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07 Março 2017

A “direita alternativa”, uma vertente que defende a ideia da supremacia branca, ganha cada vez mais força

A reportagem é de Mark Townsend, publicada por CartaCapital, 03-03-2017.

Uma rede de blogueiros e ativistas de direita surge nas redes sociais britânicas como uma voz cada vez mais influente para os nacionalistas brancos e os adversários do multiculturalismo. A rede também leva crédito por ajudar a conduzir Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos, segundo um novo relatório.

Em sua análise anual sobre a extrema-direita, o Hope Not Hate (Esperança Não Ódio), o maior movimento antirracista e antiextremista do Reino Unido, declarou que, embora grupos de direita convencionais, como a Liga de Defesa Inglesa, continuem se fracionando, novas forças que estão surgindo podem alcançar um vasto público internacional e aumentar o apoio à “direita alternativa”, que é definida como a extrema-direita com um “elemento branco nacionalista” radical que se opõe ao multiculturalismo e defende os “valores ocidentais”.

Uma análise da rede de extrema-direita global durante 2016 – ano do Brexit e de um notável ressurgimento populista por toda a Europa e os Estados Unidos – identificou 28 grupos de extrema-direita ativos no Reino Unido e um grupo de britânicos instrumentais para propagar opiniões da direita alternativa e idealizar ataques à democracia liberal.

“Foi um ano em que ficou mais evidente uma nova ameaça da extrema-direita, amplamente desenvolvida nas redes sociais para um público internacional”, afirma o relatório. “É uma ameaça que esteve no centro do fenômeno global das notícias falsas e que pode atrair e mobilizar um número muito maior de pessoas em toda a Europa e a América do Norte.”

Um exemplo dessas atividades é oferecido por Paul Watson, sediado em Londres, editor e redator do site de conspirações InfoWars, cujo artigo mais popular na manhã da sexta-feira 10 era “Trump destrói juízes esquerdistas”. Watson, que tem 483 mil seguidores no Twitter e 764.872 assinantes no YouTube, foi um dos principais disseminadores da teoria conspiratória divulgada na reta final da campanha eleitoral nos EUA, sobre supostos problemas de saúde de Hillary Clinton, inclusive a fraude “Hillary está morrendo?”

Durante uma série de vídeos desavergonhadamente conspiratórios assistidos milhões de vezes, Watson, originário de Sheffield (centro-norte da Inglaterra), sugeriu que Hillary teria sífilis, danos cerebrais e mal de Parkinson, e afirmou ser ela viciada em drogas. As teorias da conspiração de Watson foram adotadas pela Fox News, a emissora de tevê americana de direita.

Outro britânico cuja intervenção nas eleições nos EUA teria sido decisiva é Jim Dowson, 52 anos, um escocês calvinista que fundou o partido de extrema-direita e antimuçulmano Britain First (Grã-Bretanha Primeiro). Dowson, a partir de uma central na Hungria, montou uma rede de sites e grupos no Facebook voltados para os EUA, com a intenção de promover Trump e difamar sua adversária durante a eleição americana.

Os sites de Dowson incluem o Patriot News Agency – cujas postagens foram vistas e compartilhadas dezenas de milhares de vezes nos EUA e cujos artigos às sextas-feiras incluem a crítica a uma série da Netflix (Dear White People) acusada de incitar o “racismo antibranco”. Uma investigação do The New York Times em dezembro afirmou que, embora um volume considerável de notícias falsas sobre a eleição nos EUA tenha emanado da Europa Central e do Leste, a operação de Dowson foi a única de inspiração obviamente política.

Nesse movimento de extrema-direita cada vez mais internacional, Dowson é considerado adepto de construir uma base de seguidores online e conseguiu atrair 1,4 milhão de usuários do Facebook ao Britain First. O próprio Dowson descreveu sua estratégia de como disseminar “devastadores memes e piadas anti-Hillary Clinton e pró-Trump, em parcelas da população muito desiludidas com a política para prestar atenção na campanha convencional”.

