Mudanças na diocese do papa. O desafio e a coragem de dialogar e de se confrontar com o mundo fora do recinto de Latrão

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14 Março 2017

Francisco, até agora, observou em silêncio a fotografia da sua diocese. Depois da Páscoa, ele vai anunciar o nome daquele que vai substituir o cardeal Agostino Vallini. Ele gostaria que Roma fosse um farol luminoso para o mundo. Um exemplo. Mas a diocese do papa labuta, vai levando, se arrasta por inércia, sem projetos pastorais de grande alcance, capazes de servir de reboque para laboratórios de futuro. Como se faltasse o fermento mais do que a boa vontade. O descontentamento é subterrâneo, mas os sinais são visíveis.

A reportagem é de Franca Giansoldati, publicada no jornal Il Messaggero, 12-03-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O seminário diocesano está desoladamente semivazio, com as suas centenas de belos quartos inutilizados. Houve quem tenha sugerido explorá-lo para os refugiados, mas a resposta foi negativa, por causa do caráter extraterritorial de Latrão, o que complicaria um projeto como esse. De fato, esses quartos desabitados exibem uma carência de vitalidade. Os seminaristas – espécie ameaçada de extinção em si mesma – parecem, em Roma, um pouco como os pandas.

Naturalmente, os problemas são bem outros. Existem as finanças desastradas da diocese, por exemplo, tanto que havia sido pedida de uma redução de 10% dos salários. Ou os déficits que surgiram recentemente no santuário do Divino Amore, ou o declínio dos estudantes da Universidade Lateranense, antigamente ponta de lança do sistema acadêmico pontifício.

A lista dos sofrimentos é conhecida de Francisco. Incluindo um certo descontentamento, misturado com amargura, que serpenteia entre os párocos, provavelmente sintoma do descolamento entre a base e a instituição.

Ausência de diálogo

Há alguns anos, um grupo anônimo de padres escreveu ao então Papa Ratzinger para se lamentarem da dificuldade de entabular um diálogo construtivo com a cúpula do Latrão. A carta foi publicada no jornal Il Messaggero, falou-se a respeito por um tempo, e depois tudo acabou assim mesmo.

O Papa Francisco, nesses quatro anos de pontificado, tendo cultivado uma relação direta com alguns deles, sabe que a sua diocese vive uma fase atribulada. De transição.

Agora, trata-se de identificar o sucessor do cardeal Agostino Vallini, que excedeu amplamente a idade da aposentadoria. Antes de chegar ao vicariato, Vallini foi bispo de Albano, depois prefeito da Signatura Apostólica, o Supremo Tribunal vaticano. Em 2006, foi criado cardeal por Bento XVI e, dois anos depois, chamado para suceder Ruini.

Imediatamente depois da eleição, Bergoglio quis que ele estivesse ao seu lado na Loggia das Bênçãos para saudar a multidão presente em São Pedro. Tanto por respeito quanto por amizade, Bergoglio o deixou no cargo para além do limiar dos 75 anos e, com ele, falou também sobre a substituição.

Caça ao nome

Há pouco tempo, um monsenhor perguntou a Francisco se ele já tinha escolhido alguém para o vicariato. Brincando, ele disse que não, porque havia uma “lista longa assim”. Os rumores incluem entre os candidatos o bispo de Terni, Pompili; Dom Paglia; o bispo do setor Sul, Lojudice; o teólogo e prefeito Fisichella; o sostituto, Becciu. Mas a escolha, por enquanto, ainda não amadureceu.

Para resolver a questão de Roma – por causa dos problemas colaterais que apresenta – o papa espera receber as preferências dos párocos, com o velho sistema das consultas. “Eu gostaria de ter, antes, um perfil de vocês.”

Há dois dias, aos párocos do setor, em um encontro a portas fechadas em Latrão, com Vallini presente, Bergoglio pediu para que escrevessem diretamente a ele, pulando por cima de qualquer filtro: “Apresentem o que vocês desejam, quais são as coisas que estão indo e aquelas que não estão”. Não houve perguntas, o encontro foi rápido e terminou com a reunião do conselho pastoral diocesano (do qual o papa não participou, contudo).

A partida continua sendo delicada e complexa. O Papa Bergoglio sabe que não pode errar nessa nomeação. Existem mais de 300 paróquias para serem geridas, coordenadas e às quais é preciso fornecer uma visão operacional de conjunto, incluindo todas as realidades católicas: o exército dos movimentos e dos religiosos presentes no território, o laicato, os outros órgãos que fazem caminhar o bem-estar paralelo na saúde, na educação, na família, na medicina e nas áreas mais pobres de Roma, nas periferias do silêncio, nos cinturões-dormitório, onde, se não houvesse o oratório, não existiria nada de agregador.

A tarefa pela frente do próximo vigário será de projetar grandiosamente, de ter a coragem de dialogar e de se confrontar (no caso) com o mundo fora do recinto de Latrão, onde Cristo já é desconhecido. Francisco confidenciou que não seria necessário criar cardeal o seu próximo vigário. Quem sabe. Seria uma novidade em absoluto, mas também uma faca de dois gumes, que, como efeito colateral, o enfraqueceria desde já aos olhos de Roma.

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