Como nasceu a Populorum progressio, segundo o cardeal Poupard, que a apresentou à imprensa há 50 anos

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29 Março 2017

Era a primeira terça-feira depois da Páscoa – 28 de março de 50 anos atrás – quando a encíclica de Paulo VI Populorum progressio foi oficialmente apresentada à imprensa. Um evento vivido hoje – a 50 anos de distância – “entre recordações, esperanças e trepidações” por uma pessoa diretamente envolvida como o cardeal francês Paul Poupard, hoje presidente emérito dos dicastérios da Cultura e do Diálogo Inter-Religioso.

A reportagem é de Filippo Rizzi, publicada por Avvenire, 28-03-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Naquela distante terça-feira de Páscoa de 1967, na Sala de Imprensa da Santa Sé, coube ao então Mons. Poupard, com 36 anos, apresentar na sua “simples” veste de oficial da Secretaria de Estado, aquele texto que inovaria e “revolucionaria”, em certo sentido, as orientações da doutrina social da Igreja nos anos do pós-Concílio.

“Eu recordo aquele dia como se fosse ontem”, é a confidência de Poupard. “Na época, eu era um jovem colaborador da Secretaria de Estado. Foi precisamente o Papa Montini que me confiou essa delicada tarefa. Tratava-se da minha primeira coletiva de imprensa! Apenas dois dias antes do Domingo de Páscoa, Paulo VI tinha assinado a sua ‘primeira’ encíclica sobre o ‘desenvolvimento dos povos’.”

Um evento que não pegou desprevenido o então Mons. Poupard. “Ainda estávamos no meio das intempéries que se respiraram durante o Vaticano II”, é a reflexão dele. “Lembro-me que me vi sozinho diante de uma ampla plateia de jornalistas. Eu me preparei com antecedência com possíveis respostas para as muitas perguntas que podiam ser inspiradas por um texto tão repleto de expectativas, especialmente para os povos famintos e privados de direitos do Terceiro Mundo e não só. Recordo que foi meu dever explicar o longo trabalho de preparação e a evolução desse texto, retocado até o fim pelo Papa Montini, e como se chegou à redação final.”

A esse propósito, Poupard revela um detalhe: “Para me confirmar a confiança do papa nesse longo trabalho de gestação, chegou até mim, no dia 28 de fevereiro de 1967, uma carta dele assinada que dizia as seguintes palavras: ‘Visto, pode-se confiar no Mons. Poupard, que saberá criteriosamente levar a termo, como ele acredita, estes últimos aperfeiçoamentos e retoques. Obrigado, Paulo VI’”.

Do seu álbum de recordações, o cardeal Poupard extrai algumas das imagens mais significativas sobre o longo trabalho de equipe em torno dessa publicação. “O primeiro esboço redigido, um verdadeiro dossiê, consistia em um pacote datilografado de 43 páginas, com o título ‘Elementos para uma doutrina pontifícia sobre o desenvolvimento’, de setembro de 1964 – revela –, e, entre os especialistas escolhidos para essa imensa pesquisa, figuravam homens do valor do Mons. Pietro Pavan, Mons. Agostino Ferrari Toniolo, o teólogo jesuíta Geroges Jarlot e, obviamente, o ilustre dominicano e principal inspirador indireto da encíclica, o bretão Louis Joseph Lebret. Assim, eu me vi como o interlocutor privilegiado por essa troca de observações e opiniões, entre esses especialistas e Paulo VI, até fevereiro de 1967.”

Mas é sobre o padre dominicano Louis Joseph Lebret que Poupard sente a necessidade de acrescentar alguns detalhes em particular. “Ele era um homem planetário e, graças ao seu movimento ‘Economia e Humanismo’ e através dos seus projetos orientados de ajuda concreta para a vida dos pescadores da Bretanha e, depois, para as outras iniciativas desenvolvidas por ele no Brasil e Senegal, pôde oferecer ao Papa Paulo VI aquela visão de ‘inquietação do mundo’ que se entrevê e ainda se lê nesse texto.”

Um documento muito atual ainda hoje, aos olhos Poupard, “se pensarmos na globalização selvagem de hoje ou em palavras presentes no texto como ‘choque de civilizações’ ou na condenação de vícios capitais como a avareza”. O purpurado, a 50 anos da publicação da encíclica montiniana, identifica muitos pontos de encontro e de conexão ideal entre o magistério de Paulo VI, o de Bento XVI e o de Francisco. “Essa encíclica social representou uma bússola de referência para os dois últimos pontífices. Basta pensar que, em Aparecida, no Brasil, na conclusão da Conferência do Conselho Episcopal Latino-Americano em 2007 – do qual o então cardeal Bergoglio era o relator do texto final –, o Papa Bento quis citar, quase como um ‘lema’ aos delegados daquela cúpula, a Populorum progressio. Muitos traços do pontificado bergogliano, da condenação do comércio de armas a uma certa ideia de capitalismo selvagem, passando pelo fato de que a propriedade privada não é um direito absoluto, reportam-nos a Montini e à sua encíclica.”

Um texto que ainda fala ao homem de hoje. “Acho que sim. Trata-se de um ‘sismógrafo’ muito atento sobre os dramas da humanidade e sobre os tantos direitos violados dos pobres. O Papa Montini, um dia, me perguntou como a encíclica tinha sido acolhida. ‘Santo Padre, o senhor sacudiu a consciência do mundo’, foi a minha resposta. E, muitas vezes, lembro-me da sua réplica: ‘Era exatamente isso que eu pretendia fazer’.”

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