A Amoris laetitia é um jantar de casamento. Artigo de Andrea Grillo

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30 Março 2017

A exortação apostólica Amoris laetitia “é uma leitura sapiencial e magisterial que orienta pastores, sujeitos, operadores, ministros da Igreja a entrar na dinâmica do amor e a acolher a sua lógica clássica junto com uma lógica nova. Desse modo, traduz a tradição do Evangelho no nosso tempo. Sem idealizar a realidade. Sem parar o tempo. Sem absolutizar os estados da vida. Redescobrindo a preciosidade e a delicadeza dos processos”.

A opinião é do teólogo italiano Andrea Grillo, professor do Pontifício Ateneu Sant’Anselmo, em Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, em Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, em Pádua. O artigo foi publicado no seu blog Come Se Non, 29-03-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Trata-se, segundo Grillo, do “texto decupado pelos amigos da diocese de Albano, onde eu proferi a conferência sobre a Amoris laetitia no dia 15 de maio de 2016, do qual tirei estas páginas sobre a ‘refeição nupcial’. O tom coloquial permaneceu presente no texto, sendo a transcrição do discurso oral.”

Eis o texto.

Na breve mas gloriosa história da Amoris laetitia, encontramo-nos no período intermediário entre dois aniversários: entre a data de 19 de março, que figura no fim do documento, e a de 8 de abril, dia da apresentação oficial do texto, há um ano. Para honrar esse documento tão importante, que é o resultado de um caminho longo e acidentado, tento apresentar a sua estrutura de um modo um pouco original: como esse é um texto muito complexo, não difícil, porque pode ser lido de maneira muito simples, mas porque a sua estrutura é muito articulada, eu tive a ideia para lê-lo como um “jantar de casamento”. E como tal pretendo apresentá-lo.

Um banquete nupcial em 10 pratos

O texto é muito longo: 325 parágrafos. Quase poderíamos ler um por dia: repousando aos domingos, se a cada dia de semana lermos um parágrafo, perseveramos um ano inteiro; e o papa, de algum modo, sugere-nos para fazer assim, quando diz para não ler às pressas, até diz para ler primeiro o capítulo IV ou o VI, e somente depois o VIII, precisamente porque este é um grande texto e, como tal – como dizia um grande filósofo judeu do século XX, F. Rosenzweig – “os grandes livros também podem ser lidos a partir da última página”.

Então, o papa diz que, de acordo com as funções que vocês têm na Igreja, com as suas sensibilidades, podem começar a partir de um ponto diferente: há nove capítulos, cada um com uma certa autonomia em relação aos outros. Então, eu sugiro que vocês os leiam como se fossem os diversos pratos de um jantar de casamento, um grande banquete de 10 pratos: há um antepasto delicioso, há os três primeiros pratos apaixonantes, dois segundos pratos substanciosos, e quatro pratos saborosos de frutas e doces.

Cada prato corresponde a um capítulo, exceto o antepasto, que é “apenas” a breve introdução, constituída pelos primeiros sete números, que não deve ser subestimada. Nesse texto, a introdução é uma grande novidade: eu tenderia a dizer que a maior novidade da Amoris laetitia está justamente nos primeiros sete números. É precisamente a partir daí que eu quero iniciar.

a) O delicioso antepasto

Ponhamo-nos logo à escuta do “tom” no número dois da Amoris laetitia. É um percurso eclesial que envolveu a todos e que chega a um resultado: “... a complexidade dos temas tratados mostrou-nos a necessidade...” – notem bem, estamos no início do documento – “de continuar a aprofundar, com liberdade...” – o papa fala com alegria também da liberdade de continuar aprofundando. Portanto, trata-se de aprofundar com liberdade – “algumas questões doutrinais, morais, espirituais e pastorais”.

Com esse documento, a partir de um certo ponto de vista, encerra-se uma fase, mas já se abre outra: de fato, uma das características da exortação é que este é um documento aberto, que rejeita a lógica típica desses últimos 140 anos, de 1880 até hoje, em que o Magistério familiar assume um papel totalizante e diz, meticulosamente, tudo aquilo que deve ser dito, feito, acreditado.

Francisco e os bispos que trabalharam por três anos sobre o tema deram-se conta de que, em matéria de matrimônio, em geral, e, em particular, no campo do matrimônio em crise, do matrimônio infeliz e das famílias ampliadas, a ideia de uma lei geral que seja aplicável por todos de modo indiscriminado é um sonho irrealizável. Não há alternativa a cuidar de cada situação específica diferente. Note-se como, no texto, acrescenta-se: “A reflexão dos pastores e teólogos, se for fiel à Igreja, honesta, realista e criativa, ajudar-nos-á a alcançar uma maior clareza”.

