“Não a renda para todos, mas sim o trabalho para todos”. “Só o trabalho dá dignidade”, defende o Papa

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29 Maio 2017

“O resgate [riscatto] do trabalho, não a chantagem [ricatto].” Depois, um ataque àqueles patrões “que são especuladores, e não empresários”. Por fim, a referência à Carta italiana: “A Itália é uma República Democrática fundada sobre o trabalho”. Em Gênova, Francisco prega com o Evangelho e a Constituição.

A reportagem é de Ferruccio Sansa, publicada por Il Fatto Quotidiano, 28-05-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Diante do papa, há milhares de capacetes azuis. Operários, mas não de uma fábrica qualquer: da Ilva de Cornigliano. O aço, que, nestas horas, vê seu próprio futuro sendo decidido. Não só: também as usinas de aço por muitos anos no centro da luta pela defesa do emprego e da saúde. Mas também aquelas fábricas do Poente genovês onde, nos anos 1970, nasceram as Brigadas Vermelhas. Onde, todas as manhãs, Guido Rossa ia trabalhar. Outro mundo, mas as necessidades dos operários não mudaram.

Os aplausos interromperam Francisco 12 vezes. E é inevitável pensar no passado: aqui, é preciso se agarrar precisamente a um “padre”, assim Bergoglio se definiu, que, a partir da Ilva, quis começar a sua visita a Gênova, para sentir defendidos os direitos de quem trabalha. Para ouvir falar da Constituição.

O “papa comunista”, como os seus inimigos o definem, faz um discurso incômodo para muitos: “Às vezes, pensa-se que o trabalhador trabalha bem porque é pago, mas esse é um grave desrespeito aos trabalhadores. O trabalhador começa a trabalhar bem por dignidade. O verdadeiro empresário conhece os seus trabalhadores, porque trabalha com eles. Nenhum bom empresário gosta de demitir a sua gente. Quem pensa em resolver os problemas demitindo a sua gente não é um bom empresário”. E os operários aplaudem, ouve-se gritos: “Bravo, grande!”. Bergoglio não para: o objetivo deve ser “não a renda para todos, mas sim o trabalho para todos”. Uma passagem que alguns interpretam como uma crítica da renda mínima de Grillo.

Francisco aborda muitos temas: o trabalho ilegal, os horários, o papel da política que “às vezes parece beneficiar aqueles que especulam, e não aqueles que investem”. Ao palco, sobe Vittoria, que ficou sem trabalho: “Se houver apenas concorrência, sem espiritualidade... a empresa se desfaz. A meritocracia que parece um valor, em vez disso, é um desvalor se a palavra ‘mérito’ é usada como justificação ética da desigualdade. Assim, o pobre se torna uma pessoa sem mérito, culpado”.

A Constituição e a Bíblia: “O Evangelho também fala da meritocracia”, quando conta sobre o seu irmão mais velho, que pede ao pai para não ajudar o filho pródigo: “Mas o pai não quer que um filho fique comendo as bolotas das feras”. Aplausos.

“Também se reza com as mãos”, com o trabalho; e as fábricas, não só as paróquias, são lugares da Igreja, conclui o papa. Poucas pessoas se inclinam: Francisco aperta diretamente as mãos e abraça os operários que lhe pedem apoio. Assim como ele parece pedir apoio a Gênova, sem figuras de referência a duas semanas da votação para escolher o prefeito.

Bergoglio se encontra com os sacerdotes, os jovens que, nessa cidade, uma das mais antigas do mundo, sentem-se muitas vezes como um peso, e não como um recurso. Por fim, a missa diante de 100 mil pessoas. Bergoglio lembra que é preciso se ligar a Deus com a âncora. O porto está lá. A poucas dezenas de metros passam navios grandes como catedrais. O mar, a outra metade de Gênova.

Ele termina com “Ma se ghe pensu”, a canção de um emigrado genovês à América Latina. Um pouco como Bergoglio, no fundo: “Esta é a primeira vez que eu chego perto do porto de onde o meu pai partiu”.

Nota de IHU On-Line: Para ver a íntegra do encontro do Papa Francisco com os trabalhadores e as trabalhadoras em Gênova, em italiano, clique aqui.

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