França. Mélenchon avança na campanha presidencial

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20 Abril 2017

De pé, enlouquecidos pela palavra exata, provocadora e inspirada de Jean-Luc Mélenchon, seus partidários gritam com uma só voz :“fora, fora, fora” (dégagez), todas as vezes em que o líder de França Insubmissa fala do liberalismo, dos banqueiros, da corrupção ou da União Europeia. Dégagez: a palavra nasceu em outras revoluções, aquelas que, no Egito e na Tunísia, retiraram do poder os dinossauros ditadores que esmagaram e espoliaram seus povos. Hoje, é a moda na França. A segunda palavra de ordem ouvida em seus comícios foi “resistência”. O “fora” e a “resistência” acabaram por configurar um cenário eleitoral que não estava previsto nos neurônios do sistema: a esquerda radical de Mélenchon veio disputar um lugar de luxo na calamitosa campanha presidencial.

A reportagem é de Eduardo Febbro, publicada por Página/12, 19-04-2017. A tradução é do Cepat.

A alguns dias do primeiro turno, no domingo 23 de abril, o movimento político lançado por Mélenchon, em fevereiro de 2016, acelerou seu crescimento até se dar ao luxo de retirar do terceiro lugar o católico e extremado tatcheriano François Fillon, o candidato da direita (Os Republicanos), obscurecido pelas revelações sobre os postos de trabalho fictícios de sua esposa Penelope e seus filhos, na Assembleia Nacional. Segundo as pesquisas, Mélenchon está a um ponto e meio acima ou empatado com Fillon. Um de seus lemas, “o povo antes que a oligarquia”, cativou uma França que, até agora, não havia encontrado o bom intérprete de seus desalentos.

Os insubmissos começam, inclusive, a entrever a possibilidade de atravessar a linha do primeiro turno e passar ao segundo. Nenhuma pesquisa de opinião antecipa que Mélenchon supere os 23% ou 24% de Emmanuel Macron, o homem do extremo-centro que figura em segundo, atrás de Marine Le Pen, a candidata da extrema-direita. Mas, isso é um detalhe para esta França insubmissa que, com uma previsão que vai de 18 a 19%, alimenta-se da inspirada prosa política de Mélenchon e da convicção de que, com uma campanha tão irregular como esta e a taxa imponente de indecisos, tudo é possível. Tudo radica em fazer com que as previsões se realizem e, também, em superá-las. Em 2012, a então Frente de Esquerda de Mélenchon caiu de 18%, vaticinado pelas pesquisas, para a seca realidade de 11%.

Resistência, liberdade, futuro. Mélenchon é outro dos que sabem entoar em suas intervenções públicas o hino ao otimismo, a homenagem a essa França tão distinta da que descrevem os pesadelos da direita e a ultradireita, essa “França bela e generosa que começa cada dia como uma manhã nova, sob seu lema: Liberdade, Igualdade, Fraternidade”. Nada a ver com a “máquina de ódio” de Le Pen, nem com as traições que os socialistas infligiram ao seu candidato oficial, Benoît Hamon, nem com a deslealdade manifestada pelo presidente François Hollande, a quem, em 2012, Mélenchon deu seus votos sem contrapartida. Ao chefe de Estado não interessou muito as burradas da extrema-direita, nem os questionamentos insultantes de François Fillon contra a justiça. Sim, ao contrário, saiu em ataque a Mélenchon, quando disse: “Jean-Luc Mélenchon não representa a esquerda a qual considero apta para governar”.

Quando lhes pareceu inofensivo ou apenas um romântico da esquerda, os meios de comunicação não se preocuparam com Mélenchon. Assim que começou a crescer, atribuíram a seu programa o qualificativo de “delirante projeto do Chávez francês”. Na medida em que as pesquisas lhe devam mais peso, Mélenchon foi, também, moderando suas posturas até dizer na imprensa: “não sou de extrema-esquerda”.

Suas fontes são uma combinação das extremas-esquerdas, as esquerdas radicais, Podemos na Espanha e o programa do candidato democrata às eleições presidenciais dos Estados Unidos, Bernie Sanders. França Insubmissa se inspira em várias fontes. Seu programa, O Futuro em comum, consta de 7 eixos, 10 medidas “emblemáticas” e mais 350 medidas suplementares. Foi adotado em 2016 e pensado pelo economista Jacques Généreux e a jurista Charlotte Girard. Com um slogan impactante, pois confere o protagonismo ao cidadão.