Mas, depois, passando para o número três, diz-se: “Recordando que o tempo é superior ao espaço, quero reiterar que nem todas as discussões doutrinais, morais ou pastorais devem ser resolvidas através de intervenções magisteriais”. Esta é uma palavra que não escutávamos mais há 50 anos; mas que, de algum modo, remonta a antes da modernidade tardia: assim o magistério falava desde o século XVIII. Depois, ele quase teve que assumir sobre si a tarefa de responder cada vez mais em detalhe a todas as questões. A ideia de que o Magistério papal deve entrar no detalhe das questões litúrgicas, matrimoniais, pessoais, é uma ideia nossa, do último século, que cresceu especialmente depois do Concílio Vaticano II.

Na realidade, um dos efeitos indesejados do Concílio é que o Magistério é obrigado a entrar no detalhe de todas as questões, do trabalho, do entretenimento, se é certo abrir os estádios aos domingos ou se é certo se rebelar contra o tirano... O Magistério deveria responder e dar a sua opinião sobre tudo...

Francisco, que não vem da Europa, que vem da América do Sul, que não vem de uma tradição eclesial tão eurocêntrica, diz que é legítimo que o Magistério proponha algumas orientações, e, depois, os párocos individuais, os bispos individuais devem agir in loco de acordo com o discernimento. Essa, como vocês vão ver, é uma das palavras decisivas: redescobrir o discernimento. E alguns párocos e bispos começaram a dizer: “Discernimento significa confusão”, porque se resignaram a uma visão da tradição rígida e centralista.

A pretensão de que existe uma lei geral que passa por cima da liberdade é uma hipótese simplista demais, tanto para o padre quanto para o bispo, mas também para o leigo. O leigo é colocado dentro não de uma lógica de regulamento condominial, mas dentro da própria existência, e, portanto, no debate com o pastor, em nível de paróquia ou de diocese, pode operar aquele discernimento graças ao qual não lhe é mais impedido nenhum objetivo. Nós podemos ter hoje uma Igreja que não exclui ninguém, nem da absolvição, nem da comunhão, renunciando ao primado absoluto da lei geral.

Note-se: nós gostaríamos de ficar nas situações anteriores, falando de lei geral, para as quais, se alguém se encontra na condição de divorciado recasado, nunca mais poderá, durante a vida natural, receber a absolvição e comungar. Ou gostaríamos de uma nova lei que dissesse: “Embora você seja divorciado recasado, você sempre pode ser absolvido e comungar”. Não existe mais aquele regime antigo, nem nasceu aquele com que alguns sonhariam, mas a solução está no discernimento, de acordo com o qual a cada um não é vedado nenhum objetivo, contanto que se ponha em jogo a si mesmo e se ponha em jogo como divorciado recasado, como pároco e como bispo. Todos são postos em jogo.

Aquilo que explodiu, de algum modo, é a ideia da condição objetiva de pecado grave como realidade “para sempre”. Veremos isso seguindo em frente na refeição, mas eu digo que, desde o antepasto, o discurso do Magistério que não deve intervir em cada detalhe significa que deve haver a possibilidade de reconhecer os sujeitos em um percurso e não apenas em um estado. A palavra que mais usamos no século passado foi “estado de graça” e “estado de pecado”. O estado é o espaço. O tempo muda os estados. No tempo, quem está em estado de pecado entra no estado de graça.

Esse é o primado do tempo sobre o espaço, que, na Evangelii gaudium, Francisco delineia assim: “É primário no tempo inaugurar percursos de mudança em vez de se preocupar apenas em ocupar espaços”. Ele diz isso sobre a Igreja, que se acostumou a ocupar espaços e a não iniciar percursos. Hoje, ela deve iniciar percursos renunciando a ocupar espaços.

