Defensor das vítimas: O escândalo de pedofilia rompeu o coração da Igreja Católica na Austrália

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05 Abril 2017

Nesta entrevista exclusiva à revista America, Francis Sullivan, diretor executivo do Conselho de Verdade, Justiça e Cura, organismo criado pela Igreja Católica australiana, reflete sobre os fatores que contribuíram para os casos de abuso sexual de menores cometidos por padres e religiosos na Austrália, e o que ele acha que a Comissão Real que investiga estes casos dirá em seu relatório no final do ano.

A entrevista é de Gerard O’Connell, publicada por America, 31-03-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

O Conselho de Verdade, Justiça e Cura (ou TJHC, na sigla em inglês) foi criado pela Conferência dos Bispos Católicos australiana e pelos Religiosos Católicos da Austrália logo após o governo federal anunciar, em 11-01-2013, a criação da Comissão Real para Respostas Institucionais sobre Casos de Abuso Sexual Infantil. O TJHC representa as dioceses, as arquidioceses e as congregações religiosas em todo o território nacional. Ele foi estabelecido pela Igreja para abordar o passado de uma maneira aberta e honesta, e para falar com uma única voz diante da Comissão Real.

Sullivan foi um dos palestrantes no seminário sobre “Como salvaguardar os filhos nos lares e nas escolas”, realizado na Pontifícia Universidade Gregoriana em Roma. Ele conversou com a America em 27 de março.

Confira a entrevista.

No seminário, você disse que, embora reconheça que o abuso de menores seja um problema generalizado, a questão é: Por que ele aconteceu na Igreja Católica também? Com base em sua experiência, a que respostas chegou?

Claramente, os postos de autoridade, sejam os de bispo, seja os de superiores das ordens religiosas, instintivamente escolhem cuidar da instituição, não importa o quão escandaloso foram os casos. Instintivamente, o coração dessas pessoas estava do lado da agenda institucional, não de uma pauta compassiva que fale do Evangelho. Portanto é uma questão de instinto, e o instinto é sempre modelado e nutrido por uma cultura, uma cultura que é autoprotetora, o que tem a ver com a preservação e a promoção contínuas. Trata-se de uma cultura onde as pessoas podem se identificar com a certeza e a segurança, e quando algo como abusos sexuais infantis, abuso sexual clerical, confronta-as, daí então é um caso à parte, e a maneira como as instituições lidam com casos à parte é livrando-se deles.

O Santo Padre diz que a Igreja precisa estar continuamente se convertendo, reformando-se – isso quer dizer que ela precisa ser honesta sobre as tensões que há em seu meio e sobre a tendência a sempre se justificar, ao invés de manter-se vulnerável e aberta.

Você disse que a corrupção na Igreja era um fator que possibilitou a pedofilia.

Em última análise, o abuso sexual é abuso de poder. Quando se abusa do poder, ele corrompe, e o resultado é sempre a degradação. Então, este escândalo demonstra como a Igreja cuida de si mesma. Ela cuida do clero, ela cuida dos bispos, ela cuida dos que fazem parte de uma casta clerical. Tornou-se um sistema fechado, não mais tem o espírito do Evangelho, não mais se coloca a atuar socialmente, não vai mais às periferias, não lida mais com as questões espinhosas, ela está sempre escolhendo a certeza, a rigidez e a autoproteção.

Você estudou com cuidado o que ocorreu na Igreja australiana em termos de abuso. Há duas ou três coisas que vêm à sua mente a partir desta experiência devastadora?

Durante muito tempo, a Igreja na Austrália tem demonstrado que está assustada, ameaçada pelas vítimas. As lideranças eclesiásticas demoraram bastante tempo para se sentar com estas pessoas. Alguns nem isso fizeram ainda. Penso que a Igreja ainda se sente institucionalmente ameaçada pelas histórias das vítimas. Algumas tentam recontextualizar suas histórias; em outras palavras, tentam recontar o que se passou de um modo aceitável. Essa é a primeira coisa, e penso que se estende por todo o país.

Em segundo lugar, a linguagem que os líderes católicos sempre empregam é sempre sutilmente pensada para continuar a justificar a existência da Igreja à luz dos escândalos. Ouvem-se pessoas dizerem: “Ah, foi uma coisa terrível, mas a Igreja ainda está fazendo todas aquelas coisas boas” e ao dizerem isso elas tentam abafar o volume e a potência da experiência do escândalo. Trata-se de uma estratégia de gestão, não de uma estratégia pastoral. A linguagem está muito mais marcada por temas jurídicos ou interesses da Igreja do que com questões pastorais.

A terceira coisa: pelo menos na Austrália os líderes eclesiásticos mantiveram o problema sob domínio, e em círculos fechados, de um modo quase secreto dos fiéis. Eles erroneamente avaliaram que não escandalizariam os fiéis; em vez disso, escandalizaram o país inteiro, e agora os fiéis, a comunidade católica, está fervendo de raiva com toda esta experiência. E tenho certeza de que isso se aplica a muitos lugares; lideranças católicas – pelo menos nos últimos vinte anos – têm tentado superar este problema, mas qualquer progresso que fazem é completamente ignorado porque a comunidade, em geral, ainda não pensa que as pessoas à frente da Igreja entendem qual a verdadeira situação. O problema não foi que havia perpetradores, e que havia muito mais casos do que sabemos; o problema é que foi preciso investigações grandiosas para trazer à tona a verdade.

