade de mobilização muito grande a partir de um aplicativo como Whats app”. Entretanto, isso também gera um problema. Segundo ele, a própria facilidade de mobilização acaba acomodando as novas gerações e isso repercute em menos engajamento. “Vivemos o chamado ativismo de sofá. Precisamos romper com isso”, provoca.

Para subverter essa lógica, Mantovani não defende que se vá até Brasília e se promovam grandes atos de mobilizações, tentando sensibilizar os deputados e senadores. “Isso também é importante, mas podemos fazer isso desde nosso município, cobrando de nossos vereadores”, indica. Segundo ele, o site do SOS Mata Atlântica, por exemplo, reúne uma série de informações sobre esse e outros biomas. “E também tem várias ideias, destacamos iniciativas e projetos que podem ser aplicados em qualquer lugar. Basta olhar lá que veremos caminhos para preservar as árvores de nossas calçadas, nossos parques e rios”.

Mantovani ainda lembra que se vive num tempo em que as velhas grandes  multinacionais, como GM, não têm mais grande valor. “Os detentores de tecnologia para desenvolver aplicativos valem muito mais do que as velhas montadoras”, compara. “Precisamos usar isso a nosso favor. Na SOS, desenvolvemos vários aplicativos que nos ajudam nessas iniciativas de preservação e podem ser aplicadas desde a realidade local”. É a perspectiva da revolução 4.0 com sua aplicabilidade no campo do ativismo ambiental. “Precisamos nos engajar e a partir dessas tecnologias compreender que a Mata Atlântica não é algo distante, mas sim o que está perto de nós, do lado de nossa casa”, pontua.

Plano Municipal da Mata Atlântica


Um outro exemplo de como a articulação e o engajamento local podem fazer a diferença na perspectiva global é o Plano Municipal da Mata Atlântica. Mantovani  explica que ele é previsto dentro da Lei da Mata Atlântica, numa forma de aplicar e pensar nas formas de preservação de acordo com a característica de  cada local. “Não é algo que vem de cima, mas sim que deve ser desenvolvido em cada município”, destaca. O ambientalista defende que se use a internet, aplicativos e inovações da revolução 4.0 para conhecer o plano, trazer para seu município e reverter em benefícios muito além da preservação. “Já ouviram falar em IPTU verde? Pois é. O plano prevê descontos em propriedades que tenham ações de preservação. Precisamos conhecer e propor essas coisas que não passam nem pela mão dos vereadores”, explica ao pontuar que essas iniciativas são apreciadas na instância dos conselhos municipais de meio ambiente, outro fórum de participação da comunidade.


Para Mantovani, o melhor Plano Municipal da Mata Atlântica é o de Caxias do Sul, na serra gaúcha [conheça a experiência assistindo o vídeo acima]. Sua história tem muito a ver com coragem e engajamento. “Lembro da Vanise, uma jovem formada em Biologia que recebeu a tarefa de elaborar o plano. Recém chegada na Prefeitura, fez um trabalho minucioso de entendimento sobre o plano. Sabia mais do que os secretários e o prefeito, que nem davam assim tanta importância. E lembro bem dos desafios que enfrentou para descobrir os caminhos”, recorda. O resultado é que todas as 4.400 propriedades rurais de Caxias foram visitadas e se descobriu o belíssimo trabalho de sustentabilidade que se fazia. “E que ninguém sabia. Depois desse cadastro ambiental, se percebeu que a produção das pequenas propriedades poderia ser certificada por qualquer organismo ambiental do mundo”, elogia. Um pouco dessa história é contada no filme “Cumpra-se” [destacado à cima]. “Convido a assistir e ver como é possível, com coragem, mudar a realidade do município. É isso que é a teia da vida, que vai fazer a diferença lá na frente”, recomenda.

Quem é Mario Mantovani

Mario mantovani:"Na SOS, desenvolvemos vários aplicativos que nos ajudam nessas iniciativas de preservação e podem ser aplicadas desde a realidade local”

Geógrafo e diretor de Políticas Públicas da Fundação SOS Mata Atlântica, criada em 1986, primeira organização não governamental destinada a defender os últimos remanescentes de Mata Atlântica no país. Ele é um dos mais importantes militantes pela preservação ambiental do país, em atuação desde 1973.

Assista a íntegra da palestra

Confira mais fotos das atividades do ciclo Biomas Brasileiros e a teia da vida

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