Note-se que esta é uma palavra que se pode entender que venha da América do Sul, é uma palavra tipicamente não europeia: tipicamente evangélica, mas de uma sabedoria não mediada por parte de uma Igreja forte, poderosa, que ocupou todos os espaços. Se ele vem da América do Sul, ele entende que é para anunciar Deus na cidade, escreveu Francisco quando era cardeal arcebispo de Buenos Aires: “Levar Deus à cidade já é uma ideia distorcida. Deus já está lá, é preciso reconhecê-lo, dar-lhe a palavra”. A ideia de levá-lo significa que, de algum modo, você se apropria da exclusividade, e isso é típico das instituições poderosas. As instituições de serviço trabalham para que se possa reconhecer que Deus já está habitando a cidade. Assim, encerramos o antepasto.

b) Os primeiros pratos refinados (capítulos I, II, III)

Passemos agora aos primeiros três pratos que correspondem aos primeiros três capítulos da Amoris laetitia. A refeição desarticula um pouco a estrutura do texto, mas, por enquanto, mantenhamos a ordem da sucessão: introdução – antepasto; primeiros três capítulos – primeiros três pratos.

Assim, o capítulo I, anúncio da Palavra, um belíssimo capítulo bíblico, no qual temos outra grande novidade: porque justamente essas palavras bíblicas, em nível de espiritualidade diocesana, nos discursos que um bispo faz, em uma lição de um teólogo, já degustamos e meditamos. No Magistério papal, é bastante raro que se use a Escritura não como o fundamento de uma verdade, mas como o relato de uma experiência.

Esse primeiro capítulo, intitulado “À luz da Palavra”, merece ser lido no seu primeiro ataque, porque o ataque dá arrepios. Não se esqueçam de que Francisco é um homem de literatura. Não sei por que os jornais o apresentam quase apenas como alguém brincalhão, como alguém que faz piadas. Vejam que ele nunca faz piadas por acaso, sempre fala com fineza retórica. Se ele diz “misericordiar”, na realidade também força o espanhol para dizer uma lógica de misericórdia que se torna uma palavra única.

O ataque do primeiro capítulo – o título é “À luz da palavra”, mas sintam que potência –: “A Bíblia aparece cheia de famílias, gerações, histórias de amor e de crises familiares, desde as primeiras páginas onde entra em cena a família de Adão e Eva, como seu peso de violência mas também com a força da vida que continua...”. Aqui não estamos indo em busca do versículo sobre o qual podemos construir a nossa doutrina; aqui estamos indo em busca de experiência autêntica. Francisco, na Evangelii gaudium, fala não só do primado do tempo sobre o espaço, mas também do primado da realidade sobre a ideia.

Mas veremos isso no capítulo II, portanto, no segundo dos primeiros, que é um pouco mais pesado, enquanto o primeiro dos primeiros é leve, a base de verduras, digamos, quase vegano, enquanto o segundo é com carne de porco, mais duro de digerir. O primado da realidade sobre a ideia significa – atenção, ele não coloca a ideia na frente – “confrontem-se com a realidade”. O grande ideal cristão, se se torna idealização, corre riscos porque – diz Francisco, e o disse em muitos casos (Evangelii gaudium, entrevistas, pregações em Santa Marta) “toda idealização sempre envolve uma agressão”. E talvez, no século passado, nada foi tão idealizado quanto o matrimônio.

Por isso, o discurso de comunhão, paz, reconciliação torna-se um discurso agressivo, agressivo da Igreja em relação ao mundo, como se baseasse em um preconceito enraizado em uma desconfiança. Isso nos faz entender que, no segundo primeiro, isto é, no capítulo II, Francisco coloca alguns dos números mais pesados de autocrítica: muito difíceis de engolir, se alguém viveu a tradição católica sobre o matrimônio dos últimos 50 anos.

Eu não tenho tempo para ler todos eles, mas leiam especialmente os números 35-36. Vou ler para vocês uma pequena antologia, mas os números 35-36 são muito poderosos na autocrítica. Eles dizem, com palavras magistrais, aquilo que eu acabei de dizer. O papa diz assim – está falando da importância com que a Igreja defende o bem do matrimônio, o bem da fidelidade, o bem da indissolubilidade, o bem da geração –, mas atenção: “... não tem sentido [na metade do número 35] limitar-nos a uma denúncia retórica dos males atuais, como se isso pudesse mudar qualquer coisa. De nada serve também querer impor normas pela força da autoridade. É-nos pedido [em vez disso] um esforço mais responsável e generoso...”.

Sigo em frente, número 36: “... devemos ser humildes e realistas, para reconhecer que às vezes a nossa maneira de apresentar as convicções cristãs e a forma como tratamos as pessoas ajudaram a provocar aquilo de que hoje nos lamentamos...”. Vejam como continua: “Além disso, muitas vezes apresentamos de tal maneira o matrimônio que o seu fim unitivo, o convite a crescer no amor e o ideal de ajuda mútua ficaram ofuscados por uma ênfase quase exclusiva no dever da procriação”,

Toda a linguagem da primeira metade do século XX, portanto. “Outras vezes, apresentamos um ideal teológico do matrimônio demasiado abstrato, construído quase artificialmente, distante da situação concreta e das possibilidades efetivas das famílias tais como são. Esta excessiva idealização, sobretudo quando não despertamos a confiança na graça, não fez com que o matrimônio fosse mais desejável e atraente; muito pelo contrário”.