Investigações governamentais, investigações pela imprensa…

Correto. A Igreja nunca se voluntariou com informações em um sentido público, numa ação deliberada para mostrar que está aberta. A última coisa que tudo isso demonstra é que a confiança em excesso dos líderes católicos na questão jurídica levou a um momento em que renunciaram à responsabilidade de serem exemplos morais. Esconderam-se por trás de mecanismos jurídicos porque estavam intimidados com as implicações do que a situação poderia significar para a instituição. A Igreja nunca tentou ser vulnerável, mas parte da resposta é ser vulnerável.

Marie Collins renunciou da Pontifícia Comissão para a Tutela dos Menores. Como vê isso?

Achei que foi um desdobramento escandaloso. Acho que essa renúncia diz que a inércia que inevitavelmente existe em grandes organizações como a Igreja Católica ainda tenta se livrar das denúncias das vítimas e das implicações do escândalo. Não creio que ela reflita as motivações do Santo Padre. No entanto, penso sim que o Santo Padre e outros precisam ter muito cuidado com a linguagem empregada nesse campo, a necessidade de dar sinais manifestos de apoio às vítimas e começar a ouvir as pessoas que não fazem parte do clero.

Se tivesse 10 minutos com o Papa Francisco, o que você diria a ele?

Em toda a ocasião possível, e certamente de uma maneira pública, eu diria que demonstre solidariedade e afinidade com as pessoas que foram abusadas sexualmente por clérigos. E que as escute; escutar a história subjacente.

Em segundo lugar, diria para nunca empregar a linguagem que parece minimizar ou contextualizar o papel da Igreja aqui, mas sim estar aberto e a desafiar a todos nós católicos a ajudar a reparar o coração da Igreja, pois o coração da Igreja Católica se rompeu.

Em terceiro lugar, diria para questionar sempre a forma como a Igreja pode, em dado sentido, fazer mais, de um modo manifesto, para demonstrar que não se trata apenas de ter perpetradores; tem a ver com a mentalidade das pessoas em cargos de responsabilidade que permitiram que o abuso continuasse.

Por fim, diria ao Santo Padre que acho que ele precisa ter contatos diretos com outras assessorias que não clericais em se tratando de abuso sexual, porque creio que quanto mais independente o Vaticano conseguir tornar os seus processos investigativos e normativos, melhor será para a credibilidade de longo prazo da Igreja.

No seminário, você disse que pesquisas recentes sobre os bispos australianos mostram que 50% dos que vão às missas consideram eles, os bispos, “pouco confiáveis” e que uma porcentagem mais alta daqueles que se consideram católicos compartilham desta opinião. Você disse também que os bispos não convencem mais as pessoas só com palavras, mas que as podem convencer através de ações. Que ação se exige deles hoje?

No contexto australiano, os bispos aceitam a recomendação de que um novo sistema de auditoria e responsabilização seja imposto sobre eles e sobre como eles irão garantir que os padrões para a proteção infantil e de adultos vulneráveis serão cumpridos nas dioceses, e que tais auditorias sejam públicas para que possam ser responsabilizados diante da comunidade geral.

Estas auditorias externas são independentes?

Absolutamente. Nós criamos um conselho independente e este conselho vai acreditar ou licenciar as empresas adequadas a entrarem e auditarem. Elas irão fazer auditorias completas, seja com um bispo ou com um superior religioso.

Além disso, há algo mais que gostaria de ver acontecer?

Eu recomendaria que, onde for possível, e onde as pessoas estiverem abertas a isso, trazer as vítimas de volta para o centro da Igreja. As vítimas dizem duas coisas quando conversamos com elas. Uma é: “Eu quero que acreditem em mim”, e a outra é: “Quero pertencer”. Elas não estão dizendo: “Eu quero pertencer de volta à Igreja Católica”. O que dizem é que não querem passar o resto de suas vidas andando por aí com um rótulo estampado sobre o rosto. Querem ser pessoas normais de novo. E nós temos a responsabilidade de permitir que isso ocorra.

Você participou do seminário. Qual a impressão do tirou evento?

Achei que foi um momento superinteressante, onde se falou sobre o trabalho feito com as crianças vulneráveis nos países em desenvolvimento e nas nações desenvolvidas. Foi excepcional. Mas quando falamos sobre a Igreja e as crianças, não poderíamos ignorar o fato de haver uma história massiva de abusos clericais, e então deveríamos ter falado sobre isso também. Acho que isso foi algo que faltou.

Ao mesmo tempo, o lado positivo foi que tivemos muitos membros experientes da Cúria Romana lá, sentados, escutando. Isso enviou um sinal muito bom, mostrou que existe a capacidade de fazermos este trabalho em conjunto e que há o reconhecimento de que nós, enquanto Igreja, podemos nos responsabilizar coletivamente. A maioria de nós não deixou pegadas no passado, mas todos temos a responsabilidade de ajudar recriar a nossa Igreja para ser aquilo que foi certa vez.