Segundo o relatório do grupo Esperança Não Ódio, Dowson passou a maior parte de 2016 construindo uma rede internacional de partidos de extrema-direita, milícias e extremistas religiosos. Seu grupo anti-imigrantes Cavaleiros Templários Internacionais abriu uma “filial” em Budapeste, na Hungria, onde o ex-líder do Partido Nacionalista Britânico Nick Griffin foi visto em visitas frequentes, juntamente com rostos conhecidos da extrema-direita da Suécia e dos EUA.

Para o Esperança Não Ódio, a influência de Dowson crescerá neste ano, enquanto ele promove as relações com a Rússia e agitadores de extrema-direita na Europa e nos EUA. Uma aliança recente de Dowson envolve Aleksandr Dugin. Esse neofascista com supostas ligações com o Kremlin estaria ajudando Dowson a criar um novo escritório em Belgrado, a capital sérvia, que promoverá sites de notícias de extrema-direita em grafia cirílica.

Nick Lowles, executivo-chefe do Esperança Não Ódio, disse: “O fato de um jovem sentado em um pequeno apartamento no sul de Londres poder criar manchetes nos EUA, ou de um extremista britânico poder usar a capital húngara para influenciar a política na Europa Central, Oriental e Meridional torna muito difícil monitorar e contra-atacar esses grupos”.

Outro britânico considerado uma voz altamente eficaz da extrema-direita, embora tenha tentado se afastar do movimento, é Milo Yiannopoulos, editor de tecnologia do site americano Breitbart News, que afirmou ter 45 milhões de visitantes únicos nas semanas que antecederam a eleição de Trump e no período imediatamente posterior.

O ex-presidente-executivo do Breitbart News, Steve Bannon, é hoje o “estrategista-chefe” de Trump, um homem promovido ao Conselho de Segurança Nacional e que a revista Time chamou na semana passada de possivelmente o segundo homem mais poderoso do mundo. Em discurso numa conferência no Vaticano em 2014, Bannon transformou em objetivo político minar a democracia liberal na Europa Ocidental por meio da promoção dos movimentos nacionalistas.

Yiannopoulos, expulso do Twitter em julho por “incitar e participar de abuso e assédio a outros”, teria assinado recentemente um contrato de 200 mil libras com a editora Simon & Schuster para escrever um livro. Nascido em Kent (Reino Unido) há 33 anos, foi recentemente defendido por Trump como símbolo da liberdade de expressão após manifestantes protestarem violentamente contra o discurso que faria na Universidade da Califórnia em Berkeley, e tem mais de 525 mil fãs no YouTube.

Outras importantes figuras britânicas incluem o videoblogueiro Colin Robertson, que produz vídeos de supremacia branca para o YouTube na casa de seus pais, em West Lothian, na Escócia. Apesar de viver em um meio humilde, Robertson foi convidado a falar no notório encontro da extrema-direita em Washington, em novembro passado, que foi organizado pelo grupo nacionalista Instituto Nacional de Políticas (NPI, na sigla em inglês), onde a multidão entoou Hail Trump e fez saudações nazistas.

O homem de 34 anos também falou, no ano passado, em uma reunião inaugural do Fórum de Seattle, de direita, uma filial de uma rede britânica que, segundo o Esperança Não Ódio, se expande rapidamente. O Fórum de Londres realizou cinco reuniões no ano passado, a última em setembro, com oradores como o negador do Holocausto David Irving e o escritor americano de extrema-direita F. Roger Devlin, que contribui para a revista nacionalista branca Occidental Quarterly. Outros britânicos que falaram no evento do NPI em Washington foram Matthew Tait, um ex-organizador do Partido Nacionalista Britânico que promoveu uma série de reuniões da “direita alternativa” em Holborn, Londres, no fim do ano passado.

Outro acontecimento foi a decisão do governo de proscrever como organização terrorista a agremiação neonazista Ação Nacional. Os defensores desse grupo comemoraram o assassinato da deputada trabalhista Jo Cox, em junho passado, pelo radical de direita Thomas Mair, de 53 anos. As autoridades teriam informações de que alguns de seus principais ativistas tentavam incentivar jovens recrutas a praticar atos terroristas e foram solicitados a colocar adesivos antissemitas em prédios e bairros judeus como parte de sua iniciação.

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