Ou seja, tivemos uma responsabilidade no fato de ter construído, de algum modo, uma idealização que torna ainda mais difícil aderir ao matrimônio. Nossa! Mais do que isso?! O que deveria dizer? Em termos de consciência, o modo como você fala do matrimônio determina as consequências de reação também de quem lhe escuta, de quem olha de fora e pode entender muito bem aquilo que você pretende dizer ou pode entender o contrário daquilo que é. E não poucas vezes fizemos do matrimônio mais um martelo do que um farol.

Por isso, o terceiro primeiro, também este bastante nutrido e substancial, é a virada – digamos assim – desta primeira parte: o olhar voltado a Jesus e a vocação à família. Retoma-se a doutrina católica sobre o matrimônio com o olhar voltado a Jesus, dizendo, portanto: “Se você olhar para Jesus, pode entrar na lógica do matrimônio pelo caminho mais correto, evitando as falsas idealizações; entrando na grande ideia que passa através da morte e da ressurreição como grande prova do mistério pascal em forma matrimonial”. E isso culmina em um oportuno esclarecimento sobre a relação entre o vínculo Cristo/Igreja e o vínculo marido/esposa.

Com efeito, sobre essa leitura “eucarística” do matrimônio, é bom ressaltar o valor de “sinal” e de “analogia” que o matrimônio tem em relação à Eucaristia. Mas, com muita fineza, o texto, nos números 72-73, salienta que esse “sinal” e essa “analogia” são “imperfeitos”. Essa reconhecida imperfeição destaca a diferença entre o mistério/ideal e a “idealização/ideologia”, não achata o matrimônio sobre a Eucaristia, impede leituras maximalistas da tradição e permite a compreensão das fragilidades em forma não só moralista. Nessa diferença, situa-se a força da realidade e a possibilidade de curar as feridas. Assim, acabamos os primeiros pratos e passamos aos segundos.

c) Os segundos pratos substanciosos (capítulos VI e VIII)

Os segundos pratos nos levam à parte mais importante do ponto de vista estrutural e operacional, e correspondem aos capítulos VI e VIII, respectivamente sobre “Algumas perspectivas pastorais” e sobre “Acompanhar, discernir e integrar a fragilidade”. Pode-se dizer que são os capítulos que falam das famílias felizes, embora com todos os seus problemas, e das famílias que experimentaram o fracasso. Estamos nas perspectivas pastorais projetadas sobre o grande campo das famílias que, com todas as suas dificuldades, permanecem de pé, e das famílias que, ao contrário, viveram o naufrágio, mas encontraram uma ilha, reconstruíram uma forma de comunhão, embora problemática e frágil.

Aqui, quero que vocês notem: os capítulos VI e VIII são bastante clássicos, mas a estrutura ainda é muito original; porque o capítulo VII é construído sobre a vida da família; do início ao fim: anunciar o evangelho à família hoje; guiar os namorados no caminho; acompanhar os primeiros anos; esclarecer crises, angústias e dificuldades; e quando a morte planta o seu aguilhão. Do nascimento do amor à morte dos sujeitos. Toda a parábola; com um misto de sabedoria pastoral, fineza espiritual, sabedoria bíblica, misturadas com um tom realmente novo. Estávamos acostumados a pensar que, quando se devem entender as normas, usa-se um certo tipo de linguagem; se, depois, deve-se fazer espiritualidade, muda-se a linguagem; mas aqui encontramos continuamente a norma, a sabedoria, a inspiração bíblica, a experiência vital... e deriva daí uma abordagem e um gosto muito diferentes.

O capítulo VIII é aquele do qual mais ouvimos falar, porque os jornais, sobre os outros oito capítulos, disseram duas linhas e pararam por três páginas apenas sobre o capítulo VIII. Aqui gostaria de salientar que os três verbos – acompanhar, discernir e integrar – são realmente os três verbos-chave em geral da Pastoral Familiar, mas, em particular, para os casos que antes nós definíamos como “irregulares”. Digo “antes definíamos como ‘irregulares’” porque, de fato, antes permaneciam como irregulares, hoje podem se regularizar; não de acordo com uma regra abstrata – não há uma nova regra (condominial?) que regulariza os irregulares – mas, no tempo, em um caminho de discernimento, acompanhados, podem se integrar. E podem se integrar em vários níveis. Podem se integrar em nível de ministério da catequese. Por exemplo, um divorciado recasado amanhã poderá um catequista, poderá ter uma ministerialidade eclesial, também poderá ser absolvido e comungar.