Como sabemos, existe um debate sobre como melhor lidar com o perpetrador: seja excomungando-o, mas então a Igreja não terá mais o controle sobre ele, seja condenando-o a uma vida de oração e penitência num mosteiro sob a supervisão de autoridades eclesiásticas. O que você acha?

Acredito que precisamos pensar sobre isso de uma maneira bem clara. Em sociedade, qualquer pessoa que comete um crime contra uma criança é posta na cadeia, fica um tempo aí, depois sai e fica livre. É assim que o sistema funciona. Dizer que não estamos preparados para fazer isso porque, em certo sentido, pensamos que devemos salvaguardar esta pessoa é fazer menos do que a comunidade espera que façamos e, na realidade, não é justificativa alguma. A comunidade aceita que as pessoas passem um tempo na cadeia e, então, saem como uma pessoa livre, e é isso o que acontece se a pessoa abusou de menores ou fez algo mais. É assim que funciona o Estado de direito, e a mim parece que, ao tomarmos o caminho mais curto, temos de nos perguntar se este não está matizado pelo clericalismo, e o clericalismo tem sido uma das questões que levaram ao acobertamento de casos de pedofilia durante anos.

A Comissão Real australiana está completando uma investigação à Igreja Católica e irá apresentar o seu relatório antes do fim do ano. O que acha que ela dirá?

Não sabemos o que dirão. O relatório será concluído no fim do ano, e teremos uma ideia melhor do que sairá quando recebermos o relatório final dos estudos de caso. Na maioria destes estudos de caso, no entanto, a comissão tem apontado para aquilo que considera como irresponsabilidade administrativa dos bispos e superiores religiosos; dizem que as lideranças católicas não estão sendo vigilantes o suficiente para assegurar o bem-estar dos menores e vulneráveis. O que acho é que o relatório final vai soar parecido com isso.

Ou seja, acha que o relatório pode apontar para a “negligência” das lideranças religiosas?

Poderão falar sobre negligência porque a Igreja na Austrália traçou o seu próprio limite, com as lideranças dizendo somente na década de 1990 que haviam adotado um conjunto legítimo de protocolos para lidar com as queixas desse tipo. Antes disso, era uma tentativa infrutífera tentar levar adiante acusações de abuso. Antes disso também, tínhamos todo um sigilo envolvido, inclusive nos níveis locais. Então, ao traçar um limite em meados da década de 19990, a Igreja dá, hoje, à Comissão Real a oportunidade de contrastar dois períodos, e eu tenho certeza de que a análise feita o período pré-1996 vai ser bastante condenatória.

O Cardeal George Pell é citado em casos de abuso na Austrália. Muitas acusações foram feitas contra ele, com ele negando-as por completo. Como vê essa situação? O acha que pode acontecer com o cardeal?

Desde o início da Comissão Real, George Pell tem recebido certa atenção. Ele foi e continua sendo um para-raios que atrai descontentamentos. É uma pessoa franca e, frequentemente, uma figura pública polêmica. Nunca se sabe o que o ele pensa. Mas devemos reconhecer: ele se colocou diante da comissão mais que qualquer outra testemunha, de qualquer instituição, e prestou um depoimento muito mais pessoal do que qualquer outra pessoa ouvida. Os estudos de caso que envolvem o seu depoimento ainda estão em aberto, e outras investigações continuam em andamento. Como qualquer outra pessoa, ele tem o direito à justiça natural e temos de aguardar as determinações do árbitro independente.

Visto tudo o que tem acontecido, como a Igreja australiana se levanta e começa a andar de pé novamente?

Eis uma grande pergunta com a qual todos nós na Austrália estamos nos debatendo. Não há dúvida de que a Comissão Real vem agindo como um caminhão a atropelar as pessoas. Penso que muitas das pessoas envolvidas, muitas das atuais lideranças estão, realmente, sentindo o peso de todo este exercício e estão, cada vez mais, realistas sobre onde isso acabará. A Igreja só pode fazer aquilo que a nossa tradição nos diz, e isso quer dizer voltar ao Evangelho e reformar a nós mesmos de acordo com ele.

A Igreja é muito mais que uma instituição. A instituição está sob julgamento, mas não a comunidade de fé – e a comunidade de fé é o que, em última instância, nutrirá as mudanças exigidas. Na Austrália, dado o nosso contexto, isso significa que precisamos de um envolvimento muito maior dos leigos, homens e mulheres, em todos os níveis decisórios. O que não quer dizer substituir os bispos, o que seria ridículo. Significa decisões tomadas mutuamente e uma grande quantidade de engajamento. Significa que precisamos nos tornar muito mais uma Igreja da verdade e justiça do que um pilar do establishment, precisamos ser muito mais abertos e transparentes. Acho que esse tipo de coisa ajudará a Igreja, na Austrália, a pelo menos se recuperar.

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