Papa se senta à mesa com os últimos sem autoridade: “Jesus era como vocês”

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29 Maio 2017

No último minuto, ele revolucionou tudo, mandando pelos ares toda a disposição das mesas e o programa do dia: para poder jantar face a face com os migrantes, os detentos, os sem-teto. Os últimos.

A reportagem é de Erica Manna e Massimiliano Salvo, publicada por La Repubblica, 28-05-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O encontro mais aguardado e também mais íntimo, blindado e comovente: porque, como disse o Papa Francisco nesse sábado no Santuário da Guarda, em Gênova, Itália, “esta é a loucura da fé, a loucura da cruz: aprender a olhar essas pessoas como Jesus olha. Ele era essa gente”. E, então, nada de sesta, como previa a agenda, e nenhuma autoridade à sua mesa na Sala del Caminetto: nem mesmo o cardeal Angelo Bagnasco, que, em um primeiro momento, deveria se sentar ao lado dele.

Em vez disso, ao lado do “Papa Francisco” – escrito em canetinha preta no identificador – estava Fahoxiz, jovem nigeriana, com seu bebê nos braços. À sua esquerda, um homem sul-americano. Doze convidados que eram uma mensagem forte e clara: Francisco os cumprimentou um por um e, com eles, falou em particular, na sala arejada de paredes amarelas onde ele entrou depois do encontro com os jovens na basílica, sob os aplausos e a comoção de convidados e voluntários que serviam às mesas.

Uma senhora Sinti lhe deu a bandeira do seu povo, outros colocaram em suas mãos um poema, alguns, um pequeno barco de madeira, símbolo da migração. Navegadores, também eles: aqueles aos quais o papa se dirigiu no seu longo e tocante discurso aos jovens na basílica, enquanto refugiados, presos e sem-teto o acompanhavam ao vivo na outra sala, no telão.

“É preciso o mesmo coração de um navegador: horizonte e coragem”, disse Francisco diante de mais de dois mil jovens, que o acolheram como uma estrela do rock, pulando de pé sobre os bancos, entre gritos de estádio, alguns dentro e a maioria debaixo do sol, no pátio.

Havia todo o mundo do associacionismo religioso, dos grupos de escoteiros aos voluntários da Comunidade de Santo Egídio, dos jovens da ACR aos do Movimento Eucarístico Juvenil. Muitos chegaram ao monte Figogna a pé, como Miguel Torres, 19 anos, que tinha a camiseta do Equador e um brinco em forma de crucifixo: “Eu saí de madrugada de Bolzaneto”, contou.

“É normal que muitos dos nossos coetâneos migrantes vivam nas nossas cidades em condições realmente difíceis?”, questionou Francisco, “é normal que o Mediterrâneo se tornou um cemitério? É normal que muitos países – e não falo da Itália, que é tão generosa – fechem as portas a essa gente que foge da fome e da guerra? Que, diante da dor dos outros, a nossa atitude seja de fechar as portas? Se não é normal, tenha a coragem de se envolver. E, se não tiver coragem, fique quieto”.

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