Isso precisamente de acordo com a lógica que supera o objetivismo jurídico anterior, e é aqui, justamente, quando eu tiver terminado de ilustrar o jantar, que vou me deter, porque este é um dos pontos mais delicados sobre os quais, hoje, somos chamados a trabalhar. Mas superar o objetivismo jurídicos, como faz a Amoris laetitia, não significa resolver todas as questões. Deveremos, no futuro, ter claro que, pelo fato de os irregulares não serem mais irregulares, é fundamental que uma Igreja os acompanhe, discirna e os integre, mas, no fim, essa “integração” deverá assumir uma “norma” que permita que todos reconheçam essa regularização . Em outros termos, com base na Amoris laetitia, deveremos reformar o direito canônico.

d) Fruta madura e doce gostoso (capítulos IV, V, VII, IX)

Vimos os dois segundos substanciosos, depois dos quais quais há quatro pratos, de fruta madura e de doces gostosos. E eu os chamei de “fruta e doce” porque são capítulos muito originais em comparação com o estilo magistral a que estamos acostumados.

Comecemos pelo capítulo IV, que é o mais extenso de todos e que tem como tema o amor. E vejam isto, porque não nos damos mais conta, mas se vocês o projetam sobre um período de 140 anos, é verdadeiramente incrível que haja um capítulo inteiro sobre o amor. E eu não estava vivo pelo menos em 1880, nem em 1930, já estava vivo nos anos 1960, mas eu ouvi a minha primeira lição sobre o matrimônio, ouvida quando eu tinha mais ou menos 20 anos, por volta dos anos 1980, de um professor de direito canônico do Seminário de Gênova, que começou com estas palavras literais: “Queridos rapazes, lembrem-se: o amor não tem nada a ver com o sacramento do matrimônio!”. Se o canonista começa assim, a estrada é em declive.

Onde está o problema? Se um papa coloca como capítulo IV, central sobre a pastoral matrimonial, um capítulo sobre o amor, é claro que ele faz explodir o banco dessas configurações, que já tinha explodido por conta própria, mas que agora explodiu completamente. Se você não se ocupa do amor – é claro, não como os chocolates Baci Perugina [que trazem pequenas mensagens sobre o amor] falam dele –, mas também levando em conta que existem os chocolates Baci Perugina como parte da linguagem sobre o amor de hoje, o que, de fato, muda também o matrimônio. O modo com que a Igreja abordou o tema do amor foi, por muitas décadas, um modo autorreferencial, citava os próprios textos e não levava em conta que a civilização mudava, o que não quer significa que existem os chocolates Baci Perugina, mas que homens e mulheres hoje levam em conta o amor, isto é, o sentimento, a dependência, o fascínio, a sexualidade para se casarem. Isso é uma coisa nova. Até 100 anos atrás, homens e mulheres se casavam sem nunca se terem visto antes. O casamento por procuração foi uma realidade pelo menos até a Segunda Guerra Mundial. E assim é entre nós, na Europa. Em outros lugares, as coisas ocorriam de modo ainda diferente.

Então, se você fala de um mundo assim, obviamente tem certos problemas e certas vantagens: em um mundo em que o amor é essa coisa complexa de que o papa fala no capítulo IV e começa com um belíssimo comentário sapiencial do hino da Primeira Carta de Paulo aos Coríntios, que é realmente – por si só – um grande texto; que o papa lê a partir da experiência matrimonial e usando como critério de leitura a experiência matrimonial.

Ouçam todos os parágrafos desse início do capítulo VI: “O nosso amor cotidiano”, “Paciência”, “Atitude de serviço”, “Curando a inveja”, “Sem ser arrogante nem se orgulhar”, “Amabilidade”, “Desprendimento”, “Sem violência interior”, “Perdão”, “Alegrar-se com os outros”, “Tudo desculpa”, “Confia”, “Espera”, “Tudo suporta”. São as palavras de Paulo aplicadas à vida matrimonial, às quais se seguem “Crescer na caridade conjugal”, mas, depois, “Amor apaixonado”. A emoção no matrimônio, as emoções são o lugar da fé. Depois, devem ser objeto de discernimento, mas se você, preconceituosamente, não tem impulso, não tem emoção, não tem paixão, do que estamos falando? Onde pode haver amor se não há isso? Não pode haver só isso, mas, se houver isso, seguramente não é amor!