Em A Força do Povo, França Insubmissa apresenta, segundo Charlotte Girard, “soluções que jamais haviam sido preconizadas e cujos eixos são a participação popular”. A referências centrais do texto fundador são o ecossocialismo e o programa do Partido de Esquerda, O Humano em Primeiro Lugar, elaborado para as eleições presidenciais de 2012. O ponto número 62 do programa de Mélenchon preconiza, em caso de vitória na eleição presidencial, a adesão da França a Aliança Bolivariana das Américas, a ALBA. Essa questão foi uma das armas com a qual a histeria liberal atacou Mélenchon acusando-o, mais ou menos, de “importar” uma ditadura para a França.

Uma das grandes inspiradoras da França Insubmissa é a filósofa Chantal Mouffe, a companheira de Ernesto Laclau. Em uma coluna publicada por Le Monde e assinada por Chantal Mouffe, a filósofa responde as acusações contaminantes que circulam a respeito de Jean-Luc Mélenchon. Mouffe escreve: “pintado como um perigoso extremista, Jean-Luc Mélenchon é atacado por todos aqueles que consideram que não há alternativa à globalização neoliberal. Para estes, a democracia requer a aceitação do “consenso pós-político” estabelecido entre os partidos de centro-direita e de centro-esquerda. Se esse consenso é colocado em questão, seus responsáveis são tratados como demagogos e populistas”. As potentes mobilizações, a imagem positiva e os índices nas pesquisas mostram que Mélenchon quebrou o telhado da capela e estendeu sua mensagem muito além dos territórios cativos das esquerdas extremas ou radicais (que não é o mesmo). Àqueles que acusam Mélenchon de buscar instaurar na França um regime sem liberdades, Mouffe responde: “Mélenchon não quer um regime autoritário, mas colocar fim ao regime oligárquico”.

França Insubmissa teve uma habilidade criativa para ir crescendo com os instrumentos do sistema. Seu canal YouTube costuma superar as audiências dos grandes meios de comunicação e os conselheiros de Mélenchon inventaram um dispositivo engenhoso para que seu candidato esteja “quase” presente em vários lugares, ao mesmo tempo, graças a um holograma que torna corpórea a figura de Mélenchon. Simpatizantes do movimento criaram também um jogo informático muito exitoso, Fiscal Kombat, onde os oligarcas enfrentam o povo. Além disso, equipe montou uma web rádio, Os dias felizes (seu nome já é todo um programa), que passou a ser a rádio dos insubmissos.

Este ex-membro do Partido Socialista e ex-senador, Ministro no governo socialista de Lionel Jospin (1997-2002) e hoje eurodeputado, traçou um caminho sob as bandeiras da rebelião. O desejo francês de que “se vayan todos” lhe abriu um espaço onde sua prosa atrevida, suas propostas razoáveis, mas contra os consensos reinantes e seus diagnósticos fulminantes, foram rapidamente ouvidas com outra atenção.

Mélenchon promete acabar de uma boa vez com as regalias do que ele chama a “monarquia presidencial” e dizer “não e não” a esta Europa “que deixa os cidadãos na porta”. Com o Fundo – as propostas – e a forma – os hologramas –, Jean-Luc Mélenchon transtornou o andamento já agitado da campanha. A seu adversário do centro (Emmanuel Macron), disse: “senhor das belas palavras, o problema é como fazer para as pessoas viverem, não as empurrar para que se arrebentem”. E aos supostos “modernos”, que sustentam seus programas sob a força das desregulamentações, Mélenchon responde: “pouco me importa esses discursos sobre a modernidade. O moderno é a proteção social, o código do trabalho. O moderno é o trabalho que permite viver”.

Essas são as palavras latentes que parecem falar a cada cidadão, como se evocassem o seu problema pessoal. França Insubmissa conta com elas para, daqui até domingo, romper a barreira das pesquisas e chegar ao segundo turno. Muitas palavras mudaram nas novas terminologias: desapareceu “revolução” e em seu lugar ressoam trabalho, soberania, igualdade e, sobretudo, liberdade. França Insubmissa tem fé em suas metas. Aos seus antagonistas, multiplicado em sete hologramas, Mélenchon diz: Importantes, poderosos, senhores da terra, possuem muitas razões para se preocuparem”.

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