Nós temos estruturas mentais com as quais – não só os juristas, mas também os pastores, os bispos, os documentos, nem só as nossas piadas – pensamos a oposição espiritual e carnal não como Paulo a pensa; o carnal não é o emocional, é mais o fechar dentro do emocional todo o sentido, mas cuidado ao não se passar através da emoção! Quem reconheceria o Ressuscitado sem a emoção? O que dizem o dois de Emaús? “Sentimos arder o coração”! A primeira reação ao reconhecer o Ressuscitado é emocional; cuidado se não o for. Então, reconstruir essa unidade do texto passa pelo hino à caridade de Paulo, atravessa o amor apaixonado, recupera as lógicas complexas do amor até a sua transfiguração. Capítulo IV, primeiro dos doces e das frutas.

Segundo prato de frutas e doces, capítulo V: “O amor que se torna fecundo”. Que não fala só da geração, mas fala também, digamos assim, de uma fecundidade ampliada e da vida da família, nos diversos graus da idade: ser filhos, ser idosos, ser irmãos. Considera os parentescos como os lugares de experiência da fecundidade: saber ser filho, saber ser pai, saber ser irmão. Isso constrói experiência familiar.

Depois, há um doce particularmente fino, isto é, o capítulo VII, “Reforçar a educação dos filhos”. Um capítulo inteiro fala apenas disso: de quais são as estratégias educativas dos pais, sobre as quais diz palavras muito sábias sobre a importância da relação na qual o progenitor é uma autoridade, mas o filho, por sua vez, torna-se uma autoridade para o progenitor. Isto é, na obra educativa, os filhos são educados, mas tornam-se, por sua vez, sujeitos educadores para os pais. E diz-se sim à educação sexual; o que, de fato, ouvido de um papa, pode soar estranho, mas não é estranho se olharmos para a realidade e não a idealizarmos.

Sétimo capítulo, último doce. Doce de colher final, leve, depois vem o café: espiritualidade conjugal e familiar. É o último capítulo IX da Amoris laetitia. É o capítulo sobre a espiritualidade do casal e a espiritualidade da família em sentido mais amplo, incluindo os filhos, incluindo os parentes. Mas a última colherada do último doce é particularmente delicioso. Nele se lê, no meio do último número da exortação, uma grande síntese, em que todos os gostos e todos os temas do jantar voltam a se fazer sentir. Gostaria de citá-lo na íntegra, antes de concluir:

“... nenhuma família é uma realidade perfeita e confeccionada de uma vez por todas, mas requer um progressivo amadurecimento da sua capacidade de amar. Há um apelo constante que provém da comunhão plena da Trindade, da união estupenda entre Cristo e a sua Igreja, daquela comunidade tão bela que é a família de Nazaré e da fraternidade sem mácula que existe entre os Santos do céu. Mas contemplar a plenitude que ainda não alcançamos permite-nos também relativizar o percurso histórico que estamos fazendo como família, para deixar de pretender das relações interpessoais uma perfeição, uma pureza de intenções e uma coerência que só poderemos encontrar no Reino definitivo. Além disso, impede-nos de julgar com dureza aqueles que vivem em condições de grande fragilidade” (AL 325).

Esse percurso, essa refeição que fizemos muito rapidamente, é um jantar que merece horas e horas de assimilação, merece ser degustado também na discussão, como acontece em um banquete nupcial, que não pode ser feito às pressas. O critério de leitura geral que vale da introdução até o último prato é coerente com o título: “Amoris laetitia”.

Não é um texto que pode ser lido de modo triste ou ranzinza: se você se coloca diante da Amoris laetitia sem alegria, sai amargurado; você precisa de uma harmonia de abordagem com o tema. Se você o lê como leria um manual de comportamento, fica decepcionado, porque não é um manual de comportamento. É uma leitura sapiencial e magisterial que orienta pastores, sujeitos, operadores, ministros da Igreja a entrar na dinâmica do amor e a acolher a sua lógica clássica junto com uma lógica nova. Desse modo, traduz a tradição do Evangelho no nosso tempo. Sem idealizar a realidade. Sem parar o tempo. Sem absolutizar os estados da vida. Redescobrindo a preciosidade e a delicadeza dos processos.

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